Para Han Kan
Abri a geladeira e dei falta de um bife. Pela terceira vez. A bandeja de isopor tinha apenas quatro e o plástico estava frouxo. Nem se deram ao trabalho de esticar o negócio pra não entrar ar. Fiquei danada e procurei em todos os potes. Prefiro que me levem um bife do que um pote, mas já era demais. Hoje dou falta de um, amanhã dou falta de dois e o açougue não aceita fiado nem dá desconto. Tapuer vazio não enche barriga.
Gritei o Mizael. Mesmo num quarto e sala esse menino não ouve.
“Você quer me matar de tanto gritar, Miza? Desliga essa droga de louvor e vem aqui”.
“Senhora”.
Apareceu vestindo uma camiseta do encontro de jovens da igreja de cinco anos atrás, mostrando o umbigo seco, e uma calça de moletom pescando siri. Estava com um sorriso besta de quem viu passarinho verde, mas ele vê coisas o dia todo.
“Cadê o bife que estava aqui?”, perguntei.
Ele grudou os olhos no chão e não falou nada. Estalei uma palma na frente do nariz dele.
“Eu peguei, vó”.
“Você comeu?”, e me espantei, porque quando ele tinha dez anos queimou a sobrancelha e não chega perto do fogão.
“Não. Eu, eu, eu peguei pra dar pros cachorrinhos”, e não levantou a cabeça.
A goteira da pia já tinha enchido metade da panela que uso pra regar as plantas e o barulho estava me deixando louca.
“Cachorro? Você está dando carne pros cachorros da vizinha?”.
“Não, senhora. É pra uns perto do serviço”.
Sacudi ele pelo pulso, queria sacudir pelo braço, embaixo do sovaco, mas só alcanço o pulso.
“Esses bichos só comem filé, seu imbecil. Mas que merda”.
“Não fala nome feio, vó, que Jesus não gosta”. Mizael estava com a voz pra dentro, estalou os dedos e continuou apertando depois do barulho.
Mandei ele estender a mão e dei com meu tamanco de ir ao banco no meio da palma, que nem ficou vermelha. Mandei ele se abaixar e dei um tapa no meio da cara, que nem ficou vermelha. Ele foi até a geladeira e tirou um embrulho de jornal, que eu não tinha achado em lugar nenhum: era o bife, já meio marrom.
Mizael abriu o embrulho e disse:
“Venham todos vocês, animais do campo, animais da floresta, venham comer. Isaías, capítulo…”.
“Cala essa sua boca”.
Botei uma frigideira com óleo no fogo e joguei o bife. Mizael começou a puxar a camisa pra baixo e a choramingar e a puxar os cabelos pra cima.
“Não é pra senhora, não é pra senhora, não é pra senhora, é pros cachorrinhos”.
“Deus me perdoe, pelo amor de deus. Esses bichos só comem filé e você gastando nosso coxão duro”, eu disse enquanto espantava ele com o garfo. Virei o bife e vi um negócio branco no meio da carne, meio gosmento de sangue.
“Por favor, vó. É pros cachorrinhos, por favor, vovó”.
Futuquei o negócio com a ponta do garfo, vi que era uma linha. Não saía só puxando. Peguei a tesoura, cortei em cima de um pontinho que nem minha mãe bordadeira fazia tão apertado. Caiu um monte de grãozinhos amarelos e brilhantes fazendo um barulhinho no metal, pipocando na frigideira. Peguei um, cheirei e furei o dedo.
“Você tá dando vidro pra cachorro? Pra cachorro de rico!”.
“Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, vó. Apocalipse, capítulo 22, versículo 15”.
Mizael tinha levantado a cabeça e me olhava no fundo dos olhos. Ele parecia mais alto e determinado, como quase nunca, do mesmo jeito que ficava olhando o pastor durante os cultos de libertação às quartas-feiras.
*
Uma semana depois, a dona Patrícia notou as veias estouradas na minha mão enquanto eu engomava os colarinhos do seu Natal. Disse que era hipertensão, artrite, artrose, ganhei dois dias de folga. Pra você se recuperar, ela disse. Eu já tinha arrebentado todas as minhas forças no corpo magro e comprido de meu neto, que é mais claro que eu mas não ficava vermelho com nenhuma pancada que eu dava. Já tinha guardado os bifes de carne e de frango na geladeira da vizinha. Também já tinha chamado o pastor, que tem idade pra ser meu filho, lá em casa. Contei pra ele a história toda e disse:
“O senhor começou esse negócio de estudo bíblico o tempo inteiro, o senhor resolva”.
Ele gastou toda lábia que tinha, e se tem uma coisa que não falta naqueles beiços é lábia, mas não adiantou. O menino ficou o tempo todo com a cara no chão, menos quando repetia os versículos. Era olho no olho, nenhum tremidinho na voz, sem piscar. O pastor expulsou Mizael da igreja. Ele já não andava na rua com o livro preto embaixo do sovaco, nem ouvia louvor, nem andava pra lugar nenhum. Também não comia nada além de pão e água, e quando eu tentava obrigá-lo a comer ele só dizia que o Senhor jejuou 40 dias e 40 noites. No dia do pagamento de Mizael, que sempre é feito pra mim, o chefe dos vigilantes do quarteirão da dona Patrícia veio me perguntar porque ele não tinha aparecido a semana inteira. Eu disse que era diarreia e que ele já voltava.
