ERETZ MUTIRÃO

por Susy Freitas

A moto corta a Rua Itaetê adormecida na madrugada com discrição. Ao contrário dos traficas e da cabocada em geral, Mutirão optou por não mexer no sistema de gasolina para gerar o barulho altíssimo que caracteriza os trajetos em duas rodas pela cidade. O contraste entre o relativo silêncio na rua hoje e as lembranças de sua infância o surpreende. Anos atrás, Mutirão ia na garupa, colado no dorso da mãe, que guiava a moto com presteza pela Itaetê apinhada, passando entre feirantes, pedestres, vira-latas e as barracas de roupas, eletrônicos, frutas e verduras, além, claro, das placas que indicavam ofertas imperdíveis: promoção de polpa seiscentos, duas por dez; calcinha boka loka, três por dez; compra-se ouro; banca do Paulo, tambaqui, pacu e sardinha. Eita, muvuca da porra!, berrava Geralda de dentro do capacete, ouvida por ninguém, obliterada pelos sons da feira, a cabeça do pequeno latejando no calor.

O destino de antes e de agora se repete: do Amazonino Mendes, na zona Norte, para a casa dos Ruas, na zona Sul. Uma das lembranças mais antigas de Mutirão eram as estátuas em cima do muro da casa, na Rio Pauini: um casal de indígenas, um de cada lado do portão. Suas peles morenas lembravam a do próprio menino, mas os traços tinham algo de estilizado que o assustava, como olhos um pouco grandes demais, músculos definidos e uma voluptuosidade que ele nunca havia visto nas indígenas quando visitava a avó na TI perto de Tefé. Dentro da casa, outra diferença: um casal branco que doía, a Dona Eva e o Seu Clemente, enchia-o de carinhos, bombons e perguntava por seu calção de banho – que ele já vestia por baixo da bermuda –, enquanto Geralda ia para o banheiro trocar de roupa para iniciar o trabalho na cozinha. Na beira da piscina, de óculos escuros, um menino pálido de uns treze, catorze anos, aguardava Mutirão lendo revistas Rolling Stone. Acoplava boias coloridas no braço do pequeno e decretava: bora, bora aprender a nadar, moleque! 

Inúmeros finais de semana transcorreram assim, entre piscina e churrascos. O baião de dona Geralda era devorado compulsivamente pelo adolescente, Bento, que nessa época começou a ganhar peso e vivia sendo regulado pela Dona Eva, a mesma que enchia Derick (naquela época, era como chamavam Mutirão) de chocolate Bis. Seu Clemente, que passava os domingos assistindo a filmes antigos de ficção científica ou arrumando sua infinita coleção de VHS na sala de vídeo, botava a cabeça para fora da porta bem rápido e dizia com um sorriso: chegou a turma do Mutirão! Ele já sabia que, quando cansasse da piscina, depois do almoço, Derick correria para a sala com ele, onde veriam juntos O Homem que Caiu na Terra, Contatos Imediatos de Terceiro Grau ou outro dos filmes pelos quais eram obcecados.  

O motivo de tanto mimo era a crença indubitável de que o garoto havia sido salvo por um milagre do Rabino Muyal. Explica-se: Dona Eva era neta de judeus marroquinos migrados para o Amazonas, e embora criada na tradição católica do resto da família, preservava alguns costumes, como não comer carne de porco. Já depois dos quarenta anos, ela engravidou do segundo filho e, apaixonada pela ideia de dar um irmão a Bentinho, sentiu um baque tremendo quando perdeu a criança aos cinco meses de gravidez. Uma depressão avassaladora quase lhe tirou a vida na época, sendo a chegada de Geralda, com seus cuidados e jeito marrento, o que a tirou do fundo do poço, juntamente com Derick, então com um ano e meio.

