Fala que eu te escuto

A canadense Rachel Cusk tem orelhas enormes. Sua premiada trilogia formada por EsboçoTrânsito Mérito (Todavia, e aqui para ser pirateada) é toda estruturada em encontros. Não há grandes peripécias nem enredos mirabolantes. Cusk se dedica, assim como Karl Ove Knausgard, a esmiuçar as migalhas do cotidiano. Mas, dentro da autoficção, ela vai por outro caminho: o da escuta.

Em seus encontros, Cusk limita-se a ouvir com perfeita paciência as quilométricas histórias de seus personagens, que também são descritos milimetricamente. A simulação da realidade objetiva é tão perfeita que sentimos estar testemunhando acontecer a própria vida em ‘tempo real‘. O ouvido de dona Cusk é um buraco negro tão potente que até mesmo durante uma tarde em que é entrevistada por três pessoas – uma das cenas mais sutilmente hilárias do romance Mérito – seus entrevistadores falam mais do que ela.

Com sua presença fantasmagórica, talento para a invisibilidade e curiosidade inesgotável, Cusk faz uma profunda crítica à nossa era narcísica – muitos de seus personagens falam, falam e não dizem nada, e muitos acabam revelando o contrário do que querem propagar. No entanto, engana-se quem acha que ela está apenas transcrevendo literalmente as conversas. Embora as aspas tenham um ar informal e uma prosódia coloquial, ninguém fala desse jeito – tão organizado, racional, lógico. É claro que a narradora organiza aquele pensamento para formar um personagem através de sua voz, bem como da maneira como ele se porta e se apresenta ao mundo. A organização do texto do personagem também trai a própria visão de mundo da autora, que em raras vezes abre a boca. Ela diz através dos outros.

PROPOSTA

Bem, eis aí o que você vai fazer: contar uma história ouvindo outra pessoa contando.

Digamos que você encontre a sua ou o seu personagem em um encontro:

a) casual

b) marcado

Este encontro se deu:

a) em trânsito (num avião, num carro, num trem, numa sala de espera etc)

b) num lugar específico (casa de alguém, restaurante, bar, café, trabalho etc)

Seu personagem sem querer irá fazer uma revelação sobre sua vida enquanto abre o bico:

a) sobre seu casamento

b) sobre seu trabalho

c) sobre sua família

d) sobre um prazer secreto

e) sobre um crime que cometeu

Limite-se a contar o que seu personagem conta. Mas não deixe de observá-lo. Preste atenção ao modo como ele conta sua história. Descreva-o enquanto ele conta sua história. Descreva o ambiente em volta. Faça perguntasComente o que ele conta. Reflita sobre o que ele fala. Tente entender o que ele conta. Analise, interprete, duvide do que ele conta.

Em até 9 mil toques.

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