POBRES DIABOS
Aquela do edifício foi bem comentada. Um dos mais antigos de Manaus, com duas empenas viradas para a cidade. Na primeira, a indígena sorridente ilustrava os quase 400m2. Seus cabelos negros recobriam os seios de forma pudica, e a face, antes pacata e convidativa, ganhou algo de maligno ao percebermos que suas mãos, espalmadas em direção aos céus, passaram a ter uma granada em cada uma. Na outra empena, o paredão cru de concreto apresentava apenas uma palavra, escrita em tinta vermelha e letras garrafais: ÓDIO.
Nos registros aéreos para o telejornal, as águas do Rio Negro sibilavam ao fundo do edifício, como se uma serpente engolisse o horizonte. Era quatro e meia da manhã quando finalizaram a intervenção, fazia trinta e um graus e o Coletivo Amargo estava orgulhoso de mais uma ação bem sucedida, como bem explicitavam em seus registros pessoais, especialmente a última selfie, tirada por Ruas já em solo. Nela, seus dentes amarelados pelo cigarro e a dobra de uma barriga, branca e precoce sob a camiseta preta, reluziam ao flash. Lua Madeira, miúda e suada, agarrava firme a sua cintura como que a ponto de cair. O primo dela, codinome Mutirão, tocava com a ponta do polegar o carnudo lábio inferior de sua boca e dava um cotoco na direção dos céus com a outra mão. Já a Sorria, em segundo plano, ensaiava um passo de balé, uma perna flexionada, a outra reta no ar, apontando na direção das empenas. Seu braço, longo e musculoso, parecia do tamanho do prédio.
Ao longo dos meses, foram várias as ações do grupo. No primeiro dia do ano, por exemplo, houve a instalação de um lambe com o desenho do governador envolto em chamas perto da Bola das Letras. Isso levantou um burburinho sobre a relação do político com as queimadas ilegais da área de preservação ambiental próxima e a especulação imobiliária naquele entorno. O lambe foi retirado menos de quarenta e oito horas após a hashtag #governadorpiromaniaco alcançar o primeiro lugar nos trending topics. Dois meses depois, foi a vez da instalação de uma catapulta automática, que passou um dia inteiro jogando bosta de vaca na janela de uma mansão que, como noticiado posteriormente, pertencia a um influencer envolvido com pornografia infantil, que estava de férias na Disney. Mais uma vez, o Coletivo Amargo chamava a atenção pela ousadia de seus feitos, permanecendo, porém, anônimo, como era o planejado.
É sempre um trabalho penoso, dado o calor da cidade. Mas os Amargos não decidem a mensagem, o dia ou a hora de seus feitos, e ficam a cargo das forças que Lua Madeira consulta ao tomar das garrafadas de Ayahuasca em rituais improvisados no quintal da casa de Ruas. Ele, Sorria e Mutirão a acompanham, por vezes incorporando seres animalescos, e em outras, recebendo orientações em transe sobre os procedimentos a serem seguidos e materiais a serem utilizados. Capela do Pobre Diabo. Endereço: Av. Borba, 450 – Cachoeirinha, Manaus – AM. Extensão: 32m2. Quando: na próxima Lua Minguante. Cor: Vermelho brilhante. Não esquecer os demônios!, rabiscou Ruas em um guardanapo na ocasião, passado o efeito do psicodélico, com seus ápices e expurgos. Depois disso, retornaram aos seus afazeres e rotinas, assim permanecendo até a madrugada acertada para a próxima intervenção.
Naquele final de tarde, Ruas passou a limpo as anotações do guardanapo, sentindo no peito a palpitação pela noite e o cheiro de chiclete que recobria o couro avermelhado do interior da picape cabine simples, oculto pelo insulfilme cem por cento do veículo. A cada intervenção, eles entravam no carro na mesma ordem: Sorria no volante, a única capaz de conversar na mesma língua da picape e lhe entender os maneirismos de coisa velha; Mutirão no meio, com as pernas encolhidas para não atrapalhar a troca das marchas; e Ruas apavorado a cada solavanco, com medo de que eles denunciassem sua excitação por ter a pequena Lua Madeira no colo, o único assento possível quando a carroceria estava cheia – como ele fazia questão deixar.
A picape lembrava a Ruas uma grande vagina: fechada e misteriosa por fora, e vermelha e abafada por dentro, carregando duas coisas que ele desejava muito – o caos e a garota que ele queria comer, a garota que nunca olhava nos seus olhos. E quanto mais ele enchia a carroceria de tralhas – se um galão serviria para a capela, ele levaria dois; se uma escada fosse o suficiente, ele levaria a escada e o andaime, e assim por diante – mais parecia que os tecidos das roupas que separavam Lua Madeira de seu colo afinavam.
Quando ela se acoplou em seu colo pela primeira vez, meio de lado, com as coxas tensas e muito fechadas, seu jeans preto cheio de rasgos mais parecia uma armadura. Chovia no Lírio do Vale, e os ventos no alto dos prédios ou na carroceria do carro eriçavam os buracos de onde deveriam sair os pelos da garota cabocla. Aos poucos, as coxas de Lua Madeira ficaram mais calmas, mais abertas, e ela substituiu os jeans por calças de lycra, também pretas, muito flexíveis, que lhe marcavam as linhas da calcinha de vovó. O verão começou, as chuvas foram aplacadas e as calcinhas de Lua Madeira se tornaram diminutas, apenas duas linhas expostas ao se sentar sobre Ruas, uma no entorno de sua cintura, e a outra afundada no rego. Era essa linha que ele evitava olhar ao andar na picape, com cujo cheiro ele sonhava todas as noites.
A caminho da capela, Ruas tentava se distrair. Ele não pressentia a linha do fio dental ao segurar Lua Madeira em seu colo. Ela, de vestidinho rodado e meia calça arrastão, quicava livre sobre ele, embalada pelo perigoso senso de direção da motorista. Qual a graça de dirigir se não te faz pensar na morte?, perguntava Sorria, muito séria, o gloss vermelho sob o bigode que começava a despontar. Ruas ligou o rádio, precisava pensar na morte, e não no rabo de Lua Madeira coberto pelo trançado da meia arrastão. O apresentador do programa, por sua vez, mandou um abraço para toda a comunidade da Vila do Lago do Limão com uma voz absurdamente ébria e anunciou uma sequência das mais marcantes de Teixeira de Manaus.
Abra sua porta, deixa o meu sax entrar ressoou em seguida, abafada, num só alto-falante. Mutirão fez um sinal com a cabeça, como se saudasse a canção em respeito. Sorria cantarolava, conferindo no retrovisor seus cílios postiços. Ruas concentrou-se então nas lembranças das capas dos discos de Teixeira – primeiro naquela com o saxofonista usando um medalhão dourado e gigante; depois numa outra, em que o músico olha para o horizonte, segurando o sax; e por fim na capa mais conhecida, com o instrumento em meio a vitórias-régias, o tubo, curvo e duro, sobre uma flor desabrochada. Incomodado, Ruas apelou ao bloco de anotações, esmagando os braços de Lua Madeira enquanto tentava abri-lo para reler:
A Capela, de estilo neogótico, apresenta arcos trilobados na fachada e altar, gablete em gesso, preenchido com cogulhos, e coruchéus nas torres, também ornados com cogulhos. Sobre o arco trilobado da fachada há uma máscara de referência greco-romana representando um rosto, que se mistura a volutas e torções.
O trânsito na Estrada da Ponta Negra fluia livre. Fosse mais cedo, a avenida estaria engarrafada, um efeito comum durante a saída dos fiéis do Ministério Internacional da Restauração. Madrugada adentro, todos aqueles vestidos na altura das panturrilhas, cabelos escovados e bíblias dos mais variados tamanhos e modelos eram lavados da vista, a cidade entregue ao mal.
Sorria pisava fundo no acelerador. Cortava o trajeto como a letra mal arranjada de Ruas consumia páginas e mais páginas de seu bloco. Escrevera ainda sobre como, em fins de século XIX, a esposa de um comerciante português mandou erguer a capela como promessa pelo restabelecimento da saúde do marido, devoto de Santo Antônio, o qual sempre encerrou o expediente aos pés de sua imagem com o bordão Meu Santo Antônio, protegei este pobre diabo!, daí o nome não oficial do lugar.
O terço pendurado no retrovisor do carro rodopiava ao vento. Graças ao vento que entrava pela brecha da janela, aberta com a função de aplacar o calor dentro do carro, a minúscula Nossa Senhora apresentava uma ginga incomum, disposta em uma pose blasfema e vestida apenas com um manto de renda nas cores do arco-íris. Ao som de Balanço do Norte, fios do cabelo de Lua Madeira começaram a roçar a face de Ruas, entravam em sua boca, batiam ora com força, ora moles em sua orelha. Não me esqueça, não me esqueça, pareciam dizer a ele, que repetia a si mesmo: protegei este pobre diabo dos tribolados e cogulhos nos cabelos de Lua Madeira.
Que cena! As pernas longíssimas de Sorria descendo do carro, a beleza e a graça em um suspiro inaudível, já com sua balaclava de renda preta sobre o rosto. O contraste com o diminuto Mutirão, a face também coberta, exceto os rasgos de seus olhos caboclos, que brilhavam na escuridão ao se mover como um gato, sem dar uma palavra, até a carroceria da velha picape. Os dois repartem os materiais para o trabalho na parte externa da capela. Em meio aos cacarecos inúteis adicionados por Ruas, conferem se as pistolas de pintura estão carregadas. Lua Madeira alonga o pescoço com as duas mãos, a barra do vestido rodado subindo e relevando suas curvas de cabocla compacta sobre os centímetros adicionais conferidos pelo coturno. Ela retira do carro imagens embrulhadas por mantas, uma por uma, enquanto Ruas corre para romper quaisquer cadeados e arrombar quantas portas forem necessárias para garantir a passagem livre da moça até o interior da capela.
