Solidão com vista pro mar (Carol Schettini)
“Ainda bem que você não trouxe as crianças”. Assim fui recepcionada pela esposa do Willian, amigo do meu marido. A segunda coisa que ela me disse foi que tomava um drink por dia e estava preparando clericot, “jarra porque ninguém merece brigar por pedacinhos de morango”. Fomos juntas até a cozinha americana, ela passou para trás do balcão e antes de eu me sentar em uma banqueta alta, me contou que achava crianças barulhentas e não via necessidade em ter um filho, a menos que fosse um filho com objetivo, como quem tem filho para doar uma parte do corpo a outro por doença grave. “Aí o tal filho seria suportável, uma ação com valorização de mais de cem por cento”. Não entendo de ações, mas de sangria, o parente tinto do clericot, sei bem e poderia dar palpites na bebida.
Reparei em volta, tudo branco ou inox. Se fechasse meus olhos e abrisse sem prestar atenção, poderia jurar estar num necrotério ou em algum canto limpo bem limpo de hospital. Minha anfitriã aparentava ser nova, ou melhor, mais nova do que eu. Poderia ter entre trinta ou quarenta anos. Eu estou com quarenta e quatro, mas desisti de pintar os cabelos e talvez por conviver com avós europeus não me preocupe com rugas ou pele caindo como dobras em linho depois de dois minutos vestido no corpo. Com certeza, ela tinha mais de trinta, dava para ver a boca um pouco inchada, não acredito que moça jovem esteja aumentando os lábios a troco de nada. Apesar de confessar o pecado do drink diário, duvido que ela comesse qualquer coisa, magra, muito magra. A voz grossa, parecendo locutora de futebol, denunciava um chip implantado em algum lugar do corpo. De todo jeito, simpática, falava bastante, gesticulava com as mãos, enfatizava palavras.
Logo que me acomodei, me serviu uma taça, “uma tacinha” de champanhe para podermos bater um papinho enquanto ela escolhia e cortava as frutas. “Você é advogada, não é?” Confirmei. “Você trabalha com inventário?” Estranhei a pergunta. Perguntei a ela se ela estava esperando receber uma herança. “Não, nada disso. Meu pai morreu tem tempo e minha mãe só me deixaria dívidas e desgosto.” Ela olha para cima e continua, sem alterar o timbre de voz. “Pensei, assim, se o Willian falecesse”. Willian, seu marido. “Eu não penso em matá-lo, nada disso. Apesar de saber como é fácil matar alguém né, alguém não, uma pessoa que durma ao seu lado. Minha amiga me ensinou: basta jogar um fiozinho de azeite na orelha e ele tem um enfarto ou avc ou algo parecido depois só limpar, ninguém desconfia, uma bobagem, gosto mesmo do Willian, ele é mão aberta, o oposto do pai dele”.
Com uma faca fina, serrilhada, afiada para cortar e não rasgar a pele das frutas, ela começa a filetar os morangos tão finos quase em folhas transparentes. Antes de eu palpitar sobre os morangos em quadrado ficariam melhor na bebida ou perguntasse mais sobre o azeite, se frio, se quente, e se a pessoa acordar?, detalhes pequenos, ela continua. “O pai do Willian, seu Ciro era o verdadeiro muquirana. A gente morava mal, no subúrbio, só compramos o apartamento depois que ele morreu, acredita?”
Não sei da vida deles, sabia um pouco o que meu marido me contou, Willian comandava uma firma importante, negócio de família, ramo de importação e exportação. “Willian precisava viajar direto a trabalho e comprava passagem para se sentar no fundo do avião, bem no fundo”. Ela me estende um pedacinho de abacaxi, cortado em cubinho, dá pena morder. “Silvio Santos também achava desperdício pagar por uma executiva”, digo a ela. Não sei de qual site de fofocas tirei a informação. Ela me ignora e continua a lamúria sobre o sogro muquirana. “O seu Ciro nem adoecer podia. Pagava um convênio dos mais vagabundos, não aceitava em lugar algum. E pagava porque era obrigado ter alguma coisa para os funcionários na firma. Por ele, não gastava um tostão com a saúde.”
Ela serve mais champanhe para mim e para ela, acrescenta um pouquinho de suco de laranja, “mimosa”, diz e pisca. “Um dia, coitado, passou mal”, bebe um gole, dá um tapinha na minha mão, “foi um sufoco conseguir vaga em hospital credenciado. Quando estava instalado, vendo que o negócio não ia bem, pediu pra eu dar uma pesquisada em médicos. Pensei que ele se interessaria por médico de político, Dr. Kalil, sai na Ana Maria Braga, todo mundo conhece. Só atendia particular, dois mil a consulta. Quando falei com o seu Ciro, disse estar se sentindo melhor. Ele preferiu ser tratado por residentes, sendo encharcado de soro, litros e litros de soro”.
