– Mas como foi exatamente?
– Assim como eu tô te dizendo. Eu tava passando pela sala grande de reunião pra pegar o café da máquina, aí o Cadu…
– Que Cadu?
– Carlos Eduardo do RH, ué.
– Ai, que íntima!
– Para, Gabriela. Ele é fofo. Enfim, o Cadu lá sentado de costas pra porta com o telefone na mesa olhando pro telão, ele vai dá treinamento pra uma galerona já já. Aí no viva voz alguém perguntava: e a Flavinha, rolou?. E ele: nada, rolou nada. Resbonderam bem assim: se brincar foi melhor, capaz de Flavinha ser inimputável. Foi quando ele repetiu, inimputável, exatamente, certeza que Flavinha é inimputável. O povo começou a chegar e ele tomou até um sustinho. Eu peguei o café e entrei do lado na salinha da técnica pra te contar. Sabe essa salinha? Tô aqui.
– Sei. Oxe, e eles iam te processar por que? não entidi nada. Que coisa troncha.
– Que processar, Gabriela? Presta atenção. Inimputável, que nunca vai ser puta. Tu entendesse? Tô te dizendo que ele é fofo. Sei lá, achei profissional, por isso que o bichinho tava todo errado naquele dia do call que ele derrubou o café. Será que ele tá me paquerando. Ele não era casado?
– Inimputável? Acho que não é isso não, dá um googlezinho aí.
– Tu nunca tinha ouvido inimputável? Bora sair do TikTok um pouquinho pra ler livro. Bora? Melhorar esse vocabulário fraco aí. KKKKKKKKKKKKKKKK – Flavinha tenta botar o carregador na tomada da sala da técnica. Não encaixa. Ela sem olhar, digitando enquanto força em tudo que é buraco. Despluga a tomada, testa um monte de entradinha de USB, acha uma que rola e continua a coversa, tava com 18% de bateria só – Mas tá bom, vai, chega de falar de mim, bora falar de tu que é o que importa. Apendicite, Gabi? Que coisa mais anos 80.
– Rapaz, foi apendicite não.
– É mentira, é? Safada. Comprasse atestado na Teodoro Sampaio, Gabi. Tu não preta.
– Amiga, é mentira a apendicite só. O atestado é de verdade, só pedi pra mudar o CID porque sou besta e tenho vergonha. Tô operada, Flavinha. O-pe-ra-da.
– Oxe, de que? Tu tá bem?
– Da hemorroida, menina. Tô bem pra jogar fora, isso sim.
– Caraca, Gabi. Que merda.
– Mas agora pelo menos sinto que vou sobreviver, houve um tempo em que duvidei, viu? – Gabriela para de digitar e manda um áudio que mistura uma risada nervosa e um I´m a survivor, I´m gonna make it do TLC – Tramal na cabeça, rapaz – ela volta à mensagem de texto – um viva a todos os opióides e a quem os inventou. De 6 em 6 horas, dá pra tu? Chega a hora 4, eu já tô pra rezar um pai nosso. Tem dia que eu taco uma Dipirona no meio do caminho e tem dia que eu tomo fora de hora mesmo, meu estômago tá só o fiapo.
– Gabi do céu. E como faz pra ir no banheiro, gente? Que horror. Bom, então tu não tá disponível pra ir no Parieiro, beber hoje de noite, né? Parece que vai todo mundo.
– Flavinha, mulher, eu não tô disponível nem pra espirrar. Nem pra espirrar nem pra tossir.
– KKKKKKKKKKKKKKKK ai, desculpa
– Inclusive pare de rir agora, que se eu der uma risada mais forte capaz de eu me rasgar inteira aqui hehehehehehehehe. Rapaz toda a questão é ir no banheiro. Na primeira vez, eu tive pressão baixa, não desmaiei porque deus é pai, fui pro quarto me escorando no corredor, deitei na cama e fiquei lá num suadeiro de trocar o lençol. Isso se desse, né? Que eu não tenho a menor condição de trocar lençol nenhum. Se quiser eu conto detalhe. Me diga, você quer detalhe ou quer a versão elegante?
– Minha nossa senhora, ainda bem que tu não come nada. KKKKKKKKKKKKKKKK. Olha aí esse disturbiozinho alimentar prestando pra alguma coisa.
– Heheheheheheh se lascar, Flavinha, pelo amor de deus.
– Parei, vá. Claro, que eu quero detalhes, olha bem pra minha cara. Elegante… Mas, rapaz, é igual parto então? Você sai pra ter um filho e volta toda estrupiada. Eu mesma nunca mais me recuperei KKKKKKKKKKKKKKKK.
