Metade de uma história

Mote: um pai preocupado

1

Já havia uber, mas ainda era coisa recente. Supostamente perigosa. Diziam que os taxistas fechavam o uber e davam uma sova – tanto no motorista quanto no passageiro. A maioria elogiava o serviço, os preços. Mas havia um sentimento além da mera satisfação do cliente: o espírito da desforra. Quase todo mundo tinha sua própria história ruim com taxista. Povo rude, mal educado, dono da rua, serviço ruim. Aquela empáfia primata e macha de torcedor.

Seu Plínio não pensava assim. Na frente da loja havia um ponto de táxi. A maior parte dos motoristas daquele ponto correspondia ao preconceito. Exceto o Manuca. Era o mais velho do ponto. Conhecera seu pai, quando a loja ainda era um bar. Poucas palavras, mas cada palavra tinha seu peso. Aquela sabedoria que só o tempo livre entre os passageiros e o silêncio permitem. Manuca não tinha rádio no carro. Nem se o cliente pedisse. Só os muito conhecidos sabiam o motivo. Perdera o filho há muitos anos num assalto estúpido, tentando impedir o roubo de um rádio de gaveta.

Talvez a quietude do painel do carro tenha lhe favorecido. Enquanto os demais motoristas do ponto se atormentavam em provocações e brincadeiras de mão, enquanto eles se metiam em esquemas complicados, Maneco ficava apoiado em pé, costas no muro, fazendo palavras cruzadas.

Foi assim que seu Plínio o encontrou naquela manhã. Prendeu a caneta atrás da orelha, assim que percebeu que seria uma conversa complicada. Afastaram-se dos outros motoristas para ficarem mais isolados. Quando ouviu o que o outro pretendia, seu Maneco arregalou os olhos… mas depois assentiu. Foi até o porta-luvas de seu táxi e de lá retirou dois cartões.

-Tem esse e esse. Recomento o segundo. O outro é caro, umas meninas arrogantes. Não vão servir.

Maneco disse que não poderia levar seu Plínio. O velho motorista já não trabalhava à noite. Explicou que já era hora de ir parando. Não carecia mais ficar juntando dinheiro. Para quê? Uns anos depois, Maneco morreria de Covid no pico da pandemia. Foi até bom ninguém poder ir ao cemitério; não se sabe se haveria muita gente para ir no enterro do viúvo solitário.

2

Terça-feira, a segunda-feira das boates. O táxi entrou pelo estacionamento, não havia muitos carros. Seu Plínio pagou o taxista, era um rapaz não muito mais velho que seu filho, cheio de marcas de acne no rosto. Ficou um bom tempo procurando notas para o troco. O passageiro esperou calmamente, não tinha pressa.

A amplidão do salão ficava maior ainda pela baixa quantidade de clientes. As luzes acesas parcialmente para reforçar a penumbra. As moças pelo salão cravaram os olhos no seu Plínio: velho costuma ter dinheiro. Algumas se aproximaram ávidas e pegajosas parecendo pombas cercando o dono do milho, mas ele recusou educadamente. Para se justificar e evitar perguntas, explicou estar à espera de um amigo.

Sentou-se no bancos do balcão. O balconista – um homem magrinho mal ajambrado em seu uniforme – aproximou-se, mas seu Plínio fez um gesto rotativo de “daqui a pouco”. Daí virou-se para observar com mais cuidado o salão. Próximo às paredes, alguns clientes sentavam-se nas poltronas, já devidamente atendidos por algumas senhoritas. Outras menos afoitas conversavam calmamente aos pares, esperando. O homem percebeu que elas eram bem diferentes da época em que era frequentador desse tipo de estabelecimento. Por certo, eram boates de pior qualidade e ele também era bem menos exigente. Antes só dava garota feia, numa atuação exagerada, entre bêbadas e drogadas, maquiadas até a nuca. Seu Plínio repugnava maquiagem por isso. Dentro de mais uns poucos anos, ele descobriria que criancinhas aprendiam a se maquiar pelo YouTube e ele teve a certeza que o Apocalipse sinalizava sua chegada.