Lá fora, Sorria e Mutirão tingem, num silêncio sepulcral, o branco e o azul-celeste da minúscula capela, que aos poucos passa a ser vermelho sangue. Do lado de dentro, com uma pistola menor, Ruas recobre com a mesma tinta apenas a área do altar após retirar todas as imagens de seus postos originais, tudo numa semi escuridão. Lua Madeira então as substitui com action figures do Homem de Ferro, da Barbie Malibu e do Homem Aranha. Este último ela dispõe escorado a uma réplica do Diabo de Segóvia, com seu rosto sorridente e mão direita segurando um celular como quem tira uma selfie. São bonecos entre quarenta e sessenta centímetros de altura, que ocupam o espaço de forma satisfatória, prontos à adoração. É uma estranha forma de dividir o trabalho essa, delimitada pelas visões de Lua Madeira, que deixa a ela e o parceiro ociosos rápido demais. Como se fosse um plano.
Ruas, sem mais o que fazer, finge admirar sua parte da intervenção na penumbra. É quando Lua Madeira toca suas costas em frente ao altar com seus dedos finos e frios, as unhas pontiagudas afundando nele. Uma eletricidade muito calma percorre o corpo de Ruas agora, o senso de dever cumprido, de objetivo atingido sem esforço, apenas espera. Ela abre o zíper lateral do vestido e revela usar nada além da meia arrastão. Beija-o na boca, agora sim encarando-o, sem piscar, um beijo de encaixe selvagem, um pouco como uma dança em que os parceiros pisam no pé um do outro com certa frequência. Sob as bênçãos de demônios afins, não importa. Nada mais importa.
Ele então obedece às vozes que não tem mais certeza se vindas da garrafada ou de suas entranhas. Segura Lua Madeira pelos fundos da meia arrastão, rasga-a, abre caminho. Roça seus dedos pelo clitóris dela entre outros beijos, tão implacáveis quanto o primeiro, interrompidos por um breve decreto – Enfia. Eu gosto –, palavras aquosas que guiam seus dedos para dentro dela, pela frente e por trás. É uma destreza de resultados rápidos: fluidos lhes descem sem dificuldade pelas coxas. Ruas coloca-a então de quatro, o rosto da moça contra o altar, sua têmpora morena batendo contra a pedra fria enquanto ele a lambe por inteiro e sem qualquer cuidado, o cheiro de Lua Madeira impregnando seu rosto numa confusão de dobras, pregas e gemidos abafados. Um batismo aprovado pela Babie Malibu, a julgar por seu sorriso gelatinoso.
Extensão: 32m2. Não demoraria muito até que Sorria e Mutirão finalizassem o serviço nas paredes lá fora. É tempo de Ruas botar o pau para fora e se servir do que lhe foi entregue. Puxa o cabelo de Lua Madeira, forte, enrola-o pelo punho. Ouve um sussurro – Um pouco menos, só um pouco menos –, o corpo dela agora apoiado nos joelhos e cotovelos, as mãos unidas em súplica como uma santa, e ele puxa menos, um pouco menos, os seus cabelos. Cospe na mão livre, segura o pau. É pequeno, grosso, pálido, os pentelhos tingidos pela luz quente que emana do altar vermelho. Rompe sem grandes dificuldades as pregas do cu de Lua Madeira, que geme baixinho sua satisfação, e tornam-se um nesse enlace antinatural. O Homem de Ferro encara Ruas com feição dura, e ele o encara de volta com os olhos injetados e a boca aberta num sorriso infantil, repetindo mentalmente a cada estocada: protegei este pobre diabo, protegei este pobre diabo!
O par empurra seus corpos um contra o outro de forma sedenta até o fim. O gozo é desesperado, uníssono. Ofegante, Ruas se joga sobre ela, um peso desproporcional que a sufoca sem desconforto algum, como se estivesse pronta para ser enterrada viva nele. De olhos bem abertos, o rosto voltado para a entrada da capela, Lua Madeira enfim encara a última visão que a garrafada lhe revelou: Sorria e Mutirão com os rostos descobertos e mãos algemadas passando lá fora, as luzes da viatura se contorcendo pelas paredes, a porra escorrendo devagarzinho de seu cu e Ruas ruminando uma prece, os lábios se movendo sem som algum. E agora?
ERETZ MUTIRÃO
A moto corta a Rua Itaetê adormecida na madrugada com discrição. Ao contrário dos traficas e da cabocada em geral, Mutirão optou por não mexer no sistema de gasolina para gerar o barulho altíssimo que caracteriza os trajetos em duas rodas pela cidade. O contraste entre o relativo silêncio na rua hoje e as lembranças de sua infância o surpreende. Anos atrás, Mutirão ia na garupa, colado no dorso da mãe, que guiava a moto com presteza pela Itaetê apinhada, passando entre feirantes, pedestres, vira-latas e as barracas de roupas, eletrônicos, frutas e verduras, além, claro, das placas que indicavam ofertas imperdíveis: promoção de polpa seiscentos, duas por dez; calcinha boka loka, três por dez; compra-se ouro; banca do Paulo, tambaqui, pacu e sardinha. Eita, muvuca da porra!, berrava Geralda de dentro do capacete, ouvida por ninguém, obliterada pelos sons da feira, a cabeça do pequeno latejando no calor.
O destino de antes e de agora se repete: do Amazonino Mendes, na zona Norte, para a casa dos Ruas, na zona Sul. Uma das lembranças mais antigas de Mutirão eram as estátuas em cima do muro da casa, na Rio Pauini: um casal de indígenas, um de cada lado do portão. Suas peles morenas lembravam a do próprio menino, mas os traços tinham algo de estilizado que o assustava, como olhos um pouco grandes demais, músculos definidos e uma voluptuosidade que ele nunca havia visto nas indígenas quando visitava a avó na TI perto de Tefé. Dentro da casa, outra diferença: um casal branco que doía, a Dona Eva e o Seu Clemente, enchia-o de carinhos, bombons e perguntava por seu calção de banho – que ele já vestia por baixo da bermuda –, enquanto Geralda ia para o banheiro trocar de roupa para iniciar o trabalho na cozinha. Na beira da piscina, de óculos escuros, um menino pálido de uns treze, catorze anos, aguardava Mutirão lendo revistas Rolling Stone. Acoplava boias coloridas no braço do pequeno e decretava: bora, bora aprender a nadar, moleque!
Inúmeros finais de semana transcorreram assim, entre piscina e churrascos. O baião de dona Geralda era devorado compulsivamente pelo adolescente, Bento, que nessa época começou a ganhar peso e vivia sendo regulado pela Dona Eva, a mesma que enchia Derick (naquela época, era como chamavam Mutirão) de chocolate Bis. Seu Clemente, que passava os domingos assistindo a filmes antigos de ficção científica ou arrumando sua infinita coleção de VHS na sala de vídeo, botava a cabeça para fora da porta bem rápido e dizia com um sorriso: chegou a turma do Mutirão! Ele já sabia que, quando cansasse da piscina, depois do almoço, Derick correria para a sala com ele, onde veriam juntos O Homem que Caiu na Terra, Contatos Imediatos de Terceiro Grau ou outro dos filmes pelos quais eram obcecados.
O motivo de tanto mimo era a crença indubitável de que o garoto havia sido salvo por um milagre do Rabino Muyal. Explica-se: Dona Eva era neta de judeus marroquinos migrados para o Amazonas, e embora criada na tradição católica do resto da família, preservava alguns costumes, como não comer carne de porco. Já depois dos quarenta anos, ela engravidou do segundo filho e, apaixonada pela ideia de dar um irmão a Bentinho, sentiu um baque tremendo quando perdeu a criança aos cinco meses de gravidez. Uma depressão avassaladora quase lhe tirou a vida na época, sendo a chegada de Geralda, com seus cuidados e jeito marrento, o que a tirou do fundo do poço, juntamente com Derick, então com um ano e meio.
O carinho com o pequeno era tanto que até o menino Bentinho, na contramão dos filhos únicos que se entregam a ciúmes doentios, via Derick como um irmão mais novo que, por alguma razão não muito clara, morava longe dele. Por isso, quando Derick teve um grave problema respiratório aos quatro anos e precisou passar por uma delicada cirurgia, Dona Eva não pensou duas vezes: bancou o tratamento, separou uma pedra e levou para o túmulo do Rabino Muyal, o qual se dizia que era capaz de conceder graças de boa saúde. Dezenas de outras pedras descansavam sobre o túmulo do santo judeu, e por isso Eva se encarregou de escolher uma maior e mais vistosa, rezando sobre ela enquanto admirava as diversas placas afixadas no entorno, nas quais estavam registradas mensagens de gratidão. Não por acaso, o aniversário de cinco anos de Derick, já com a criança totalmente recuperada, foi celebrado no cemitério, com a fixação de uma nova placa: “Graça alcançada, D. S. M” (D de Derick, S de Silva e M de Madeira).