No meu primeiro dia de folga, ameacei botar fogo na bíblia e Mizael vestiu o colete preto com letras grandes e amarelas nas costas e foi trabalhar, mais bambo que vara verde. Esperei uns cinco minutos e fui atrás dele. Fez um caminho diferente, desceu mais de dez quadras antes do ponto e foi entrando numa rua, entrando em outra, dando um monte de voltas. Até que parou na frente de um casarão e ficou olhando pra um pastor alemão enorme, que latia pra ele e pingava baba dos cantos pretos da boca. Ele viu uma guarita de vigia no fim da rua, virou pro outro lado e foi embora. Eu fui até lá e falei com o segurança, disse que ia fazer diária por ali e perguntei se a rua era segura.
“Nunca vi um assalto por aqui, passa viatura toda hora. Mas teve alguém matando cachorro”.
“E foi, é?”, perguntei.
“Foi. O rottweiler de um doutor ali na esquina. Acordou cuspindo e cagando sangue. Morreu todo cortado”.
“Que horror”.
“É. Mas o bicho teve uma vida boa. E morte também. Velório e tudo”, o vigia disse e riu.
No ônibus, voltando pra casa, fiquei pensando nos cachorros da rua do serviço que latem pra qualquer preto que passa, no Milorde, o poodle da dona Patrícia que fica trepando com minha perna e ela não castra porque tem pena, e no cachorro que nunca deixei meus filhos terem. Também pensei nos cachorros da vizinha. Gosto deles porque gosto de vira-latas. O chefe de Mizael me ligou e disse que ele não tinha curado da caganeira. Desmaiou em cima da bicicleta enquanto fazia a ronda no quarteirão. Esperei no ponto de casa por ele, já vinha tão curvado que foi fácil de escorar no meu ombro. Larguei Mizael na cozinha e saí de novo.
Fui na vizinha e voltei com um bife grande. Ele estava tão fraco que nem conseguiu sorrir. Também não conseguiu buscar o estojinho de costura ou moer a garrafa de cerveja do lixo da rua ou segurar a agulha. Tudo isso eu que fiz. Ele só ia sussurrando como cortar a carne sem fazer buraco, como espalhar os cacos, como fechar o corte que nem doutor de filme. Outra pessoa teria vontade de vomitar. Uma pessoa com um neto de barriga cheia.
“Vamos alimentar os cachorrinhos, vovó?”, Mizael perguntou.
“Primeiro você vai comer”, eu disse e fui enfiando colheradas de sopa de ervilha gelada na boca dele.
*
Abri a porta dos fundos do casarão pelo interfone e Mizael entrou na cozinha vestindo o colete preto. Nos dias de turno diurno, ele almoça no meu serviço. Meus patrões descontam do meu salário no fim do mês a comida, mas pela água eles não cobram.
Mizael se levantou quando entrou o Seu Natal, que mandou ele sentar. Pegou uma garrafa d’água, olhou pro prato e disse:
“Ô Mundinha, não vai botar picadinho pro garoto?”.
“Ele não come carne. Fala pro seu Natal, Miza”. Eu estava lavando os pratos e não olhei pra ele.
“Não como, não senhor”, Mizael disse com a boca cheia de feijão.
Claro que não, porque ainda não fiquei maluca pra gastar dois bifes de uma vez. Fiz ele escolher e até foi bom. Ele parece mais forte que antes, mais disposto, mesmo todo mundo dizendo que ele vai ficar amarelo comendo assim. Também está quase bonito, a pele já não tem aquela craca de espinha cheia de pus, o bigodinho engrossou, me lembra o pai dele antes do barbeiro da cadeia raspar tudo. E voltou a ter a bíblia sempre junto. Comia com ela presa no sovaco, pra ler assim que terminasse de comer.
“Ah, vegetariano!”, o seu Natal falou.
Eu sei lá como se fala, essa gente tem nome pra tudo.
“Agora está na moda. A juventude de hoje é cheia de frescura. Não é não, Mundinha?”.
Frescura. Frescura é não comer margarina, só manteiga. Eu chego 15 minutos mais cedo pra tirar da geladeira e o negócio não estar duro quando eles acordam.
“Cada cabeça uma sentença, né”, eu disse.
O seu Natal foi pra sala. Milorde estava só esperando o dono sair, chegou na cozinha e já foi esfregando o negócio molhado em mim. Eu dei dois pontapés nas costelas dele, mas o bicho não desgrudou e ainda achou ruim, rosnou e tudo…
“Acho que ele está com fome, vó”, Mizael disse, já com a cara enfiada na bíblia.
