Mércia, Berenice, Berta e a enfermeira

por Américo Paim

A porta se abriu e hesitei. Goleiro na hora do pênalti: ficar parado até o último instante ou escolher o canto? Vinte e cinco andares até o térreo. Viagem demorada. Para um sábado à noite de fevereiro, pouco movimento no prédio. São oito apartamentos por andar, mas quais as chances de encontrar apenas uma pessoa no elevador? E de ser alguém conhecido? E de ser ela? Por que ela, véi?

Essa tempestade mental durou até a porta se mover para fechar. Bloqueei com meu antebraço e aquilo a aborreceu. Esbocei um sorriso amarelo, ameacei cumprimentá-la apenas com um inclinar de cabeça, só que saiu um “boa noite”. Ela me devolveu um breve fechar de olhos, o leve giro de rosto, acompanhado de um torcer de boca equivalente a um muxoxo. Sua receita de tédio. Véi, foi mais que isso: irritação. Sua intolerância comigo era previsível. Poderia ter ficado quieto no meu canto. Boca fechada não entra mosca, mas quis quebrar o gelo palpável, ser gentil após atrasar o elevador com minha indecisão, mostrar que reconheço meus erros e tal e coisa.

– Tudo bem, Mércia?

Ela só balançou a cabeça. O que eu deveria ter feito, segundos atrás. Para que falar, idiota? Desde o término turbulento ela recusou todas as minhas tentativas de conversa. Tem seus motivos, admito, mas eu queria explicar. Não custava nada, somos civilizados, um alívio, aliás. Poderia ter sido um barraco dos infernos. Enfim, estávamos de boa. Ou eu achava isso. Calado já estava errado, porém, insisti, desprezando a oportunidade do silêncio. Ela tava bonita, vestido azul escuro, maquiagem leve, cabelo solto, como eu gostava e a pele bronzeada.

– Você mudou o cabelo. Ficou bonito…

Ignorado. Ela estava na cara do gol, sem goleiro e eu dei o passe. Se houvesse música ambiente, seria uma do Rappa, “O silêncio que precede o esporro”. Me falou olho no olho.

– Tá sem mocreia hoje?

O sujeito indeterminado me incomodou. Nem sei se foi a intenção. Ela nunca foi um primor na língua pátria, agora em acidez… Nenhum músculo da sua face se moveu. Tudo calculado, mas nada frio. Eu sabia que era só a água recuando na praia antes do tsunami. Eu poderia dissimular, só que seria um insulto. Ela nunca foi burra.

– Repare, essa agressividade é desnecessária. A gente podia conversar e…

– Sabadão sem puta? Que decadência…

– Calma, Mercinha…

O diminutivo foi inoportuno. Ela descruzou os braços e franziu a sobrancelha. No instinto fiz a base e contraí os meus, esperando uma broca. Já tinha acontecido no maldito dia, apesar de reconhecer que mereci a lapada naquela ocasião, vacilo da porra. Ela era uma granada de mão e eu tava pelo tempo do dispositivo. Ela sacudiu o cabelo, inclinou a cabeça para trás, arregalou os olhos e a voz explodiu no cubículo.

– Você é um filho da puta, Irineu! Um pedaço de merda! Me traiu com aquela…

A frase prometia, mas acabou em um grito agudo, insano. Achei a interrupção parte do pacote de raiva acumulada, porém, a expressão foi de pavor. Gritou uma segunda vez e jogou o corpo contra a parede espelhada. Levantou a coxa direita, fechando contra a outra perna. Recuei, preventivo. Seria um golpe de caratê? Veio um terceiro grito. Eu já pensei que estava armada ou coisa assim. Aquele descontrole estava demais. Apontando para a parede atrás de mim, ela gaguejou:

– Uma barata! Meu Deus, uma barata aqui dentro! Faça alguma coisa, desgraça!

Me virei e fitei o brinquedo assassino. Nunca tive medo de barata, mas aquilo era um dinossauro. Parecia um besourão. Malhada, crocante, toda lustrosa. E cheirava forte, meu nariz nunca falhou. Ela sacudia as antenas. Sem entender a língua das cucarachas, apostei que ela estava rindo. E era da situação. Pelo tamanho da criança, teríamos problemas. Mércia gritava histérica para eu matar. Só com um trezoitão porque na porrada tava mais fácil a criatura acabar comigo, tal o tamanho. Ela se moveu devagar, escalando a parede, tranquila, dominante. Novo grito tresloucado. Eu ali no meio, dividido entre a hiena aguda e cascuda poderosa.

– Mata, mata!

– Peraê, calma.

– Se fosse uma de suas vadias cê já tinha resolvido saporra!

E gritava. Eu nunca havia passado por aquilo. Se eu matasse aquela harpia, teria um perdão? Ainda processava o que fazer, quando Murphy deu as caras. O elevador parou. O led mostrava que estávamos entre o 14º e o 13º. Ainda dizem que treze dá sorte… aí sim, ela gritou bonito e apertou a Prada contra os belos peitos. Deu até uma saudade daquela região ali, mas, foquei em Berta, que aproveitou para subir mais uns centímetros. Sim, eu a batizei. Achei “Berta” simpático. Toda aquela serenidade ali, diante dos frágeis humanos. Já foi subindo um calor. A ventoinha parou de funcionar.