Eu devia estar com cara de interessada, ela tomou um longo gole da taça e continuou. “O quarto era compartilhado. Ele tinha direito a um quarto para ele sozinho, sabe?, mas não tinha vaga. Por sorte, ninguém do outro lado da cortina. Ele não aceitaria acompanhante estranho. Ia ser uma quizumba. E pão duro, não ia querer pagar por privacidade. De noite, ficava Willian; de dia, ficava eu. O Willian tem uma irmã, brigada com a família e não quis ajudar. Disse que não podia.” Ela faz uma careta colocando os lábios grossos para cima, quase os encostando na porta do nariz. “Não sei o motivo. Willian nunca me falou e ela não me cumprimentou nem no funeral”. Ele morreu, então, eu comentei. Ela confirmou, “uma longa história”.
Perguntou se eu queria comer alguma coisa enquanto conversávamos. Aceitei e ela buscou na geladeira mini cenouras e mini aspargos. Umas torradinhas. “Tirando isso, o seu Ciro era um homem tão agradável, gentil, todo o tempo que estou com Willian nunca implicou comigo, nem por eu ter vindo de família pobre, nem por eu ter estudado pouco. Ele falava ‘menina, vai estudar'” Willian chama por ela, ela não escuta, abaixa a cabeça, parece que vai chorar. “Seu Ciro me distraía. Animado, fazia dancinhas. Quando foi pro hospital, ladeira abaixo. Ficava lá deitado sem nem conversar. Parecia apegado ao mundo. Economiza palavras com medo de gastar no final.”
Willian chama de novo, ela acena e corta laranjas previamente descascadas. “Para seu Ciro respirar melhor colocaram nele uma máscara, fazia um barulhinho, apitava de dentro da sanfona que levava o ar no seu rosto. Assim ó” Ela faz um biquinho e diz um piiiiiiiiiiiii bem agudo. “Seu Ciro não escutava. Na verdade, escutava nada e não usava aparelho. Via televisão no 53! Ô barulhinho irritante. De vez em quando, aparecia uma enfermeira e apertava a rosca do cano ou soltava. O apito aumentava, se ela soltasse a mangueira ou diminuía, se ela acertasse com força, como um vazamento de gás de cozinha, sabe como é?” Eu não sabia porque gás dá cheiro e não faz barulho, talvez uma outra mangueiral, ela insistiu, concordei por concordar. Ela termina com as frutas, coloca tudo em duas jarras e mistura colocando em seguida gelos redondos. Chiques, chiques.
Coloca uma pedrinha de gelo na boca. “O seu Ciro podia ficar bem uns dez minutos ou mais com a mangueirinha desligada, eu reparei bem. Então, dava uma tossidinha e precisava ligar de novo. A enfermeira sempre desligava quando vinha no quarto fazer alguma coisa. A malandra não aguentava o apito e nem tava aí pro acompanhante ouvir o barulho o dia todo. Ao desligar, uma paz. Nem um zunido, nada. Na hora do remédio, vinha a enfermeira, desligava, trocava o soro e tal, ao sair, ligava o ar de novo. Uma rotina. Seu Ciro ali divando, eu cansada, com enxaqueca, não suportava mais aquele apito fininho, uma tortura, um segundo a mais ia enlouquecer. Pensei em me separar do Willian por causa do apito!” Willian chama uma terceira vez, ela joga beijinhos para ele, abre mais uma garrafa de champanhe e despeja na jarra”
“Mais de uma semana ouvindo o apitinho o tempo todo. Precisava resolver de algum jeito. Dei uma atarrachadinha no cano e marquei na mente o tempo pra ligar de novo, dez minutos, nove minutos e meio para ser exata. O problema foi esquecer de colocar o celular pra apitar. Naveguei na rede social, joguei candy crush, sudoku, distraí. O seu Ciro não podia ter tossido, puxado meu braço, podia ter feito um barulhinho de canário? Fez nada. Quando dei por mim, ele dormia de verdade.” Ela balança a cabeça e olha pro lado, falando para ninguém. “Às vezes, tudo que a gente precisa na vida é dar uma descansadinha.”
Sai do transe filosófico, olha para mim e termina o assunto. “Dei um beijo na testa dele, abri um pouquinho a válvula, ouvi o apitinho, chamei a enfermeira. Agora estou aqui neste apartamento solidão com vista pro mar”. Ela passa a costa da mão na teta, dá uma respirada funda, ombros para cima, para baixo. Pega duas latas de água tônica, coloca na frente do meu rosto. “Acha melhor uma lata por jarra ou duas?” Eu não soube opinar.