O carinho com o pequeno era tanto que até o menino Bentinho, na contramão dos filhos únicos que se entregam a ciúmes doentios, via Derick como um irmão mais novo que, por alguma razão não muito clara, morava longe dele. Por isso, quando Derick teve um grave problema respiratório aos quatro anos e precisou passar por uma delicada cirurgia, Dona Eva não pensou duas vezes: bancou o tratamento, separou uma pedra e levou para o túmulo do Rabino Muyal, o qual se dizia que era capaz de conceder graças de boa saúde. Dezenas de outras pedras descansavam sobre o túmulo do santo judeu, e por isso Eva se encarregou de escolher uma maior e mais vistosa, rezando sobre ela enquanto admirava as diversas placas afixadas no entorno, nas quais estavam registradas mensagens de gratidão. Não por acaso, o aniversário de cinco anos de Derick, já com a criança totalmente recuperada, foi celebrado no cemitério, com a fixação de uma nova placa: “Graça alcançada, D. S. M” (D de Derick, S de Silva e M de Madeira).

Antes mesmo de Mutirão tocar a campainha, o portão da casa da Rio Pauini se abriu. Ele demorou alguns segundos para reconhecer Bento Ruas, com quem não tinha contato desde que o quase irmão fora morar com os tios em Brasília. Pelas contas, ele devia estar com uns trinta, trinta e um anos, mas parecia mais velho. Alguns cabelos brancos despontavam ondulados, além de olheiras proeminentes na cara chupada, que contrastava com a barriga de cerveja, embora os braços e pernas fossem mais finos do que deveria prever sua configuração corporal. Esse bicho tá só o bagaço, concluiu Mutirão. Já ele próprio era apenas uma versão espichada do que sempre fora: um caboco de cabelo liso, de cuia, baixinho e seco. A novidade era o estilo descolado, combinando uma camiseta puída do Portishead com uma bermuda tactel cheia de alienígenas desenhados e uma botinha Caterpillar falsificada com meia lilás.

– Essa camiseta era minha? – perguntou Ruas, abraçando Mutirão, sendo esse o cumprimento.

– Mãezinha me deu, faz uns 4 anos já – respondeu Mutirão. Ele sempre chamou Dona Eva de mãezinha.

– Bom saber que eu colaborei com algo relevante no mundo. Tua educação musical, no caso.

– Foi o que deu pra fazer – suspirou Mutirão, entrando no assunto que não esperava tocar – Tu sumiu, né?

– Pois é… – suspirou Ruas de volta, encabulado, passando a mão nas cicatrizes nos pulsos, riscas altas e de tom levemente mais avermelhado que o resto da pele.

– A Dona Geralda não me falou nada quando tu tava fudido lá – explicou Mutirão, segurando as mãos de Ruas. Ele sempre chamou a mãe de Dona Geralda – Ela só foi me contar dia desses, quando disse que tu ia cuidar aqui da casa agora.  Eu fiquei buceta, ó.

– Deixe Dona Geralda, que eu que pedi pra ela ficar na dela. Ela queria até me mandar um dinheirinho naquela época, acredita? Aliás, eu mandei um Pix pra ela ontem, ela viu? Diga pra ela ir ver logo aquele braço dela, que é o tempo que eu resolvo aqui as coisas e vejo o que precisa pra botar ela no plano de saúde.

– Valeu, mano.

– Bora logo tomar uma é que é. Tu bebe, né?

– Bebo mesmo…

Bastou isso para que Mutirão e Ruas reatassem os laços depois de quase sete anos sem contato. Na moto, os irmãos aterrorizavam os carrões na João Valério, desceram a Djalma e foram parar no Gringo’s. Para surpresa de Ruas, o bar continuava exatamente do mesmo jeito que na década passada, com boa parte do elenco original, inclusive. Ali os irmãos compartilharam segredos e façanhas, e Mutirão também conheceu uma antiga amiga de Ruas, Soraya, que.sem cerimônia, se juntou a eles na bebedeira. 

O que era novo ali era o fulgor nos olhos de Bentinho – me chama só de Ruas agora – ao misturar niilismo, grafite, terrorismo, luta de classe e surrealismo numa mesma sentença, num conjunto desconexo que não significava nada para Mutirão. Ele até tinha uma vaga lembrança de vê-lo com uns livros de poesia entre apostilas de cursinho preparatório no passado, mas nada que apontasse um gosto para a subversão. Como resultado, Mutirão apenas ficava em silêncio, balançando a cabeça em concordância, enquanto Soraya adicionava mais ingredientes nonsense à conversa. Ela encontrou, por exemplo, um gancho para discorrer sobre as luzes no cabelo de Michelle Bolsonaro na cerimônia de posse do marido, ocorrida alguns dias antes, e como a estética neopentecostal será regurgitada pela comunidade éle-gê-bê-tê como forma de contra discurso nos anos seguintes, tudo isso enquanto retocava o batom ou ajeitava as ondas dos cabelos cor de vinho – vinho não, Marselha.