(A verdade é que seu Plínio esquecera dos carnavais de uns poucos anos atrás, com Feiticeiras e Tiazinhas no auge do sucesso, e centenas de criancinhas alegremente vestidas de BDSM e dançarinas do ventre. Seu Plínio era bastante criterioso com suas memórias e as selecionava com cuidado para poder proclamar juízos definitivos e sentenciar catástrofes.)

Quando decidiu pedir uma long neck, o balconista estava noutra: completamente entretido com uma ruiva (tingida?) de olhar trêmulo. Riam alto a ponto de atrapalhar a música de fundo. Ele iria demorar para vê-lo, mas seu Plínio não tinha pressa.

O dono da loja de material de construção continuou na observação discreta para elas não se aproximarem ainda. Essas senhoritas, diferentes das de sua juventude, pareciam muito comuns. Poderiam ser clientes de sua loja, praticantes de ginástica, vendedoras de shopping. Havia sim uma preocupação estética, mas esta não era mais a dos vestidos justos a vácuo no corpo, nem dos saltos agulha, da ruminação constante dos chicletes e dos perfumes doces enjoativos.

Ou melhor, até poderia haver uma ou outra puta com essas características. Olha aquela ali, cabelo longo e liso na chapinha recebendo clientes com uma pegada nos saco. Vulgar até a medula óssea. Mas já não era mais assim tão óbvio. 

-Ô Surubim, ó o senhor aqui esperando ser atendido.

Seu Plínio não viu essa se aproximar. Ela tamborilava as unhas longas na fórmica no balcão num ritmo rápido e nervoso. Ela fazia o modelo “estou toda à vontade em casa”, mas uma coisa moderna, nada de baby doll ou penhoar: uma camiseta de alcinha, shorts jeans curtos e desfiados mordendo as coxas capazes de esmagar melancias. Como contraste, usava óculos de aros grossos. Poderia estar fazendo as unhas dos pés em casa, mas estava ali, a seu lado. Era um objeto tesudo, do tipo que seu Plínio só via à distância em raras oportunidades. Ele sentiu que deveria agradecer à chamada que a moça dera no barman.

– Não foi nada, fiz isso por mim também. Esse cabeça-chata fica de conversinha, se depender dele não larga nunca mais a sardenta. – explicou arrumando os óculos no nariz.

Surubim trouxe a long neck – preço de ouro – e água com gás para a de óculos. A camiseta de alcinha contou que vinha do interior, fazia direito de manhã aqui na capital. Trabalhava ali para ajudar nas contas. Enquanto ela descrevia sua vida, sentou-se no banco e ficou ali girando de leve, um tanto infantil, um tanto oferecendo seu produto, as coxas enormes e brilhantes repletas de desenhos. Estavam muito próximas das mãos enrugadas de seu Plínio, mas este ficou intimidado…  mas não muito. Ficou curioso com uma, um óculos cortado por um raio.

-Ah, é Harry Potter, você nunca leu..?

Seu Plínio não era um homem ignorante. Ele sabia quem era Harry Potter, Guerra nas Estrelas, Pantanal, Lambada, Space Invaders e Legião Urbana. Mas tudo isso passara por sua vida sem grandes marolas ou arroubos sentimentais. Eram uma música de fundo enquanto se dirigia na estrada. Pouca diferença faria, o importante era a estrada.

Ele sabia que seu filho, Max, tinha o livro do Potter em casa. Ganhou num aniversário de um parente. Ele o lera? Seu Plínio não tinha certeza. Teve vontade de mandar uma mensagem para Rúbia, será que ela saberia disso? Max nunca deu sinal de interesse por bruxaria, nem por futebol, ou pela Igreja. Seu Plínio acabara de notar que pouco sabia do garoto, o amava um pouco como se ama um bicho, por estar ali, por depender de você, por ser sua responsabilidade. Sem palavras, segredos ou diálogos.