Antes mesmo de Mutirão tocar a campainha, o portão da casa da Rio Pauini se abriu. Ele demorou alguns segundos para reconhecer Bento Ruas, com quem não tinha contato desde que o quase irmão fora morar com os tios em Brasília. Pelas contas, ele devia estar com uns trinta, trinta e um anos, mas parecia mais velho. Alguns cabelos brancos despontavam ondulados, além de olheiras proeminentes na cara chupada, que contrastava com a barriga de cerveja, embora os braços e pernas fossem mais finos do que deveria prever sua configuração corporal. Esse bicho tá só o bagaço, concluiu Mutirão. Já ele próprio era apenas uma versão espichada do que sempre fora: um caboco de cabelo liso, de cuia, baixinho e seco. A novidade era o estilo descolado, combinando uma camiseta puída do Portishead com uma bermuda tactel cheia de alienígenas desenhados e uma botinha Caterpillar falsificada com meia lilás.
– Essa camiseta era minha? – perguntou Ruas, abraçando Mutirão, sendo esse o cumprimento.
– Mãezinha me deu, faz uns 4 anos já – respondeu Mutirão. Ele sempre chamou Dona Eva de mãezinha.
– Bom saber que eu colaborei com algo relevante no mundo. Tua educação musical, no caso.
– Foi o que deu pra fazer – suspirou Mutirão, entrando no assunto que não esperava tocar – Tu sumiu, né?
– Pois é… – suspirou Ruas de volta, encabulado, passando a mão nas cicatrizes nos pulsos, riscas altas e de tom levemente mais avermelhado que o resto da pele.
– A Dona Geralda não me falou nada quando tu tava fudido lá – explicou Mutirão, segurando as mãos de Ruas. Ele sempre chamou a mãe de Dona Geralda – Ela só foi me contar dia desses, quando disse que tu ia cuidar aqui da casa agora. Eu fiquei buceta, ó.
– Deixe Dona Geralda, que eu que pedi pra ela ficar na dela. Ela queria até me mandar um dinheirinho naquela época, acredita? Aliás, eu mandei um Pix pra ela ontem, ela viu? Diga pra ela ir ver logo aquele braço dela, que é o tempo que eu resolvo aqui as coisas e vejo o que precisa pra botar ela no plano de saúde.
– Valeu, mano.
– Bora logo tomar uma é que é. Tu bebe, né?
– Bebo mesmo…
Bastou isso para que Mutirão e Ruas reatassem os laços depois de quase sete anos sem contato. Na moto, os irmãos aterrorizavam os carrões na João Valério, desceram a Djalma e foram parar no Gringo’s. Para surpresa de Ruas, o bar continuava exatamente do mesmo jeito que na década passada, com boa parte do elenco original, inclusive. Ali os irmãos compartilharam segredos e façanhas, e Mutirão também conheceu uma antiga amiga de Ruas, Soraya, que.sem cerimônia, se juntou a eles na bebedeira.
O que era novo ali era o fulgor nos olhos de Bentinho – me chama só de Ruas agora – ao misturar niilismo, grafite, terrorismo, luta de classe e surrealismo numa mesma sentença, num conjunto desconexo que não significava nada para Mutirão. Ele até tinha uma vaga lembrança de vê-lo com uns livros de poesia entre apostilas de cursinho preparatório no passado, mas nada que apontasse um gosto para a subversão. Como resultado, Mutirão apenas ficava em silêncio, balançando a cabeça em concordância, enquanto Soraya adicionava mais ingredientes nonsense à conversa. Ela encontrou, por exemplo, um gancho para discorrer sobre as luzes no cabelo de Michelle Bolsonaro na cerimônia de posse do marido, ocorrida alguns dias antes, e como a estética neopentecostal será regurgitada pela comunidade éle-gê-bê-tê como forma de contra discurso nos anos seguintes, tudo isso enquanto retocava o batom ou ajeitava as ondas dos cabelos cor de vinho – vinho não, Marselha.
Como devem ter sido os anos de Ruas em Brasília? Por que ele tentou se matar? Esses eram assuntos que não pareciam interessar em nada a ele, de forma que Mutirão decidiu que também não interessava a si. Em vez disso, aceitou de Soraya alguns livros, a título de empréstimo, incluindo o Guerra e Spray, do Banksy, e uma edição detonada do The Anarchist Cookbook – que ela garantiu ter todas as notas em português necessárias para entender o que interessa. O que interessa? Como assim?, pensou Mutirão.
– Mas é pra ler e devolver! – reforçou Soraia, cruzando as pernas ao acender um cigarro de cravo para ela e outro para Ruas – Aqui são quatro vês: vai e volta voando, viado! Tu mora onde?
– No Mutirão – ele gaguejou.
– Mutirão que mora no Mutirão, tá anotado! – berrou Soraya, rindo com todos os dentes possíveis. A rendinha da barra de sua minissaia deixava visível uma espécie de punhal, preso na cinta liga.
Já era quase meia-noite quando Mutirão decidiu quebrar um na praça do Congresso e, atentando contra a própria segurança, tirar do bolso o celular de tela trincada. Nas notificações, apenas um vídeo de coelhinhos com a logo do Kwai, enviado pela mãe; uma discussão infinita sobre slides de apresentação de trabalho no grupo dos colegas de faculdade; e uma mensagem de Lua Madeira, apenas um emoji. Ao olhar o rosto amarelo estilizado, com sobrancelhas questionadoras e uma mãozinha no queixo, ele suspirou. Abriu a galeria do celular, que travou numa tela cinza por alguns segundos até finalmente mostrar o conteúdo e permitir que ele clicasse num vídeo. Nele, a garota virava uma dose de cachaça e dublava uma versão de Blue Velvet na voz de Bob Vinton. Ela olhava diretamente para a câmera, gesticulando uma sensualidade que atravessava sua falta de traquejo e embriaguez.
– Cuidado com o conselho tutelar – disse Ruas, analisando o vídeo, quase matando o irmão de susto.
– Não, po – responde, passando a ele o baseado – Ela é de maior.
Os dois assistem a mais um looping do vídeo, as duas cabeças inclinadas de forma espelhada sobre o celular, a garota olhando para os quatro olhos.
– Namorada?
– Minha prima, Luana – ele responde, corrigindo-se em seguida – Lua, que a gente chama.
– Rapaz… Tá pegando?
– Cara, não, ó. Querer, eu queria. Ela tá morando em Manaus agora, a gente tem saído bastante. Mas eu não sei qual é a dela. Ela é meio estranha.
– Eu odeio essa palavra. Estranho. Que porra isso quer dizer?
– Quer dizer que ela é muito gata.
Uma rajada de vento corta a conversa, assobia na madrugada. Nuvens rastejam como lesmas amarelas, refletindo a luz dos postes e anunciando uma chuva que pode ou não se concretizar. Pelas beiradas escuras da praça do Congresso, metaleiros conversam, moradores do prédio ao lado contam os segundos para entrarem na zona de segurança do lar e a repetição da trilha sonora do Gringo’s tenta infeccioná-los. Sentada ao lago do Quiosque da Baiana, uma mulher suja e tísica repete baixinho, sem parar: A menina do céu! Ela vai colocar vocês em encrenca nas estrelas! É sim! O falatório só termina quando sua pedra de óxi queima e a mulher enfim fuma algum alívio. Porém, o que realmente chama a atenção é o homem negro de terno branco e gravata vermelha que se aproxima gargalhando, passa exatamente entre os irmãos e segue pela escuridão da Monsenhor Coutinho.
O DIÁRIO DO CAVALO MEGAZORD
DIA J
Lua Madeira acordou a contragosto. No sonho, Ruas entregara a ela meia folha de caderno, laranja, dobrada perpendicularmente em relação às linhas pautadas. A textura da página no toque com a mão carregava uma curiosidade elétrica, como se o papel, contra a pele, ativasse um sigilo mágico. Ela então desdobrava a folha, e nela se revelavam uns poucos versos, sete ao máximo. A letra de Ruas, embora manuscrita e numa inclinação peculiar, era nítida como só os sonhadores experientes do calibre de Lua Madeira são capazes de conceber.
O poema, ela percebeu, significava tudo. Tudo. Era de uma elegância ímpar, e um verso em específico fazia uma associação de palavras tão desconcertante e concisa que Lua Madeira não podia deixar de sorrir, como se a escrita lhe fizesse salivar por biscoitos ou percorrer o caminho desejado no labirinto de um experimento científico. Disso ela lembrava: dos fragmentos, papel contra a pele, da sensação que o filme deixa ao subirem os créditos, letras demais para acompanhar. O conteúdo, porém, virou uma incógnita no despertar, assim como o resto do sonho, oculto na promessa de um bater de cílios próximo. Tudo que restou foi a eletricidade ativada no corpo de Lua Madeira, as letras avulsas com a forma de um raio lhe partindo ao meio e o fantasma do poema no quarto.
Ela se esforçava, puxava as cobertas para cima do corpo novamente, numa tentativa infantil de voltar para lugares que a ela não eram mais permitidos. Ao abrir os olhos, sua única companhia era o torso disforme que flutuava pelo quitinete desde que ela se mudara para o Lírio do Vale. O ventre dele, aberto do umbigo ao pescoço, deixa dependuradas as tripas, que roçavam na cara de Lua Madeira. Por conta dessa característica, ela apelidou o torso de Delmo, como o estudante boêmio estripado por 27 taxistas nos anos 1950 em Manaus que, desde então, virou padroeiro dos estudantes. Lua Madeira, no entanto, preocupava-se com questões nada históricas. Precisava saber se aquele era um poema de amor, mas ela não sabia. Ela não sabia de nada.
DIA E
Lua Madeira acordou a contragosto. Em seu sonho, Ruas a comia de quatro na picape de Sorria, e seus joelhos sentiam a tração da pele contra o couro vermelho do assento do veículo, acariciando e machucando em igual medida.
