Psicose

Psicose (de Carol Schettini)

Joshua penteava o cabelo bem preto de lado desde o ensino médio. Gostava também de passar gel ou pomada para nenhum fio desemcapar. Nunca se atreveram. Antes de virar professor na única escola pública da cidade, tentou ser padre. Aplicou, passou por várias seleções mas, na hora agá, seu amigo Paulo que foi junto só para acompanhá-lo acabou o escolhido e Joshua mandado de volta para casa. Sua mãe não se conformou. Disse impropérios contra a Igreja, dizendo que aceitaram Paulo porque era filho de nobre enquanto eles eram meros plebeus. Joshua nunca ligou para monarquia ou papado, no fim, gostava mesmo da vida calma dos alunos burros e desinteressados. Sair da cidadezinha com poucos mil habitantes e se mudar para um lugar enorme cheio de gente estranha? Nem pensar. E foi ficando. Com quarenta anos, continuava com o mesmo penteado dos vinte, com a mesma calça jeans (calças jeans não lavadas não envelhecem) e com a mesma camisa de manga curta, ora xadrez, ora branca ou cinza. No inverno, trocava por outra calça jeans flanelada, camisas também flaneladas e algum casaco bem fofo e fim.

Todos os dias ao terminar de dar aula, passava pelo comércio perto de casa para comprar algum agrado para sua mãe: um pêssego, uma maçã, alguns ovos, um iogurte de baunilha. Distraía no local por uma meia hora, quarenta minutos e seguia a pé para casa. Para sua casa. Então, Joshua tomava um banho e depois do cabelo secar e engomar, seguia em direção a casa de sua mãe. Se contasse os passos, cento e vinte e sete. As casas eram geminadas, ele seguia pelo passeio, de jeito algum pisava na grama. 

Enquanto pensava se comprava as cerejas em promoção ou morangos, uma moça de cabelos cor-de-rosa passou a seu lado e deu a dica:

— Não compre os morangos. Mofados.

A moça saiu andando. Era a primeira vez que Joshua via a tal moça por ali e olha que ele era cliente assíduo. Levou as cerejas e ao comentar com sua mãe o ocorrido, ela lhe contou que a filha do proprietário, Sabrina, lembra dela?, voltou da capital, terminou os estudos na faculdade, se meteu em alguma confusão por lá e veio passar um tempo em casa. Chegou há poucos dias. Como sabia de tudo isso? Cidade pequena. Um conta para o outro, o outro conta para o vizinho e assim segue adiante. Um telefone sem fio cheio de aumentos, grandes aumentos.

— Ela vai ficar de vez? – Joshua perguntou.

— Quem sabe? Onde já se viu? Cabelo de arco-íris, ai,ai, cada moda.

Joshua não havia mencionado a cor da tintura da garota para a mãe. Certeza de que ela era alvo de comentários dos mais variados pela redondeza.

Ainda bem que o dia seguinte não era sábado e ele poderia passar no mercado para comprar alguma coisinha e, quem sabe?, bisbilhotar a moça.

Na prateleira dos cartões-postais Joshua parou por um bom tempo, lendo o verso, fingindo interesse nas descrições dos lugares. Passou para as frutas, pães, açougue. Quando estava a ponto de desistir, terminando de ler os rótulos das vitaminas na parte da farmácia, como última tentativa de contato, Sabrina parou a seu lado e comentou:

— Viu a cortina que colocaram no último corredor, na prateleira perto da parede? Ridículo, ri-dí-cu-lo.

Do mesmo modo que veio, saiu. Joshua não havia reparado na cortina, na verdade, não se lembrava de algum dia ter caminhado até o último corredor. Não achava, inclusive, que qualquer pessoa conhecia o último corredor, o mais escuro, com produtos velhos, parecendo sujos, como num brechó entulhado. Não custava nada ir lá dar uma olhadinha, de qualquer jeito. Joshua perdeu um bom tempo no último corredor. Encontrou uma prateleira cheia de caixas de quinquilharias para guardar quinquilharias. Caixinhas quadradas, redondas, revestidas em seda. Olhou bem umas quinze antes de seguir em frente procurando pela cortina. E lá estava, toda suntuosa, uma cortina de box de banheiro cobrindo um pedaço enorme de prateleiras. Do teto ao chão. A cortina em si era bastante interessante. Toda estampada com desenhos dos anos sessenta, ou melhor, figuras de uma mulher no telefone com penteado à moda dos anos sessenta e um homem em pé atrás. Tirando o cabelo da modelo amarelo, bem amarelo, o resto pintado de marrom e laranja e verde enjoo. Joshua estancou como uma estátua na frente e sem saber o que fazer em seguida, cruzou os braços, segurando na mão uma caixinha porta-batom na cor azul com detalhes em rosa que havia escolhido de presente para a mãe no lugar das rosquinhas de nata.

