É isso mesmo que estou vendo? Maria Eduarda sentada ao lado de um morador de rua e ainda por cima usando um cobertor como vestido?
Por ela não ter me notado, cheguei o mais próximo que pude e fiquei de costas para os dois. Em seguida peguei o celular e fingi que estava conversando com alguém.
– Minha irmã me deixou na miséria.
– Se não fosse esse cobertor, diria que a senhora acabou de sair do banho.
– Pega o seu cachorro e passa ele para mim.
– O que a madame está fazendo? Acho que o Bingo está com sarna.
Levantei o celular como se fosse tirar uma selfie e apontei a tela para Maria Eduarda. Ela estava esfregando o cachorrinho pelo corpo como se ele fosse um creme hidratante.
– Se eu ficar sarnenta é melhor, daqui a pouco vou fazer um BO contra a minha irmã e depois pedir a recuperação judicial dos bens da mamãe.
– Não sei do que a senhora está falando, mas nesses bens aí, sobrou algum dinheiro para a gente jantar?
– Não, você não tem nada guardado? Um pãozinho ou uma torrada?
– Tenho um pedaço de torresmo que sobrou de ontem, se a senhora quiser comer… Já estava meio passado quando me deram. Hoje deve estar pior.
Minha irmã enfiou o pedaço todo na boca e engoliu quase sem mastigar. Não deu nem um minuto para ela pôr a mão no estômago e começar a gemer.
– Dona, a senhora está meio verde. Melhor tomar um gole de pinga.
– Só tomo vinho branco.
– Também não é para senhora secar a minha garrafa.
Assim que deu o último gole, o pescoço de Maria Eduarda ficou mole e a cabeça caiu para frente. Achei que tivesse capotado, só que três segundos depois ela se jogou no chão dando risada.
– Estou toda coçando. O Bingo também tem pulga? Que maravilha! Amanhã vou na casa da minha irmã para dar um abraço bem apertado nela.
– É dessas donas metidas?
– A minha irmã vive tropeçando de tanto que o nariz dela é arrebitado. Sabe o que ela fez comigo?
– Nem imagino.
– Me chamou para ir na casa dela. Quando eu estava distraída, ela teve a audácia de me empurrar da escada. Quando acordei, eu estava numa cadeira de rodas, claro, quase quebrei a coluna. Para terminar ela me trancou num quarto e um dia me serviu um rato assado. O pior que ela não tem criatividade nenhuma, copiou tudo isso de um filme.
– Justo com a senhora que é tão gente boa. Isso não se faz.
– O problema foi que hipotequei meu apartamento para pagar o hospital da mamãe e ela além de não me devolver o dinheiro, roubou o resto da herança.
Maria Eduarda deve ter enlouquecido, só pode ser isso. Que chatice eu não conseguir pegar a última assinatura dela agora. Como ela me dá trabalho.
– Sabe, madame, eu já dei um fim nuns caras ruins por aí. Se quiser eu faço isso pela senhora… mais um menos um não faz diferença.
– Você viu aquela mulher ali? Por um momento eu pensei que fosse minha irmã. Preciso olhar direito, ainda não tenho certeza se é a Baby Jane mesmo.
– Que o nome é bonito, é. De gente fina.
Saí tão depressa que só deu tempo de ouvir os latidos do cachorro e o morador de rua dizer E não é que a bicha sabe correr!