O despertador seguiu o acordo de despedaçar seus ouvidos pela manhã, e a taquicardia costumeira anunciou pequenos afazeres que, quando enfileirados um atrás do outro, lhe pareciam um anel de Saturno e um caminhão de entulho: acordar, desligar o despertador, passar a mão no meio das pernas, lembrar que horas são, tirar a mão do meio das pernas, tirar as cobertas, criar um fantasma no meio das pernas, deixar os lençóis respirarem, respirar, botar os pés nos chinelos, sentir o fantasma no meio das pernas, caminhar, abrir a porta do banheiro, levantar a tampa da privada, sentar-se, urinar, enxugar-se, esquivar-se do fantasma no meio das pernas, jogar o papel no lixo, jogar o fantasma do meio das pernas no lixo, levantar-se, fechar a tampa da privada, dar a descarga no fantasma do meio das pernas, abrir a torneira, lavar os restos do fantasma no meio das pernas das mãos, olhar-se no espelho – todos os furos da cara, narinas, pálpebras, boca, ouvidos, canais lacrimais, poros, covinha do canto direito do rosto, buracos de onde o fantasma sai como se fosse uma espinha, inflamado, dolorido, feio, e o constrangimento que seria ele estar ali para qualquer um ver –, pegar a escova de dentes, molhar a escova de dentes, jogar pasta por cima, acreditar na promessa de que seria purificada do que quer que o fantasma jorrou ali dentro a começar pela boca, todos os dentes abraçados pelas fibras da escova, fazer sangrar a gengiva, cuspir o fantasma da boca, gargarejá-lo, lavar com água seus restinhos do canto dos lábios, olhar-se no espelho, dentro de seus olhos, procurá-lo ali também.
Ao entrar no chuveiro, Lua Madeira respirou o alívio que a lavanda no sabonete exalava. Delmo flutuava na altura do teto, dessa vez com pernas amorfas dependuradas lá em cima, uma dentro e a outra fora do box. A distância entre a boemia e a santidade é de apenas um assassinato, ela pensou, sorrindo no vazio. Pelo menos com esse fantasma ela estava acostumada.
DIA A
Lua Madeira acordou a contragosto. Todo dia, às três da manhã, ela é despertada por visões macabras, tantas que é difícil se assustar com uma só. Sonha que estripa um homem e às vezes ele é Delmo, o santo, não o torso, e às vezes ele é Ruas. Uma madrugada normal. O problema mesmo é um pouco antes de acordar: a tal da taquicardia, as dúvidas se aquele era um sonho profético, o futuro dando voltas numa trança feita de seus olhos, soltando fiapos noite adentro enquanto lhe diz siga pela direita, e logo depois se desvi para a esquerda, ou vice-versa.
Quase sempre ela levanta meio torso da cama por costume. Certifica-se de não estar mais no astral e, para ter certeza, ela tateia a mesa de cabeceira em busca de um copo d’água. No astral, a mesa de cabeceira nunca chega, não importa o quanto ela estique o braço rumo ao infinito. Mas agora Lua Madeira está aqui. Sem ânimo e certa de outra noite mal dormida, na maioria das vezes ela não se dá ao trabalho de sair da cama. Fica ali, parada, olhando para as formas do negro na escuridão, que, por sua vez, são diferentes das formas do negro dos olhos fechados, mais ricas e densas. Afinal, para que fechar os olhos e encarar as todas as criaturas que a contatam? Elas são como Delmo, não gostam de falar de madrugada, não gostam! No máximo, observam-na e riem, riem por dentro de Lua Madeira, colocam-na num canto à parte dentro de sua cabeça para que se movam através dela, se estiquem, se alonguem. É como se ficassem guardadas em caixas por muito tempo, dobradas, e a transposição lhes permitissem ficar finas e retas como roupas engomadas num cabide, coisa de que as criaturas parecem gostar.
No comecinho, Lua Madeira esperava até que elas saíssem dela e se levantava da cama. Enérgica, ordenava-lhes que nunca mais voltassem, batia palmas pelos cômodos, chegou a fazer defumações nos poucos metros quadrados do quitinete. Depois percebeu que, sem as criaturas, ela estava vazia. E sozinha. Em silêncio. Foi quando elas decidiram falar por Lua Madeira e cavalgá-la como se ela fosse um cavalo Megazord.
DIA Q
Lua Madeira acordou a contragosto. Sonhara novamente que dava a Ruas o que achava que ele queria, e enquanto ele a penetrava por trás, a mente dela se partia em várias. Uma parte de sua cabeça o acompanhava pelo campo de fogo do sexo, manifestando o que, no sonho, era um feitiço proposto com essa finalidade: a cada peça de roupa a menos que os separasse, o desejo dele de a ter aumentaria, lua após lua. A cada território do desejo conquistado, uma peça de roupa em chamas, frutos e oferendas numa encruzilhada. A outra parte da cabeça de Lua Madeira se jogou no assento de co-piloto que ela tem dentro de si, aquele onde ela descansa quando outras criaturas assumem as rédeas do cavalo Megazord.
Sentada ali, uma perna no chão e a outra estendida sobre o braço do assento, ela observava a si própria e Ruas enroscados, nus, suados, tão disformes quanto Delmo. Ondas indefinidas partiam de seus corpos, ondas que não conseguiam decidir seus nomes: estranhamento. Poder. Vazio. Amor. Não, amor não. Lua Madeira odeia o amor. Ele é um torso grande demais, ocupa toda a sua cabeça e faz brotar braços e dedos e lábios e unhas, e quando ela menos espera, há um corpo inteiro dentro de seu corpo e ela precisa se espremer num canto antes que ameace ser regurgitada. E porque Lua Madeira tem medo de não saber o que acontece se ela for regurgitada de si mesma, ela decidiu segurar seu cockpit com destreza, desviando de todas as palavras e ondas. Disparou contra elas num videogame alucinante, até a tela ficar completamente branca e ela sentir o êxtase méleo e branco do gozo. O sol aberto. Ela não precisa de mais nada, e no entanto, quer mais. É quando acorda.
Dessa vez, Lua Madeira se levanta, e antes mesmo de botar os pés no chão, a lâmpada do corredor estoura e Delmo foge para a cozinha. Agora que o sonho lhe apontou os caminhos para atrair Ruas, ela está calma. No banheiro, senta no vaso e admira ora o torso disforme que a espia na porta, ora as unhas prateadas dos pés, enquanto o mijo vibra um eco abundante na madrugada.
DIA W
Lua Madeira está irritada. Para Ruas, tudo é uma questão de terrorismo arquitetônico! O que importa é o seu decreto de que suas visões sob efeito da garrafada, que ela tão gentilmente cedeu a partir das conversas com as plantas, são os ditames de uma nova ordem de intervenções artístico-políticas na cidade de Manaus.
Lua Madeira, agora sentada na cadeira do piloto, volta umas boas casas: Ruas finalmente a chamou para um banho de piscina, e depois de um dia inteiro exibindo as entranhas de desconhecidos na clínica de radiologia, ela desceu para a Eduardo Ribeiro e comprou um biquíni novo na C&A. No espelho, analisou as dobras que os seios fartos e os grandes lábios formavam no tecido vermelho. Agradeceu as forças que sussurraram, dia após dia, o desejo de Ruas nas entranhas dele pela magia e aprovou o look de bruxa satânica.
No dia e hora marcados para a visita, Lua Madeira admirou as estátuas de dois indígenas que pendiam no alto do muro da casa de Ruas, na Rio Pauini. O primeiro usava trajes mínimos, o cimento pintado tentando emular a delicadeza de penas, palhas e sementes de forma tosca. A segunda estátua, de uma mulher, trazia cabelos longos e negros sobre seios enormes, equilibrados por um quadril que se alargava pelo efeito do saiote, o estereótipo completo. Você e eu, você é meu, ela mentalizou ao tocar a campainha. Mas no lugar de Ruas, Sorria abriu o portão, e a sobrancelha direita dela levantou safadinha ao constatar a garrafada de Lua Madeira debaixo de seu braço.
Alheia às forças que as circundavam, Sorria apenas ajeitava os lacinhos do biquíni sobre a pele pálida e apontava onde a amiga poderia deixar os tênis. As duas seguiram pela ampla sala, cuja decoração cambaleava entre o barroco e o punk, passando por um dos banheiros e depois dobrando para a cozinha, onde Mutirão, sentado numa banqueta, tomava uma Coca Zero, cercado pelas florzinhas amarelas do azulejo antigo que subia por todas as paredes até o teto. Ao ver a prima e sua garrafada, ele soltou um ah! de satisfação, reproduzindo a sobrancelha faminta de Sorria.
Como de praxe, a expressão de Lua Madeira era imutável, os olhos fixos e as pálpebras rasgadas meio baixas. Absorvia a energia da casa pelos pés descalços e evitando olhar nos olhos das criaturas diversas que, embora invisíveis aos demais, habitavam o antigo casarão. Seguindo pela porta dos fundos, ela chegou na área externa, mais espremida do que se supunha, onde a água da piscina abraçava a cintura de Ruas, baixo o suficiente para sua barriga branquíssima refletir o sol.
Era isso. Ele invocou seu seleto grupo, do qual aparentemente ela faz parte agora, para a piscina do casarão dos pais como um adolescente em férias, um Ferris Bueller com os primeiros cabelos brancos despontando da cabeça.