– Pois então, só que sem filho, graças a deus. Você fica comendo verdura, fibra, tomando água feito um camelo que acabou de sair do spinning e comendo bem levinho. Bem levinho. Minha irmã, dá um medo de comida, que pela mãe do guarda. Só peixe, visse? Carne é totalmente proibido. Pimenta, tempero, ultraprocessado nem pensar, né? Só que aí, vê mesmo, ontem eu crente que tava sabidíssima, pedi um sashimi e comi wassabi, que tal?
– KKKKKKKKKKKKKKKK wassabi é foda, ri alto aqui. Mas faz quantos dias isso?
– Foi quarta passada, né? Na quinta, eu voltei pra casa faceiríssima. Pensando que o povo que dá depoimento na internet é muito fresco mesmo. Dorzinha besta. Dou conta de umas 3 dessa, pode mandar. Eu tava me sentindo uma deusa, uma louca uma feiticira, ela é demais. Aí o médico disse, “assim que tu for administrando a dor, larga o Tramal pra não viciar”. Nem comprei, sou mulher de me dobrar pra Tramal? Passo na dipirona, gente fraca arretada. Mas eu tava meio anestesiada ainda, né? Foi sumindo a anestesia, Flavinha, a vontade era de voltar pra barriga da minha mãe. Só que saí do hospital com a enfermeira me enfiando uma colher de sopa de Tamarine goela abaixo, né? Quando eu pensei que tava abraçada com o capeta já, o Tamarine fez verão. Aí, minha senhora.
– KKKKKKKKKKKKKKKK Eu tô horrorizada. E como tá agora?
– É o dia todinho deitada, Flavinha, a pessoa não tem ânimo nem pra respirar. Fora a humilhação, né? Não, juro por deus, eu calcei definitivamente as sandálias da humildade. Tem que fazer gelo, que tal? Três vezes por dia com gelo no cu. Gelo no cu!
– Ainda bem que tu falouu cu. Eu tava doida pra falar cu 500 vezes. KKKKKKKKKKKKKKKK Passarinho que come pedra sabe o cu que tem. Tu ralou o cu nas ostras.
– Largue de ser ridícula, Flavinha, heheheheheheh. Pimenta no cu dos outros é refresco.
– KKKKKKKKKKKKKKKK É de espetar o cu do palhaço.
– Que espetar? De espanar, besta heheheheheheh. Deus me abandone, nunca mais homem nenhum espeta nada em mim, graças a deus que eu não tô saindo com ninguém. Como é que faz, minha gente? Prefiro morrer do que deixar qualquer coisa se avizinhar dessa área.
– Essa área. KKKKKKKKKKKKKKKK oxe, que é que tem a ver o cu com as calças? Tem que fazer resgardo feito parto, minha filha. Eu mesmo não saí do reguardo aindo. E o meu pequeno já vai com 8 anos KKKKKKKKKKKKKKKK Não, tô brincando, mas era só dar a real pro cara, ué!
– Mas como é que diz o negócio desse? Veja bem, essa coisa inchada aqui que você está vendo agora não vai ficar assim não heheheheheheh
– KKKKKKKKKKKKKKKK Mas calma, pera. Vai ficar bonitinho?
– Vai ficar uma escultura, rapaz. Coisa linda. Só que demora, né?
– Pronto, tu diz mesmo assim: don´t touch, it´s art
– Não. E o pior não é isso. Aí eu tinha um sinalzinho na bunda, né? Não é feito o teu, no meinho, redondinho. Mas era fofo também, meio quase lá dentro, eu gostava do bichinho.
– Ah não, para.
– Pois sim, minha filha. O cara tirou o sinal, arrancou, cortou fora, tô aqui toda costurada, e ainda mandou pra biopsia. Mas né lasca? Disse que era protocolo. Tomar no cu!
– KKKKKKKKKKKKKKKK Sem combinar? É de cair o cu das calças!
– Quinta série, Flavinha, pare com isso, vá hehehehehehehe
– KKKKKKKKKKKKKKKK Tenho que ir que o povo tá nervoso aqui pro Praieiro. Já apareceu Cesinha do financeiro, Caio e Mario Neto de projetos abanando na janela. Pera aí, galera. Mas vê, tô contigo, tu é forte que só, sabida. Vai ficar tudo bem, tá? Lá vem Cesinha de volta, deixa eu abrir.
– Calma, Cesinha, que foi? Oxe.
– Obrigada, Flavinha, manda um beijo pra ele. Espalha aí pra essa cambada que a retirada do apêndice foi sucesso total.
– Amiga, pelo amor de deus, desculpa, conectei meu WhatsApp aqui no telão da sala de treinamento. Carlos Eduardo quer falar contigo.