(De novo, olha lá seu Plínio escolhendo o que quer nas memórias, separando pedras do feijão. A verdade é que o pai tentara incutir no filho amor pela loja, pelos negócios, pelos clientes e funcionário. Ele já não poderia meter a mão na massa, como seu pai fizera antes com ele, eram outros tempo, criança não trabalha ou se toma multa. Mas Max nunca se atentou muito para o comércio do pai, nem para o resto da humanidade fora da escola ou família. Ele tinha até um pouco de raiva daquele povo pedindo desconto e querendo puxar assunto com criança, bando de velho safado. O desinteresse do menino levara ao pai desinteressado no filho)

Seu Plínio acabou concluindo que a senhorita fã de Harry Potter não era o ideal para o guri. Ela passou a insistir em fazer um amorzinho gostoso e quase que seu Plínio mudou de planos quando foi ao estabelecimento naquela noite. Era uma mulher forte e jovem e capaz de oferecer um conforto e um colo para chorar, um alívio naqueles dias duros.

Mas não era o que Max precisava. Era tão nova quanto impaciente e um tanto alheia. Ela só o abordara porque era um homem de meia idade, um coroa mais endinheirado e com uma foda provavelmente breve. Ela fez beicinho diante da recusa e saiu rebolante para pescar no lago da clientela.

3

Seu Plínio tomando cerveja no gargalo: ele se sentia um tanto primitivo fazendo isso, mas estava fazendo. As luzes da pista se apagaram e a música mudou de ritmo. Mais homens haviam chegado nesse meio tempo, em grupos risonhos e bárbaros. Um alto-falante anunciou o show e parte da audiência se deslocou na direção do palco em T, o que permitiria que as strippers se aproximarem ao máximo do respeitável público.

De repente surgiu a ruiva de Surubim lá dos bastidores. Quando que ela fora para lá? Agora a moça vestia uma roupa muito mais extravagante e saltos ainda mais altos. O olhar dela continuava vibrante, mas agora sob uma máscara alegre. Sob o efeito da luz negra, seus olhos e dentes brilhavam. Alguns clientes juraram ver o pó próximo ao nariz. Porém, as luzes do palco se acenderam. A ruiva passou a se pendurar nos mastros de poledancing, parecendo um macaco balançando furioso em um trepa-trepa de playground. Um apresentador se fazia de animador de rodeiro tentando enfiar mais ânimo aos poucos espectadores. Seu Plínio reparou no óbvio: ela era muito mais bela nua e o seu sorriso esmorecia no meio de certas acrobacias. Ele também ponderou de um jeito meio triste, aquilo era tão ridículo e impróprio quanto um urso fantasiado de arlequim sobre uma mobilete no picadeiro.

Alguém tocou em seu ombro. Era um segurança da boate, o grandão de sempre em terno preto. Apontou uma moça.

-Ela quer conversar contigo, doutor.

Seu Plínio achou graça na abordagem, tão comedida perto da voracidade das demais piranhas. A moça se apresenta como Talinn e tinha um leve sotaque baiano. Ela estava há poucas semanas na casa, que já havia vindo para cá fazer uma grana algumas vezes, mas confessou que não se sentia confortável naquela competição. O povo aqui é muito agressivo, deus me livre, umas são boazinhas, mas tem um monte de fura-olho aqui. Seu Plínio comentou que para cá tudo é um pouco assim, cidade grande, impiedosa. Talinn concordou, disse que achava que seria mais fácil, Salvador também não é fácil, na verdade nada nunca é fácil nem para as mulheres de vida fácil. Explicou que queria fazer logo dinheiro para a mãe e para filha que ficaram na Bahia. O rosto da menina se iluminou ao falar da criança e de um modo cauteloso Plínio pressentiu que a garota falava a verdade.

-Eu a tive muito nova, o pai é um merda, sempre foi, mas o culpo. Éramos tudo uns avoados.

E a mãe ajudou mas dinheiro não dava e ela foi começando meio de propósito, meio sem querer, primeiro com os gringos, senhores com todo dinheiro e sem nenhuma pegada. Sempre querem menina nova, peito pouco, culote largo e boca suja. Eu tinha o inglês da escola e o resto eu tentava aprender por CD de banca de jornal e em filmes de terror.