É assim que o futuro funciona, resumiu Lua Madeira, o futuro dança uma música que não conseguimos ouvir. Quando dançamos com ele pela magia, é do jogo ele nos pisotear. Restava apenas servir a todos com a garrafada e surfar no fluxo. E quando a lombra bateu, Ruas veio da piscina para a escada, e da escada para a borda, e da borda para o lado de Lua Madeira. Pentelhou-a pacas, falando sobre surrealismo, vontade de potência e pulsão de morte, enquanto ela abraçou a Grande Revelação de que talvez só quisesse foder, e ele numa palestrinha interminável, da qual Lua Madeira entendia cada detalhe, e quanto mais entendia mais repetia a si mesma: tu não é livre, tu não é um homem livre, Bento Ruas! Tu só vê o que teus olhos veem, é escravo desse cloro e do cooler de cerveja artesanal e daquele puta lustre na sala. Tu não vê as ondas e os torsos e nem ouve os encantados, nada te atravessa, tu é como uma radiografia, uma enciclopédia, tu tá faltando pedaço, tu não tem sala de comando e tu não sabe nada do sangue de que a cidade é feita, tu é um split de 18.000 BTUs armando e desarmando a noite inteira pro caboco achar bonito dormir de edredom, tu quer intervir em conceitos, não paredes, tu é do tipo que passa misturinha de água sanitária e bicarbonato de sódio pro tênis ficar bem branquinho, eu te odeio e um dia eu vou calar a porra da tua boca na minha buceta só pra não ouvir mais uma palavra dessa ladainha!
– Definitivamente, tu não é livre – Lua Madeira deixou escapulir da sala de comando, e todos viraram a cabeça para ela ao mesmo tempo.
Ruas, cujas pupilas estavam dilatadíssimas, cobrindo todo o mel da íris, indagou:
– E como eu me liberto?
– Bota pra quebrar, ué – respondeu ela – Solta as tartarugas na piscina, mostra pro David Cronenberg como é que se faz.
– Mana, tu não tem dó das tartarugas não? – questionou Sorria, preocupada.
– Eu tô é pouco me fudendo – ela rebateu.
– Tá, usa umas de plástico – sugeriu Mutirão.
– Só cala a boca. Cala a boca e faz alguma coisa. Vai até o fim.
O decreto de Lua Madeira colocou a todos em silêncio profundo pelas próximas horas, foi o mais próximo de uma metáfora que ela chegara em toda a sua vida até então. E em vez de ser entendida como tal, sua fala instigou o grupo a calcular quantos bonecos Tartaruga Ninja seriam necessários para encher a piscina da Vila Olímpica na Pedro Teixeira, além do aparato de apoio para tal intervenção. Nascia o Coletivo Amargo, o que para todos passou a ser uma questão de terrorismo arquitetônico, menos para Lua Madeira. Para ela, as intervenções seriam a sua forma de fazer todos sentirem o que ela sentia: uma solidão infindável, que a rasgava do umbigo ao pescoço.
DIA Z
Lua Madeira acorda a contragosto. São três da madrugada e o Coletivo Amargo vai dispensar 12424 tartarugas ninjas na piscina da Vila Olímpica da Pedro Teixeira. Como Ruas conseguiu todas elas, é um mistério.
COMO O TÚMULO DE SANTA ETELVINA NO FINADOS
Soraya. Sóror. Sorria. Lua Madeira me vestiu de tantos nomes ao falar. Começou dizendo que somos mulheres feitas de fogo, por isso não precisamos contar tudo uma para a outra, muito menos verdades. Que quando as chamas dançam na escuridão que nos cerca, que são muitas, tomamos várias formas. Bruxuleante, foi essa a palavra que ela usou. No sol de final de tarde, seus pés tocavam a película da superfície da água empestada de cloro na piscina, e os olhos, pequeninos e fixos, não tinham brilho algum.
Foi quando uma boca dentro da boca de Lua Madeira decidiu se manifestar. A voz era diferente, e a diferença que vinha dela se espalhava pelo resto de seu corpo: as sobrancelhas subiram, e um escárnio deixou a pele de seu pescoço firme, dura. Os dedos adquiriram um tom professoral, os gestos de uma verdadeira megera. E essa boca dentro da boca de Lua Madeira me contou a minha própria história.
Começou pela tristeza que veio das minhas raízes, do menino melancólico que fui, coisas do sangue. Descreveu as roupinhas rosa com que vovó me vestia em segredo, as quais encontrei numa caixa de sapatos no dia de seu enterro. Relembrou também as coisas que papai fazia, da eletricidade que isso gerava em meu corpo antes que eu pudesse entender o que era a repulsa. E avaliou que fiz bem em falar o que falei a ele no dia em que dei um basta. Que hoje sou uma menina despirocada, peidadinha do juízo, e que isso orna com a minha beleza.
– Não te assusta, Sorria. Não sou eu que tô falando, é a garrafada. Essas porras entram e tomam conta da sala de comando na minha cabeça. Eu só sento no banco do carona. Sou um cavalo Megazord.
– E como é ser um cavalo, Lua Madeira? Dói?
– Não sinto nada. Eles tomam conta de tudo.
Fatos. Ela parecia em paz flutuando entre mundos. Quando os meninos pularam na água, a água balançou dentro da água e a água quebrou cristaizinhos de luz no rosto de Lua Madeira, que nem piscava.
Ruas nos observava de tempos em tempos, brincando com os poucos pelos da barriga translúcida, numa postura que lhe garantia alguns anos a mais. O contraste entre ele e Mutirão era complementar: um branco azedo que, como eu, pendia mais para uma pele amarelada, ao lado de um caboclo baixinho e magrelo, relaxado, nenhum pelo a vista no dorso ou na cara, os olhos sorridentes por trás das lentes polarizadas verdes dos óculos, que combinavam com sua bermuda tactel.
Eles falavam na língua dos homens: futebol, mas veja bem, aí é que tá e outras coisas desinteressantíssimas, livres que estavam dos efeitos da garrafada. Já eu, embora tivesse consumido dela até mais que os outros, permaneci num estado de bem-estar lúcido, confortável na Grande Espreguiçadeira Branca do Agora, um topzinho de oncinha e uma Louisie Pantie preta bem cavada como armadura contra todo o mal. Foi então que, do outro lado da piscina, por trás da língua dos homens, eu vi mamãe. A única que tive.
Ela brilhava. Apertando meus olhos, percebi que suas vestes eram todas feitas de lacres, centenas deles: lacres verde-escuros, de Antártica Zero, e lacres laranja de Fanta formavam seu manto, com as mangas enfeitadas por lacres metálicos prata. A minissaia saia, rodada, era feita de lacres plásticos rosa choque e a fazia parecer uma flor de jambo. Já o corpete era feito de lacres de segurança azuis, largos, cobrindo todo o seu torso. Seus calçados também seguiam a mesma lógica, com lacres adesivos, do tipo que vedam sacolas de papel de fast food ou temakeria, fazendo franjinhas nas botas prateadas. Em sua testa, um lacre de cera dourado com o desenho de uma flor.
– Bença, mãe – eu disse a ela, baixinho, sabendo que ela me ouviria apesar da distância.
– Inhaí? – ela respondeu, falando por meio de Lua Madeira – Deus te abençoe, minha filha!
A mãe e a puta. A santa e a confidente. Mamãe foi um encontro de duplos no um ano e meio que me acolheu na casa Jasytata. Ela tinha dez anos a mais que eu, que saí de Lábrea rumo a Manaus aos dezessete. O contrato da casa de três quartinhos ficava no nome dela, com todas as meninas responsáveis pelas despesas gerais. Concursada do INSS, mamãe era um ser alienígena na comunidade que, ainda assim, foi abraçado por ela ao longo do tempo. Conosco, fazia cálculos imaginários, cobrando-nos valores abaixo do recomendável, e colocava pelo menos uma conta no nome de cada uma, como forma de nos incutir um mínimo de responsabilidade e incentivar a cuidar, a quem interessasse, da mudança do nome social nos documentos.
Eu dividia o quarto com Arcana, e Demi e Silvina ficavam no outro, enquanto a suíte ficava com mamãe. Por sermos várias e pobres em sua maioria, vivíamos uma vida simples, mas não nos faltava o essencial: um teto, comida, abraços, uma profusão absurda de esmaltes e nossos adereços para a noite, além de tinta loura para os cabelos de mamãe, que ela mantinha um platinado impecável. Foi nessa época que adotei o tom de vinho para meus cabelos, que ainda estavam na altura dos ombros, não pela cintura como é hoje.
Mamãe tinha um olho bom para escolher meninas tranquilas para a casa, sonhadoras e focadas em seus ofícios. Havia tardes de domingo em que, no quintalzinho dos fundos, eu olhava ao redor e via Demi sentada num tijolo, costurando um disco voador de pelúcia no ombro do vestido, Arcana inventando formas harmônicas com os dedos em dança, sonhando com o próximo ball, Demi se deliciando com bolachas Escuretto, que ela sempre arrumava num pires antes de comer, e mamãe anotando coisas num caderninho, sempre assim, riscando linhas e adicionando outras. Parecíamos saídas de um romance de Jane Austen – havia livros dela pela casa toda, desses com a silhueta negra de uma mocinha de vestido e espartilho contra um fundo enfeitado de flores e o título escrito com letra de convite de casamento.
É quando vinham os ballrooms que nosso outro lado aflorava. Ali, ela era ET El Vynah, uma espécie de Ashtar Sheran viadíssima, com a cara pintada de branco, os cabelos loiros jogados para trás e roupas surpreendentes. A casa Jasytata, no geral, era conhecida por ser esquisita. Eu, por exemplo, era obcecada pelo líder de seita Rael – não por acaso, esse era o meu codinome –, e todos os meus looks eram inspirados nele, com aquelas túnicas à la Dragon Ball adaptadas para mostrar meus dotes ao dançar. Éramos frias, distantes y peitudas, olhávamos para todas de cima para baixo como se as estudássemos, personas mantidas ao longo de todo o ball. Em suma, drags no método Stanislavski até mesmo nos treinos na praça do BK ou nas calçadas do Shopping Phelippe Daou.