Como devem ter sido os anos de Ruas em Brasília? Por que ele tentou se matar? Esses eram assuntos que não pareciam interessar em nada a ele, de forma que Mutirão decidiu que também não interessava a si. Em vez disso, aceitou de Soraya alguns livros, a título de empréstimo, incluindo o Guerra e Spray, do Banksy, e uma edição detonada do The Anarchist Cookbook – que ela garantiu ter todas as notas em português necessárias para entender o que interessa. O que interessa? Como assim?, pensou Mutirão.

– Mas é pra ler e devolver! – reforçou Soraia, cruzando as pernas ao acender um cigarro de cravo para ela e outro para Ruas – Aqui são quatro vês: vai e volta voando, viado! Tu mora onde?

– No Mutirão – ele gaguejou. 

– Mutirão que mora no Mutirão, tá anotado! – berrou Soraya, rindo com todos os dentes possíveis. A rendinha da barra de sua minissaia deixava visível uma espécie de punhal, preso na cinta liga.

Já era quase meia-noite quando Mutirão decidiu quebrar um na praça do Congresso e, atentando contra a própria segurança, tirar do bolso o celular de tela trincada. Nas notificações, apenas um vídeo de coelhinhos com a logo do Kwai, enviado pela mãe; uma discussão infinita sobre slides de apresentação de trabalho no grupo dos colegas de faculdade; e uma mensagem de Lua Madeira, apenas um emoji. Ao olhar o rosto amarelo estilizado, com sobrancelhas questionadoras e uma mãozinha no queixo, ele suspirou. Abriu a galeria do celular, que travou numa tela cinza por alguns segundos até finalmente mostrar o conteúdo e permitir que ele clicasse num vídeo. Nele, a garota virava uma dose de cachaça e dublava uma versão de Blue Velvet na voz de Bob Vinton. Ela olhava diretamente para a câmera, gesticulando uma sensualidade que atravessava sua falta de traquejo e embriaguez.

– Cuidado com o conselho tutelar – disse Ruas, analisando o vídeo, quase matando o irmão de susto. 

– Não, po – responde, passando a ele o baseado – Ela é de maior.

Os dois assistem a mais um looping do vídeo, as duas cabeças inclinadas de forma espelhada sobre o celular, a garota olhando para os quatro olhos.

–  Namorada?

– Minha prima, Luana – ele responde, corrigindo-se em seguida – Lua, que a gente chama.

– Rapaz… Tá pegando?

– Cara, não, ó. Querer, eu queria. Ela tá morando em Manaus agora, a gente tem saído bastante. Mas eu não sei qual é a dela. Ela é meio estranha.

– Eu odeio essa palavra. Estranho. Que porra isso quer dizer?

– Quer dizer que ela é muito gata.

Uma rajada de vento corta a conversa, assobia na madrugada. Nuvens rastejam como lesmas amarelas, refletindo a luz dos postes e anunciando uma chuva que pode ou não se concretizar. Pelas beiradas escuras da praça do Congresso, metaleiros conversam, moradores do prédio ao lado contam os segundos para entrarem na zona de segurança do lar e a repetição da trilha sonora do Gringo’s tenta infeccioná-los. Sentada ao lago do Quiosque da Baiana, uma mulher suja e tísica repete baixinho, sem parar: A menina do céu! Ela vai colocar vocês em encrenca nas estrelas! É sim! O falatório só termina quando sua pedra de óxi queima e a mulher enfim fuma algum alívio. Porém, o que realmente chama a atenção é o homem negro de terno branco e gravata vermelha que se aproxima gargalhando, passa exatamente entre os irmãos e segue pela escuridão da Monsenhor Coutinho.

Deixe um comentário