– Filme de terror é tudo palha, pior é a vida.

Talinn contou que foi para a África com um milionário. Explicou de um jeito que seu Plínio não conseguiu entender os detalhes. Ela não disse o nome do país, disse que apenas que era um homem tão rico quanto velho, cheio de filhos, ouros e infelicidades. Ela não aguentou muito tempo do lado de lá do Atlântico, um ano talvez. Ela o fazia rir e quanto não fazia, sentava ali do lado do coroa, os gringos todos lá debatendo algo importante e ela em seu colo ou mordiscando sua orelha. Às vezes eram reuniões com os filhos, outras com as demais esposas dele. Depois que todos saíam da sala, o velho deitava sua cabeça no ombro de Talinn.

-Eles sentem nojo de mim. Vão me matar assim que eu der as costas. Você sim é feliz.

E a baiana abraçava e o massageava nos pés e torcia para que não o matassem antes dele pagar o que lhe devia.

Quando terminou o ano, o velho príncipe insistiu que permanecesse, mas ela explicou que não queria que minha filha a odiasse como os filhos dele o odiavam. Ser pai e mãe de longe não adianta. Precisava estar presente. E ela também já achava que estava rica o suficiente. E ganhou mesmo bastante. Deu para tirar a mãe e a filha da dependência do aluguel. Depois Talinn foi fazer universidade, sem precisar de crédito estudantil, e até arrumou namorado.

-Seu namorado não se importa de você estar aqui?

A moça amuou-se e deixou ir embora o sorriso por um instante: haviam terminado. Ela nunca poderia ter contado para ele a sua história como agora ela fazia para aquele estranho. Seu namorado era um rapaz sério, determinado, estava nas baixas patentes da marinha mas estudando para ser oficial. Era um homem muito machista, desconfiava dela. Dizia: nunca vi mulher que nem você, querer assim todo dia, todo dia, como vai ser quando eu estiver embarcado? Eles terminaram e apesar desse muro de segredos ela ainda sentia muito a falta do moço.

Talinn cruzou os braços e baixou a cabeça para os próprios pés. Para mudar de assunto, Seu Plínio quis saber entender porque voltara aos programas. Ela disse que era só mais essa temporada, desse ano seria o último. Mulher da vida tem que parar, não dá para ficar nessa somente. Tem doida que fica fazendo plástica atrás de plástica, fica doze horas na academia, tudo para ficar gostosona e tal e eu não tenho essa vontade. A ideia é abrir um salão para a mãe, minha mãe é ainda muito nova, minha filha ainda tem muito para crescer e a gente não precisa só de dinheiro mas tem que trabalhar.

-Então esse ano é o último? Vai ter que aproveitar bastante…

-Isso se eu aguentar ficar parada. Trepar, gozar, foder é bom demais. Não sei se tem homem que dê conta de ficar comigo como preciso.

Em seguida Talinn perguntou se havia gostado dela. Se não houvesse, não tinha problema, mas pediu que comprasse uma segunda cerveja. A Casa exigia isso das meninas e isso ajudaria a fechar a meta. Seu Plínio a encarou, talvez tenha até se apaixonado um pouco. Sua conversa o agradou. Talvez aquela parte das trepadas tenha sido mentira, uma pequena publicidade de seus atributos. Ele simpatizou com a baiana. Por tudo que vivera e vivenciara, ela devia ser mais velha do que aparentava. A altura ajudava a torna-la mais jovem. Ou então ela começara muito nova, talvez até criança. Tinha pele cor de pingado, um marrom caramelo e doce. Se fosse mais novo, mais potente e mais ingênuo talvez pudesse ser este candidato de namorado, um sujeito capaz de ignorar esse passado e de ser este parceiro, alguém comprometido e desafiador, um pai para sua filha.

Mas seu Plínio já beirava os cinquenta e havia Max, seu filho. Ele aceitou pagar a cerveja, mas não iria para o quarto com a moça. Contudo tinha uma proposta para ela, algo que se ela aceitasse, talvez aliviasse da temporada na Casa.

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