Apenas ao final da festa retornávamos aos nossos corpos habituais, esticávamos para uma cervejinha ali na rua do Marquinhos e trocávamos com as outras meninas, que ficavam ao redor de mamãe, dissecando suas dicas de beleza y simpatia. E não eram só as meninas, óbvio. Homens a rondavam como moscas.
– Se eles são as moscas, isso me faz o que, menina? – ela cochichava baixinho, com um resquício de sotaque cearense, enquanto eu lhe servia mais Brahma no copo americano. Ela bebia um gole, saboreava o frio da bebida descendo pela garganta e, ao tirar um Camel de cravo da bolsa, um braço masculino se estendia com um isqueiro vindo dos confins do bar para acendê-lo.
– Prefiro pensar que a senhora é o sol e somos seus planetinhas, mamãe – eu respondia do outro lado do isqueiro, invisível ainda aos demais, escondida entre as nuvens.
Foi mais ou menos nessa época que o José começou a aparecer pela casa. Esse não era o nome dele, mas como desistimos de tentar acompanhar a vida amorosa de mamãe, chamávamos todos por esse mesmo nome. Nos dias em que nos visitava, José chegava quando o sol se punha e ia direto para o quarto dela. Passavam horas trancados ali, e ele saía antes de o sol raiar. Depois de alguns meses, José passou a ficar conosco também nos finais de semana. Conosco é uma palavra forte, pois ele nunca interagia com nenhuma de nós: era como ter uma visagem de casa mal assombrada, que só víamos, se muito, com o canto do olho. Às vezes, confundíamos a presença dele com o vento que batia uma porta ou algum barulho da rua, tão poucos eram os sinais de sua presença.
– Deus me livre e guarde! – dizia Arcana ao passar pela frente do quarto de mamãe e uma luz de apagar, do nada, lá dentro. Ela então beijava uma imagem pequenininha em seu tercinho: uma Nossa Senhora estilizada, seminua, coberta por um manto nas cores do arco-íris, com o qual me presentearia alguns anos depois.
Imagina só a reação de Arcana se tivesse esbarrado com ele como aconteceu comigo uma vez, ao levantar de madrugada para fazer xixi! José estava de saída, todo paramentado com o uniforme da Rocam, arma em coldre, colete balístico e tudo. Na plaqueta de identificação, um sobrenome: Ferrari. Seu olhar era gélido. Tinha sobrancelhas arqueadas e densas de vilão de desenho animado. Ou imaginei que assim fosse, porque a mim era impossível olhar para seus olhos de verdade. Eu mantinha minha cabeça abaixada, encarando a aliança em sua mão esquerda.
– Tu não me viu aqui, seu baitola! – e a porta se fechou por trás dele, separando a noite em duas.
Mamãe ficava muito séria e silenciosa quando José estava na casa. Faltava aos bailes, se precisasse, e apenas os gemidos no quarto eram ouvidos nessas ocasiões. A nós, eles pareciam misturar dor e prazer, perigo e entrega, tudo naqueles ruídos. Sabíamos que o sexo sempre fora o fraco de mamãe e que ela tinha homens de todos os modelos e tamanhos, vindos nas mais variadas embalagens e do mundo todo. Eles entravam, viravam Josés e ficavam pouco tempo, como se estacionassem num rotativo de pretendentes, às vezes mais de um ao mesmo tempo, apenas com agendas separadas. José era um caso à parte, pois quatro meses se passaram e ele continuou assombrando a casa até aquela noite fatídica.
Eu chegara em casa cedo para um sexta. Era noite de ball, mas como não ia competir daquela vez, fiquei só um pouquinho. Assim que entrei, ouvi o barulho de um bicho que não existia na Terra, como se uma nave alienígena tivesse caído na casa e seu único sobrevivente agonizasse. Uma luz vermelha vinha da suíte de mamãe, vazava das brechas de sua porta com o frescor da split. Eu me aproximei, já descalça, cada passo mais frio que o outro, até que olhei pela brecha da porta e vi José desferindo um golpe – que estava longe de parecer o primeiro – contra a barriga de mamãe. Ele usava uma meia, e dentro dela alguma coisa dura e pesada, e quando não a batia mais, rodava a meia com a mão direita, que girava como um planeta em torno do sol. O mais impressionante é que mamãe não apresentava marca alguma, por mais forte que ele batesse. A dor e agonia, porém, eram cristalinas.
– Tu não vai mais dar praquele viado! Tá me ouvindo, seu traveco escroto?
Eu sabia de quem ele estava falando. Era o outro José. Esse nunca ia lá em casa, mas mamãe suspirava pelos cantos por ele com seu cigarro de cravo, um sorrisinho lascivo nos lábios e livros que eu nunca havia visto em todos os cômodos, por cima dos romances de Jane Austen. Os livros de José não tinham o nome do dono assinalado em canto algum, mas eu sabia que eram dele por conta do carimbo: uma letra R., vermelha, na primeira página. Se eu ameaçasse fazer qualquer menção àqueles livros, mamãe me batia de leve na mão, numa repreensão graciosa que ela enchia de rodelas de fumaça do Camel.
Agora, mamãe tinha um pedaço de papel na boca e os olhos inchados de tanto chorar. Estavam vermelhos como a luz do abajur, tudo coberto por aquela cor opressora, que comprimia o quarto. Seu corpo, encurvado como um verme. Demorou a ela perceber minha aproximação silenciosa, e quando levantou a cabeça e me olhou nos olhos, pareciam ter se passado anos. Na nossa telepatia, ela se limitou a me dizer uma única e diminuta frase:
– Fura esse fudido.
Assim que me mudei para a casa Jasytata, mamãe me presenteou com um canivete. O cabo dele tinha o desenho de uma espiral de estrelas e outros elementos espaciais estilizados sobre um degradê roxo e preto. Todas nós tínhamos um desses, e usávamos como um adorno secreto, geralmente oculto na cinta liga. Mas quem conhecia a casa Jasytata um pouco mais a fundo sabia que, por debaixo das saias, levávamos um segredinho perigoso, como José rapidamente percebeu quando eu lhe furei o ouvido com força. E antes que ele pudesse protestar, mamãe cuspiu o papel da boca e atingiu sua cabeça com um de seus inúmeros troféus de ballrooms passados: femme, vogue, face, ela já tinha feito de tudo, vencido em tudo, ela era tudo. E quanto mais ela batia na cabeça dele, xingando-o dos mais variados nomes, mais ela parecia se lembrar disso.
Achei que ficaria horrorizada, mas ver aquele José ensanguentado no chão do quarto, sob o abajur cor de carne, me deu uma tremenda paz. Ajudei mamãe a se levantar e recolhi o papelzinho que ele a obrigava a manter na boca. Nele, um poeminha todo babado, com a letra dela, no qual se lia:
R.
Seu gosto passando
Pela língua
Da memória
O dia inteiro,
Às vezes como tornado
E noutras como carrossel.
Me sinto tonta,
Transbordo fogo
como o túmulo de
Santa Etelvina
No Finados.
Quero parar
Mas o desejo
É um cão boquiaberto
Na janela do carro
No comercial de tevê,
Onde tudo tem o sabor
Do sol.
Estou branca
Deliro na cegueira dos trópicos
Rodopiando o transe
De teus sinais e cicatrizes
Sobre a transparência
Da tua carne.
O gosto dela passando
Pela língua
Da memória
O dia inteiro.
Guardei o papel na penteadeira de mamãe, certa de que ela adoraria retorná-lo aos segredos de seu caderninho. Uma burocracia ainda nos aguardava.
– E agora, mamãe? O que a gente vai fazer com esse gambé filho de uma puta?
– Eu vou guardar ele num potinho.
Essa foi a parte chata. Cavar a cova daquele José no quintalzinho, as unhas arruinadas! Por sorte, Demi, Arcana e Silvina chegaram do ball lúcidas como santas, graças ao rapé que compravam no Centro de Medicina Indígena. Ao verem a cena insólita, José desfigurado na terra e eu com a pá na mão, mamãe interrompeu sua pausa para o cigarro e disse:
– O José não vem mais, meninas.
Elas se olharam, tiraram as roupas de festa e, apenas de calcinha e sutiã, começaram a procurar utensílios com que pudessem nos ajudar a cavar. Naquela mesma noite, tudo estava resolvido, posto que aquele José, por estar envolvido com a apropriação indevida de bens recuperados pela polícia y otras cositas más, pouco figurava como pauta em portais de notícias de quinta categoria. Afinal, em ano de eleição, não interessava a ninguém escancarar seu networking.
Passadas algumas semanas, vivíamos normalmente, e outros Josés entravam e saiam da casa com a rotatividade costumeira. Numa dessas ocasiões, um deles aportou na sala de estar. Recostado no sofá, vestindo uma camiseta preta que deixava uma faixa de sua barriga branca aparente, ele pintava as unhas de mamãe e fumava um dos Camels de cravo. Ao me ver, ele sorriu com dentes meio amarelados e perguntou:
– Quais são suas ideias sobre terrorismo arquitetônico?
E foi assim que ele passou a ter um nome: Ruas. Naquele dia, o vidrinho de esmalte em suas mãos era um azul-claro idêntico aos ladrilhos de sua piscina ao fim da tarde, anos depois. Ali, mamãe olhava rumo ao horizonte com um sorriso microscópico entre os lacres naquela aparição, na certa pensando em outros Josés.
NO BAILE DO JUÍZO FINAL
– Podemos terminar assim? – indaga a Primeira Voz, grave, vinda de um canto da caverna.
