Um mimo ou um café? Eu merecia os dois. Semaninha essa, precisava espairecer. Deveria, veja bem, deveria evitar o açúcar, mas quando passo em frente a Confeitaria de Ouro o evitar fica para depois. O mimo, o doce e o café caem na conta do eu mereço. Não uma conta barata, não caríssima, mas o valor cobrado pelo brunch dominical cai melhor no bolso dos turistas. Um capuccino eu consigo pagar, vá lá. E fui. Cheguei em boa hora, dez da manhã. Trinta minutos depois, o local estava lotado.
E nada do meu café vir. A mesa coladíssima a minha, vagou. Antes que algum funcionário a limpasse, um baixinho por trás de um prato amontoado com tudo e mais um pouco do que havia no bufê, de queques a rissóis e várias mini sandes, furou a fila. Deu uma rasteira nos que aguardavam a vez, se apossou do lugar. Folgado. Um homem comum, trinta e poucos, nada charmoso, meio esbaforido, longe de ser meu tipo. Sentado na diagonal, quase a minha frente, entre uma e outra garfada ele metia, de boca cheia, o olhar glutão no meu decote. Mastigava de um jeito estranho, como se os dentes pisoteassem cada pedaço de comida. Meu olhar diabo veste prada foi do rastro da pasta de dente seca impressa na camisa às pizzas de suor sob as axilas, dos dedos engordurados que digitavam mensagens aos olhinhos rápidos que se divertiam com as respostas, áudios inclusos, e em volume alto, finalizados com uma risada que dava um baile no burburinho do estabelecimento e estapeava o tímpano dos mais próximos. O homem era catálogo de equívocos.
Havia pedido, meio século atrás, um capuccino com chantilly. Veio um minicarro alegórico de Carnaval. Como beber aquilo? Canudo? Não havia. Com a colherinha derreti o creme, que transbordou. O pires não deu conta. A mesa recebeu a enxurrada melequenta de café e gordura. O garçom acatou o é possível trazer mais guardanapos? com um ar de reclamo de quem está a fazer um grande favor.
— Difícil, aí? disse o bobão da frente, louco para puxar papo desde que me ouviu a falar com o funcionário. Zuka também, deu match na nacionalidade com uma pitada invasiva e leve toque de inconveniência.
— Mais ou menos, cortei.
Foi a deixa para o início de monólogo. Dele. Sem cerimônia, desandou a contar banalidades, era de São Paulo, ZL, da Mooca. Mem precisava citar o bairro, o sotacão italianado trazia o CEP na ponta das cordas vocais. Mas da Mooca, sim, com muito orgulho, tinha até bandeirinha do Juva na mesa de trabalho, mas não ficava o dia todo sentado, era vendedor de automóveis.
— Trabalhando muito, graças a deus.
Quanto mais blindados saiam, mais comissão ele ganhava. Primeira vez na Europa.
— Mas já fui duas vezes com meus moleques para a Disney.
— Ah.
— Este ano vamos de novo, graças a deus.
— Nossa, que incrível.
Deus, sopre naquele ouvido, hello, existem castelos de verdade no mundo, os moleques já conhecem o da Cinderela. Imaginei deus tomando seu café em paz e rindo da minha cara. Ele desbloqueou e me esticou seu celular. Dois meninos, um atrás do outro, com corte de cabelo igual, camisa fluorescente igual e um certo ar folgado igual posavam ao lado de uma Ferrari reluzente em folha, em uma concessionária em Miami.
— Carrão, esse, ele disse primeiro, mencionou os pimpolhos depois. Rafael e Gabriel, ou Daniel e Samuel, ou Gael e Manuel, tanto faz o nome, já eram dois mini chatos puxados ao pai. Se o local não estivesse tão cheio, eu trocaria de mesa. No rumo da prosa sem pausa, explicou que a excursão uniformizada facilitava o não se perderem, que estar na Disney era estar no paraíso, com um ou outro problema, o moleque menor embirrou, e mais de uma vez, pela única sobremesa não contemplada no voucher da agência de turismo, nas duas vezes compraram uma nova mala, exageraram nos brinquedos, bugigangas, roupa de marca nos outlets, depois taxaram a mala extra no voo, mas a viagem, as duas, foi um barato, na alegria, o cartão de crédito ele ficou um ano pagando. E avançou, você é solteira? Mora aqui?
Respondi com outra pergunta:
— Sua mulher veio também?
— Não, viajei com amigos. A Roseli usou as férias dela para visitar a mãe doente no Paraná. Morreu, minha sogrinha. Que deus a tenha.
Estaria a conje incluída no clube do Mickey ou também ficou órfã das diversões?
