Guarda compartilhada

Chico só queria uma cerveja. Deixou o portão aberto, mal passou a porta da cozinha e Tati já tinha encostado o carro na calçadinha que ladeava a entrada de serviço. Não deu tempo nem de abrir a geladeira, nem de limpar o rastro de barro que deixou na lajota cinza.

                – Ainda não fez a cobertura? – ela gritou pela fresta do vidro embaçado.

                 Chico cruzou os braços sobre o peito e deu pulinhos para aquecer.  Da bermuda impermeável ainda pingava água.

                – Quando o tempo firmar – ele respondeu.

                Tati nem precisava da resposta, sabia que a entrada da casa de praia ia continuar sem proteção. Virou o corpo pra trás no banco, acariciou a cabeça de Funcho e abriu a porta. O pastor australiano pulou no peito de Chico antes de disparar para os fundos da casa.

                –  Ele vai ficar imundo. Por que não esperou mais um pouco?

                 – O banho estava no combinado. Lembra?  Pega lá na piscina um guarda-sol. Quero sair pra fazer xixi. Aproveita e traz o Funcho de volta.

                –  Ele já deve estar na água.

                – Fica sendo um pré-banho.

                Chico virou as costas e desceu para o quintal lavando o corpo mais uma vez na água pesada, ainda mais pesada depois que o céu escureceu de vez e quase não deixava ver o morro e as árvores no fundo do terreno. Como o previsto, Funcho estava na piscina, mas seguiu para a beira quando o viu. Quis sair. Ele entendeu. Nem parecia que há dois anos não moravam mais juntos. Ele se agachou, agarrou o cachorro pelas patas da frente e jogou sobre os seus ombros. Foi um abraço forte que o fez cair de costas. Funcho saiu da água, voltou correndo para a casa e Chico levou alguns segundos até ficar de pé e fazer o mesmo.

                – Cadê o guarda-sol? Quero sair daqui – Tati tinha ligado as lanternas do carro e gritou ainda mais alto pela fresta do vidro. Precisava superar as pancadas de água sobre a lataria  e nas calhas da casa, que pareciam não dar vazão.

                – Fica aí dentro. É mais seguro contra os raios. Vou só tomar um banho quente.

                – Vai buscar lá na piscina. Depois você vai pro chuveiro.

                 Chico preferiu não discutir. Desceu mais uma vez, trouxe o guarda-sol encharcado. Sacudiu três vezes pra tirar o excesso de água e precisou de força para abrir. Tati saiu com as sandálias na mão. Pisar no barro foi sua única concessão à sujeira. Ela tirou o guarda-sol das mãos de Chico e seguiu. Ele esperou na chuva e só saiu do lugar quando Tati chegou seca na porta da cozinha. Funcho estava deitado no tapetinho da entrada.

                – Agora vou pro banho – ele disse.

                –  Leva o Funcho com você.

                 Chico gargalhou e disse que ela sabia que não cabiam os dois no box. A luz piscou.

                – Vai acabar a energia e ele vai ficar fedido.

                 – E eu doente, resfriado, gripado, tuberculoso.

                 – Que drama!  Só queria ter certeza de que ele vai ficar bem antes de continuar a viagem.

                – Você não ia fazer xixi?  – Chico pergunta impaciente. Vai logo e lava os pés pra eu tomar meu banho.

                 – No projeto, esta casa ia ter dois banheiros, lembra?

                – Vai mijar ou não vai?

               – Tô indo. Tenho que pegar a estrada em no máximo quarenta minutos.

                Tati deu as costas e seguiu para o banheiro. Quando secava os pés, a luz acabou de vez.

                – Que merda!  Traz uma toalha aqui para cozinha – Chico gritou ao mesmo tempo que um estrondo, uma espécie de motor de caminhão vinha dos fundos da casa direto no seu ouvido.

                – Que foi isso? -ele gritou de novo.

                – Subi na privada. Olhei na janelinha. O morro aqui atrás tá deslizando. Vem ver. A piscina virou lama.

                – Sai daí.  Traz uma toalha e corre. Volta pra cá. Na cozinha é mais seguro.  

                Funcho tinha se levantado. As orelhas em pé, o rabo entre as patas.

                Tati volta e  joga a toalha pra Chico. O ruído atrás da casa continua.

                – Vai chegar aqui – Chico prevê. – Vamos pra frente da casa.

                – Ficar na chuva? Você não fez a cobertura.

                – Vamos ficar no carro. Que acha?

                – Eu, você numa toalha e o Funcho molhado? Nem pensar. Vou ficar aqui mesmo. Onde tem vela?  Daqui a pouco escurece de vez . Vai parar logo e eu vou para o congresso – ela disse calçando as sandálias.

                – Vai defender que não existe aquecimento global? – Chico, sob o guarda-sol com Funcho entre as pernas, gritou do gramado depois da calçadinha.  As mãos, ao lado da boca, amplificando a voz.

                – Larga de implicância. Deixei meu celular no carro. Pega lá pra mim.

                – Não tem mais sinal.  Não adianta, vem pra fora. Sai daí.

                – Pega lá pra mim. – Tati repetiu. – Não me molho de jeito nenhum.

                – Sai daí – Chico insistia.

                Funcho latiu pela primeira vez, levantou as orelhas e correu para o carro. Chico foi atrás. A chuva, agora um pouco mais fraca, já tinha encharcado a terra. O morro não resistiu. Ao lado do carro, Chico e Funcho viram a casa desmoronar.

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