– Não gosto – retruca uma Segunda Voz, aguda, do canto oposto – A travesti e o rapaz negro detidos, o casal branco livre…
– Mas eles estão prestes a serem pegos – devolve uma Terceira voz, sussurrante, de alguma outra posição – Nus, ainda zonzos de prazer. Há uma série de encadeamentos que me interessam num final assim: ocultos e descobertos, a detenção em suspenso, o sagrado e profano em colisão e o gozo resolutivo seguido de uma expectativa quebrada ao meio.
– Além disso, o casal não é branco – complementa uma Quarta Voz, infantil, vinda como que do chão – A garota é morena, não? Cabocla. O Ruas é que tem a barriga branca, diz-se isso o tempo inteiro.
A cada vez que as Vozes falam, as chamas da fogueira tremem dentro da caverna, mas não o suficiente para revelar os corpos às quais pertencem. Cercado por um anel de fogo, com a bermuda nos joelhos e o pau meia bomba para fora, Ruas move a cabeça de um lado para o outro na tentativa inútil de entender de onde vem cada fração do diálogo. Aos seus pés, Lua Madeira parece o fruto de uma pesca ilegal: deitada, os braços seguram as pernas marcadas pelo trançado da meia calça arrastão que sobe até a cintura, a bunda e os lábios da buceta também trançados, escapando por um rasgo que se expande ao menor movimento.
– Tu que fez isso? – pergunta Ruas, quase desabando no chão ao sincronizar o movimento de subir a bermuda e dobrar os joelhos para ficar na altura de Lua Madeira.
– Sim e não – ela responde, o que não quer dizer muita coisa.
O próprio Ruas tem dificuldade de seguir a ordem dos acontecimentos. Lembra de estar comendo Lua Madeira na Capela do Pobre Diabo, das estocadas deliciosas em seu cuzinho apertado, das luzes da viatura disfarçadas pelo vermelho fresco na parede do altar e dos policiais, que já haviam detido a outra metade do Coletivo Amargo, prestes a encontrá-los. Lembra também de Lua Madeira se descolar da cópula rápida como uma mosca e, num movimento que lembrava a ele o estender de um lençol sobre a cama, girar seus braços sobre os dois, cobrindo-os, talvez, com uma capa de invisibilidade, ou assim parecia.
– E onde a gente tá exatamente? – ele pergunta, fechando o zíper.
– Na minha Caverna Primordial – responde Lua Madeira.
– Mas se acabar assim… – pondera a Primeira Voz, a dúvida registrada nos ecos da igreja como se tivesse reticências
– E eles? – pergunta Ruas, apontando para todas as direções do nada, de onde as vozes vêm.
– Esses aí são novidade – responde Lua Madeira, puxando Ruas para perto de si.
Ele deita a contragosto, seu corpo grande transmitindo ondas de tensão que só ela via subir como fumaça. Ruas então puxa o pé direito de Lua Madeira para perto de seu pé esquerdo, num movimento que tem algo de autômato e algo de carinhoso. A dúvida entre um e outro a atrai e repele em igual medida. Quer esmurrá-lo, jogá-lo no fogo. Ficar ali para sempre.
– Certo, certo. E agora, o que a gente faz? – pergunta Ruas, como se a posição adotada demarcasse o início de um grande plano.
– Nada.
– Eu gostaria que a narrativa saísse desse círculo vicioso de casal cis hétero entre vinte e quarenta anos, essa coisa repetitiva! – o incômodo da Segunda Voz é nítido por conta de como as chamas tremem ao redor de Lua Madeira e Ruas, que desvia dos braços do fogo, assustado – Há todo um potencial nessas margens, por que não deslocar a história para lá? A travesti e o rapaz negro…
– Como assim, nada? – retruca Ruas.
– A gente pode transar de novo. Quer?
– Agora?
– Não tenho nada contra – insiste Lua Madeira, fechando os olhos e abrindo um sorrisinho safado nada convincente – Posso pelo menos roçar meu grelo na tua barriga?
– Eles têm nome, sabia? – relembra a Terceira Voz – A Sorria e o Mutirão. Como você fala, parece que o fato de eles serem minorias se sobrepõe a tudo! Não que isso não demarque especificidades, mas o desenrolar da ação precisa…
– Tu quer mesmo transar ouvindo isso? – retruca Ruas, levantando-se bruscamente.
– E tem mais – continuou a Terceira Voz – o Mutirão é afro ribeirinho e o Ruas talvez não seja hétero. E no final das contas: o quanto vamos permitir que isso se sobreponha à narrativa? Vamos incorrer no potencial de determinismo sob o risco de nos tornarmos previsíveis e desnecessários?
– Jamais, jamais! – repetem as demais vozes em uníssono – Nossa função é sermos imprevisíveis!
– E incompreensíveis, acima de tudo – complementa a Terceira Voz.
Lua Madeira não tenta puxar Ruas de volta para o chão. Deixa-o como está, em pé, descabelado, calculando como atravessar as chamas em um pulo, o que lhe parece impossível. Um de seus cadarços está desamarrado e é o suficiente para ele parecer a pessoa mais idiota do mundo. Seria tão fácil empurrá-lo no fogo, destituí-lo de qualquer espaço na sua Caverna Primordial, desfeito na escuridão. Mas por causa daqueles cadarços, ela simplesmente não consegue.
E assim as vozes continuam o debate. A caverna parece um pulmão que se comprime e expande ao movimento iluminado. Ruas amarra os cadarços, cansa e senta, permitindo que Lua Madeira se aninhe entre suas pernas longas e pálidas, a bunda forçando-o a abrir-se mais para recebê-la ali.
– Escuta…– ela começa, passando os dedos da mão direita lentamente no fogo, sem se queimar, e a mão direta nos cabelos dele – Final, meio, começo, é tudo a mesma coisa. Eles que decidem. Deixa eles fazerem o trabalho deles.
– Talvez nem eles sejam o mais importante aqui – retoma a Primeira Voz.
– Ah, pronto! – revida a Segunda Voz – Se for para esvaziar tudo dos recortes de raça, classe e gênero, então é melhor nem…
– Chega! – irrompe a Quarta Voz, as chamas subindo tanto que a caverna toda vira um clarão, contra o qual Lua Madeira tenta proteger Ruas com as mãos espalmadas sobre ele – O que vai acontecer é o seguinte:
Conta a Quarta Voz:
As luzes se direcionam à entrada do palco, que nada mais é que uma lona em xadrez preto e branco muito bem afixada no chão da Capela do Pobre Diabo. ET El Vynah, flutuando a meio metro do chão, comanda o mini baile. Sua longa túnica azul emana uma luz própria, dando a ela a aparência de fogo fátuo. O estrobo revela as caras e bocas multicoloridas do público, que se organiza, apertado, no entorno. Dentre eles, há figuras conhecidas: policiais, o governador do Estado, a indígena que segurava uma granada na empena, além de alguns Josés mortos-vivos. Sobre eles, um letreiro coberto de glitter vermelho, acima do altar: Baile do Juízo Final.
A primeira categoria é cura pelas mãos, anuncia Et El Vynah. Mutirão entra no palco em vestes negras, um quipá e tefilin. Ele caminha até o final da lona xadrez, performando uma masculinidade rígida que solta suspiros das afeminadas na plateia e elogios discretos dos policiais, que fazem ver suas tatuagens de Estrela de David no muque. É quando o Amargo dá uma pirueta, surpreendendo a todos com a transfiguração do terno negro em outro, branco e vermelho.
Dedos estalam num frenesi de aplausos viados, enquanto batidas de leques ressoam até o infinito, sobrepujando os gritos de desgosto dos gambés. Mutirão dirige-se a eles, segura o quipá com a ponta dos dedos e, como que os cumprimentando, retira o acessório da cabeça e revela, em seu lugar, um chapéu nas cores do terno. Já o tefilin se desenrola do braço e vai se solidificando numa bengala.
A luz desloca-se para as juradas, que percebemos ser Sorria, Arcana, Demi e Silvina. Elas deliberam sobre qual nota dar a Mutirão, que opta por uma última pirueta, transformando o terno branco e vermelho em um amontoado de pedrinhas a seus pés. O tronco do jovem se revela, repleto de grafismos indígenas em jenipapo e cicatrizes de cortes. A calça branca agora é uma bermuda de tactel desbotada, e nas mãos ele tem nada menos que um terçado. Na sua forma final de Caboclo Galeroso do Apocalipse, Mutirão decepa a cabeça dos policiais da plateia, dando um banho de sangue nas juradas, que enfim levantam as placas com suas notas: 10, 10, 10, 10. É hora da próxima categoria.
– É uma solução satisfatória? – pergunta a Quarta Voz às demais.
Ruas olha para a escuridão da Caverna Primordial com as pupilas dilatadas ao máximo, posto que as chamas agora são tão fracas e calmas que ele mal precisaria levantar os pés para sair do anel de fogo. Lua Madeira pressente essa intenção e o segura pela cintura, ignorando a presença de Mutirão junto a eles. Ainda de terçado em punho, o rapaz aproveita a vista da prima seminua, vestida apenas com a maia arrastão rasgada.
– Pois bem – diz a Segunda Voz, impedindo que o fogo se torne brasa fria.
Interlúdio da Segunda Voz
Explicamos a dinâmica e atingimos um ápice inesperado com a performance do Caboclo Galeroso do Apocalipse. Agora precisamos de algo intermediário. Para isso ET El Vynah decretará: a categoria é… Personalidade, não criatividade! Pode um homem branco oferecer pelo menos isso a este público? Vamos descobrir! Ruas, o palco é seu!