Roberto, era seu nome. E Roberto prosseguia afoito com a carta de apresentação: viajava com um grupo de amigos, a Diretoria, comemoração dos 10 anos de formatura. Administração de empresas. Não, ele não disse universidade, nem faculdade. E sim, facú. Um ano, dois grupos de whatsapp e muitas divergências depois, a Diretoria se hospedava na casa do colega que para cá havia imigrado.
— Tem até um dormindo no corredor.
A panelinha ainda fervia. Saquei a turma. Cerveja, churrasco, pagode, calão incorreto. Zuação com quem dorme, brincadeiras estúpidas, o batismo no tênis branco saído da caixa, o pedala Robinho na cabeça revidado por socos e pontapés e a clássica puxada de cueca, enfiando a dita no rego, esmagando as bolas, olha o cuecão! Mó da hora, meu!
Como um filme de cortes abruptos e ganchos inesperados, Roberto esticou a mão sobre a minha e apertou, até mudou a voz, agora abafada, em uma súplica de pelamorprestatenção no que eu vou contar.
— Você não sabe o que aconteceu comigo.
E frisou, acabou de acontecer, foi agora. Talvez porque os colegas ainda dormissem, a urgência em partilhar ao vivo o tal recém acontecimento a alguém, que no caso era eu, fez Roberto voar do nunca te vi na vida para intimidade em um jato supersônico. Afinal, depois do jantar da noite passada, mais da metade da turma do funil emendou uma balada, e poupo aqui a opinião que tenho sobre marmanjo que usa o termo balada. Ele um amigo não foram, o que subentendi como custava caro, mas enfim, os dois postergaram a saideira em um bar, que entendi ser na Alfama. O garçom trouxe para ele um não pedido uísque, protagonizando a manjada cena de comédia romântica: a senhora ali que ofereceu, apontando para uma loira bronzeada e peituda, da mesma idade, até mais velha, que brindava à distância. Na conversa, a turista estadunidense avisou que partiria no dia seguinte. O outro partner da Diretoria foi embora. Sem Roseli, Pateta, ou moleques a tiracolo, Roberto, no xaveco the book is on the table, dormiu com ela. Hotel chique, lençol bom, não foi um esforço.
(Ahãn, e qual o relevante disso? A loira era uma travesti? Ele sentiu culpa? Acabou em briga, tumulto, guerra? Deus vai castigar? Não responda!)
Hoje cedo, ao sair do banho, Roberto encontrou um envelope junto as suas roupas. Abriu. Cinquenta euros. Ela fumava na varanda. Ele nem se deu ao luxo de dizer bye bye.
Entre as N interpretações possíveis deste desfecho, estão: ela deu um troco para um cala a boca, ou um vai embora logo, ou um tudo pode ser comprado, ou sexo pago é quase amor verdadeiro. Mas Roberto puxou a brasa para o lado da sua sardinha e me mostrou o envelope como quem exibe um troféu. O bônus recebido pelo funcionário que bate a meta da venda, no caso, do corpinho. Se achando o último pastel de Belém de Belém, ele levantava e sentava e levantava e sentava, e sentado, a cadeira o espetava com uma descarga de adrenalina onde cada vaso sanguíneo dilatado da bochecha celebrava o feito heroico em solo português. Levantou de uma vez, e pé, não era somente o machinho alfa confessando a mijada fora do penico, era o Chuck Norris do sexo, o amante startup, um pombo insuflado que cagava autoestima na camisa suada, sufocada pela pança saliente, onde um, dois, três nacos de pele e pelos vazavam do tecido que não completava a linha reta de um botão ao outro. Sôfrego, quase engasgando, o porquinho rosa não pausava a voz e as palavras empapadas acumulavam uma espuminha no canto da boca. Uma cena forte. E forte concorrente ao Oscar de melhor roteiro surreal.
A musiquinha melosa interrompeu a narrativa. A tela trincada do celular de Roberto piscava Amor junto a imagem de uma mulher vestida de vermelho. Ele se virou para atender, não quis que eu ouvisse, precisava de privacidade, é claro.
Me afastei devagarinho, até deixar de ver através do espelho rococó que decorava o salão, aquele ser todo sorrisos a falar com Roseli, a hipocrisia no seu melhor. Dei um tchau para a funcionária e somente quando estava na rua percebi que não havia efetuado o pagamento. Pensei que deixar quieto daria uma engraçada vingancinha, a queca remunerada na gringa pagando meu café. Não quis virar causo nos anais da Diretoria. Voltei e quitei o que devia. Roberto ainda estava ao telefone. e o final dessa conversa já não era da minha conta.
(Glaucia Faria)