– Calma, Mercinha. Vamos manter o equilíbrio.

– Mata essa puta! Mata!

Agora, além de barata, Berta também era puta. Que situação. A criatura até então se mantinha observadora, movendo antenas e pernas de forma preguiçosa, ou estudada talvez, mas tudo pode piorar. Ela decolou. Não quis se mostrar demais. Foi um voo rápido, de reconhecimento, de parede a parede, pousando a uns trinta centímetros da gralha gritadora, que mostrou agilidade e voou sem asas na minha direção. Eu a recebi de braços abertos. Não vou mentir que foi gostoso o amasso imprevisto, sentir aquele perfume de novo. Fechei até os olhos de prazer. Quando abri, permaneceu a escuridão – a luz do elevador tinha apagado. Numa escala dos berros de Mércia, aquele fez os outros parecerem sussurros românticos. Foi tão alto que abafou o meu próprio, respondendo ao aperto que ganhei no conjunto pau e saco. Sim, ela se segurou ali, descarregando medo e raiva. Pense numa dor, amigo.

– Cadê ela, cadê ela?

– Calma, não dá pra saber. Tá tudo escuro.

– Porra, cê num serve nem pra matar barata!

– Nem deu tempo, tenha paciência.

– Covarde!

– Oxe, quem tá gritando de medo aqui?

– Acha ela!

– OK, ok, mas dá para soltar meu saco? Tá quase fazendo omelete…

Ela largou. Nem um pedido de desculpas. Tentei acostumar a vista. Não dava pra ver nada. Um breu. A luz do led ainda acesa, então o problema era na lâmpada mesmo. O ar circulava, calorento. De repente, ela me largou num pulo.

– Cê sentiu? Ela passou voando aqui! Mata ela, mata ela!

– Onde tá? Não enxergo nada.

– Tá ali, ali!

Era só desespero. Propus nos sentarmos no chão e ela negou, enfática. Alegou que era onde elas gostavam mais. Eu discordei. Berta parecia ser fina, elegante, uma barata classuda, essa é a verdade. Ela voltou a grudar em mim, puxando minha camisa com força. Eu já tava querendo aproveitar a circunstância, não vou mentir, mas me controlei. E ainda tinha a câmera, né? Será que filmava no escuro? Não podia dar bobeira. Fiz um comentário aleatório, que não ajudou em nada.

– Bem que podia ter parado em um andar e não no meio de dois.

– Por quê?

– Podia forçar a porta e aí a gente descia pela escada de emergência.

– Sua especialidade, né? Seu puteiro preferido…

– Peraê…

– Tá com saudade? Tá levando muitas pra lá? Ou foi só a cadelaça da Berenice?

Entornei a merda… Agora tínhamos novo foco. Não sei o que foi pior naquele dia. Berenice ser amiga dela ou não ter concluído a putaria. Não deu tempo. Ainda acho que alguém dedurou, na moral. Ela disse que foi acaso. Porra nenhuma. Naquele horário, três andares abaixo do dela? Me faça uma garapa… Deve ter sido porque eu já tinha tentado com Mércia na escada e ela não quis. Apareceu lá por arrependimento de não ter rolado? Essa minha tara por lugares públicos é complicada mesmo. Ela começou uma lista de impropérios, acho que até esquecida de Berta.

– Você é imundo! Mentiroso, descarado, corno!

– Epa, peraê. Corno?

– Babaca do pau pequeno!

– Corno? Como?

– Otário, cínico.

– Sim, mas e essa cornitude aí?

– Cê é feio, desengonçado, chato pra caralho.

Como assim corno? Tá blefando. Aí também não economizei: mimada, fresca, enjoada, entre outros mais agressivos. Na hora que emendei um “nem sabe trepar”, veio o tapa que eu recebi cheio, guarda baixa que estava. O barulho coincidiu com a volta da energia e o solavanco do elevador. Quando a luz acendeu, eu estava de costas para o espelho, bem perto dela, que recuou um passo. Olhando sobre meu ombro, esbugalhada, soltou um grito derradeiro. Só deu tempo de sentir o ventinho deslocado por Berta, que passou junto à minha orelha em voo preciso e aterrissou dentro da boca ainda aberta de Mércia. Cheguei a ver as patinhas traseiras sumindo na mordida involuntária, último ato antes do desmaio.

Fui vê-la no hospital, na emergência. Fez uma lavagem e ficou bem. Ficou lá mais um dia por causa do ataque de nervos. Assim que me viu, xingou um rosário. Havia uma bela enfermeira, que pediu que me retirasse, piscando um olho. Não desperdicei. Nos encontraríamos minutos depois, na escada de emergência. Foram só uns amassos, com promessa de continuarmos em local mais discreto.

Voltando para casa, lembrei que na minha lista de insultos no elevador eu poderia ter falado do mau hálito de Mércia. Pobre Berta. Que morte terrível…

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