E o que Ruas fará é o seguinte: ele caminhará até o centro da capela, vestido de Homem-Aranha e segurando uma caixa de sapatos surrada. Ele abrirá a caixa e tirará dela uma lata de tinta, e depois outra, e mais outra, e outra ainda. Tirará pincéis, rolos de tipos diversos, uma edição em espanhol do Principia Discórdia, extensores, lonas de plástico, espátulas, desempenadeiras, uma sacola do Carrefour com fezes humanas, lixas, um cavalo e um boi, uma luminária pendular, bandejas, sprays e um avental. Ele então usará suas teias do Aranha, reflexos sobre-humanos e outros poderes para se mover por toda a capela, por cima e por baixo, num balé de acrobacias que, com velocidade impressionante, revelará uma total transformação do espaço.
A meia luz colorida do estrobo se congela, dura e fria. A capela se tornou preta e branca, desfigurando-se em ângulos retos e distorcidos. O público, também imóvel, está agora pintado de preto e branco, incluindo os policiais decapitados, o cavalo e o boi. Os únicos pontos de cor estão no centro da capela, onde jazem as fezes e, sobre elas, o Principia Discordia aberto numa página onde se lê:
O HINO DE BATALHA DA ÉRISTOCRACIA, por Ibrahim Cesar
VERSO
Meu cérebro medita nos ciclos do CAO
E é como sentar-se bem na mesa onde os Chefões
Se reúnem para debater onde jogar a bomba!
Nossa Maçã Dourada é a onda!
CORO
Grande (e gloriosa) velha Discórdja!
Grande (e gloriosa) velha Discórdja!
Grande (e gloriosa) velha Discórdja!
Nossa Maçã Dourada é a onda!
VERSO
Ela não foi convidada para a festa deles no Olimpo,
Então jogou uma Maçã Dourada com intrigante inscrição
Criando a mais lendária confusão!
Nossa Maçã Dourada é a onda!
A única jurada que não ficou congelada no quadro é Sorria. Porém, ela também está em preto e branco, e tenta tirar de suas roupas a espessa camada das tintas como se sacudisse pó de um tapete.
– Égua, que esse bicho é muito cavalo! – berra Sorria, tocando na peruca e constatando que ela já era – Precisava dessa ignorância toda?
– Ela disse “Personalidade, não criatividade”! – responde Ruas, apontando para ET El Vynah, que agora tem a aparência de uma bola de tinta branca flutuando ao canto da capela.
Ele abre a caixa de sapatos e começa a tirar dela materiais de limpeza: panos, thinner, água, baldes, sabão, sabonetinhos da Granado. Entrega alguns itens a Sorria. A dupla então inicia a limpeza de ET El Vynah com cuidado, começando pelas pernas e braços, cabelos e unhas dos pés. Aos poucos, sua luz de fogo-fátuo reaparece e seus movimentos vão sendo liberados da intervenção. Os demais não têm a mesma sorte.
– A nota – murmura ET El Vynah.
– O que, mamãe? – pergunta Sorria.
– Qual a nota dele? – completa a matriarca.
– Ai, um sete, né?
– Agora é minha vez, minha vez! – pede a Primeira Voz.
Desintegração Express:
Para Lua Madeira, o mais importante é ir até o fim. Só que para ela, final, meio, começo, é tudo a mesma coisa. Percebe a contradição?
– Vamo ver se é mesmo tudo a mesma coisa então nessa buceta – provoca Lua Madeira.
Ruas, Sorria, Mutirão, o público petrificado, todos desapareceram. Também não há mais palco, nem luzes, nem capela, nem Caverna Primordial. Apenas o espaço sideral para onde converge a suave luz de ET El Vynah, que com a ponta do indicador reacende o anel de fogo ao redor de Lua Madeira com uma chama azul.
– A categoria é: Desintegração Express – decreta.
Lua Madeira, usando nada além de um enorme laço de veludo azul segurando metade dos cabelos no topo da cabeça, puxa a ponta da fita devagarzinho. Ela gira como uma bailarina confinada a uma caixa de música, e com a fita cai também toda a sua pele, as pétalas de um presente de Natal. No lugar de carne viva, músculos e ossos, o que surge é outra Lua Madeira, e mais outra, e mais outra, uma sucessão de embalagens de si mesma.
Cada versão de Lua Madeira, incapaz de se mover de outra forma, puxa o laço de veludo azul seguinte do mesmo jeito. Suas embalagens acumulam-se ao seu redor, constituindo um inesperado lixo espacial, e cada uma delas é permeada por uma sensação: tristeza, alegria, desejo, desprezo, calma, raiva, ódio… E em cada Lua Madeira corre o veneno desse pico, uma receita de um ingrediente só cujo sabor é estranhamente confortável, tudo preto no branco, como na Guernica de Ruas. É estranho a ela constatar que tudo estava ali o tempo inteiro, mesclado em camadas que pouco ou nada pareciam com o que ela achava ser ou parecer.
Então chegou a camada que Lua Madeira mais temia. Chegou a vez do amor. Foi só aí que ela conseguiu conter o impulso de deixar suas embalagens caírem. Imobilizada por sua luta interna, ela apenas aguardou ser tomada como um cavalo Megazord, e assim ficou por muitos anos, centenas deles. Mas nada aconteceu. Ela estava absolutamente sozinha, sem seus espíritos, visões e camadas anteriores, como uma receita de bolo gravada no VHS rolando num videocassete que travou no meio do Rewind, apenas as longínquas supernovas estourando num silêncio desanimador. Depois de cerca de oitocentos anos, Lua Madeira enfim suspirou.
– O que te parece? – perguntou ET El Vynah.
– A vida sem amor é um tédio do caralho – respondeu Lua Madeira.
ET El Vynah deu de ombros.
– É uma forma de ver as coisas.
– Acho que é a minha vez de jogar as tartarugas na piscina.
E foi assim que Lua Madeira puxou o laço de veludo azul do amor. Ao invés de uma nova versão de si, surgiu do topo de sua cabeça um torso grande demais, que aos poucos tomou sua cabeça inteira. Brotaram dele braços e dedos e lábios e unhas, e quando ela menos percebeu, havia um corpo inteiro anexo ao seu corpo. Lua Madeira tentou se espremer num canto antes que o corpo a regurgitasse, mas não há cantos no espaço. Ela então aceitou o inevitável: iria implodir como uma supernova enquanto o videocassete reacionava o Rewind.
– E agora, o final – pontua a Terceira Voz.
E agora, o final:
São dez e quinze da manhã. É um dezembro de chuvas abundantes, por isso o frescor incomum no ar da manhã, que intensifica o cheiro de asfalto novo. Batidas na porta, ininterruptas, distorcem o canto dos passarinhos e as risadas das crianças que brincam nas redondezas. Lua Madeira, muito sonolenta, abre o trinco e espia o visitante inesperado, que escancara a porta. É Ruas.
Ele a toma num abraço pegajoso, com cheiro de tinta. O abraço não termina nunca e faz o pescoço de Lua Madeira doer, por conta da diferença de altura entre os dois. Encabulada, ela busca algum alívio, espichando-se. É quando vê Sorria e Mutirão no segundo plano dos ombros de Ruas, sentados no interior da picape. O sono e o estranho calor do abraço, não pelo toque, mas pelo gesto, deixam-na tonta, e demora alguns segundos até que Lua Madeira perceba que tem algo de errado com o Lírio do Vale. Muito errado.
A rua onde mora, a Ubaira, não apenas tem asfalto novo, mas também foi alargada. Calçadas amplas seguem o trajeto a perder de vista. As casas, incluindo o conjunto de quitinetes onde vive, estão devidamente pintadas em cores diversas que, no entanto, complementam-se, numa unidade visual perturbadora. Tão aterrador quanto é constatar que as crianças que brincam nas ruas estão todas calçadas e as que andam de bicicleta todas têm capacetes, joelheiras e demais equipamentos de segurança. Um cachorro avança entre elas, soltou-se da guia. É um labrador, e o dono logo aparece, rindo com os pequenos dos gracejos do animal. Mais adiante, o grupinho de adolescentes não vende droga e nem aguarda alguém para assaltar. Eles apenas esperam o ônibus, que passa em questão de segundos. Um ônibus novo, com ar-condicionado. Os garotos saúdam o motorista, que acena a eles e lança um sorriso, e assim seguem viagem. O bairro está do avesso.
– Puta que pariu! – grita Lua Madeira, afundando o rosto no peito de Ruas, assustada demais para voltar os olhos para sua comunidade reconfigurada.
– E não é só aqui – fala Mutirão, tirando o boné como quem dá condolências – Eles esculhambaram a cidade inteira.
Lágrimas gordas caem dos olhos de Lua Madeira. Lágrimas de gente, não de cavalo, ela pensa, e não sabe o que fazer com isso. Por isso deixa Ruas levá-la para a picape, a mão dele na dela, uma entrega de outra forma, mais assustadora que se deixar tomar por vozes e garrafadas. Ruas tira a cobertura da carroceria na traseira do veículo, revelando uma profusão de explosivos, tantos que mal há espaço para qualquer outra coisa. Delmo, no entanto, acomodou-se entre elas, quieto e alerta.– Vem – diz Ruas, enxugando suas lágrimas e carregando-a para a carroceria, subindo em seguida. Ele se espreme ao lado de Lua Madeira, passando um dos braços por seu ombro e, com o outro, batendo na lateral do veículo, ordenando a partida. Delmo se enrosca entre as pernas dos dois, e Ruas o acarinha, para espanto de Lua Madeira, que se transforma num sorriso gigante – Vamo mostrar pro David Cronenberg como é que se faz.