— Você já viu coisa mais ridícula? Estão se superando! – disse Sabrina a seu lado, fazendo com que Joshua desse um pulo para trás. 

Ela continuou:

— Aposto que foi ideia daquela feiosa de nariz de galinha e bochechas estufadas. 

Joshua sabia a quem Sabrina estava se referindo. Deu vontade de gargalhar, mas seria muita intimidade. Como ela podia falar assim da filha do prefeito, Selminha, tão bonitinha?

Joshua saiu o mais rápido que pode, não sem antes pagar a compra. Tentou uma descoberta ao tomar sopa com a mãe, mas, pelo visto, ninguém da cidade havia comentado sobre a cortina. 

— Sabe quem perguntou por você, hoje, no correio? A Selminha! 

Joshua engasgou com o líquido aguado da sopa, precisou colocar os braços para cima, pular várias vezes num pé só e chamar São Brás, São Brás, São Brás. A tosse o acompanhou por horas.

Não teve sossego a noite toda. O que haveria por trás da cafonice da cortina? E como iria descobrir? O plástico era inteiro. Não dava para abrir no meio como se fosse uma cortina de casa, na sala, abrindo um pouquinho para entrar uma réstia de sol. E tampouco poderia ficar parado atrás da cortina. A cortina fora pregada rente à prateleira. Quem instalou não pensou em um ser humano querendo se esconder atrás para pegar qualquer objeto provavelmente vencido. 

Mal entrou na loja, deu de cara com Selminha, de bonitinha a feiosa-nariz-de-galinha. Pegou um carrinho de compras, coisa que nunca fazia. Começou pelas saladas, dois potes fechados com todos os tipos de folhas. Ninguém poderia falar que ele não gostava de verde. Seguiu para o corredor dos remédios do dia a dia. Aspirinas, talvez? E corredor por corredor, longe da vista da fofoqueira, chegou à cortina. Parou ao lado e deu uma espiada de esgueio. Uma máscara roxa com plumas, alguns objetos estranhos, produtos eróticos! Joshua corou, deu uma risadinha. As compras no caixa eram passadas, enquanto uma risada abafada seguia no rosto de Joshua, poderia comprar bananas e emparelhá-las na esteira lado a lado de um vibrador. Ao subir os olhos, Sabrina o observava, ela colocou os braços para cima e começou a rir e, antes do cartão de crédito ser entregue à moça do caixa, os dois estavam às gargalhadas. Joshua notou que o cabelo de Sabrina não brilhava mais tão rosa. Havia crescido e a cor vermelha clara cobria a metade até as pontas, beirando uma normalidade.

— Seu cabelo está diferente — a mãe comentou na hora da janta. 

Joshua passou as mãos pelos cachos, havia deixado o gel na gaveta. Se uma moça podia ter o cabelo metade rosa, ele poderia bem ter metade branco. Se ela podia prender um coque com um lápis de apontar, ele podia deixar tudo desgrenhado.

Joshua voltou ao mercado, como de hábito. Não passou por nenhum atalho, seguiu direto ao último corredor. Não conseguindo entrar entre a cortina e a prateleira, escancarou tudo logo de uma vez. Que a nariz-de-galinha espalhasse boatos sobre o professor tarado! Encantado com toda uma gama de coisas a serem descobertas, Joshua não viu quando Sabrina se aproximou.

— Vai comprar alguma coisa interessante?  – ela perguntou.

Olhando para as mercadorias, sem levar susto ou engasgar a voz, respondeu:

— Não tenho namorada.

— Meu turno termina às seis.

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