TEM ALGUÉM AÍ?

Roberto Efrem Filho

Nu e molhado de suor, Otávio acorda. A boca amarga e o estômago se contorce antes mesmo de ele perceber que não sabe onde está. Otávio estranha primeiro o vaso a que se abraça, a cabeça enfiada na privada, a bile escalando a garganta. Então se dá conta, este não é o ladrilho do banheiro da velha pensão em que mora, no subúrbio do Recife. Aquele não é o pequeno quarto para rapazes solteiros de boa família cujo aluguel sua avó paga mensalmente, comprometendo boa parte de sua aposentadoria de trabalhadora rural, muito orgulhosa do seu único neto, cursista do técnico em eletromecânica. “Caralho, porra de casa é essa, mermão?” Otávio molha e molha o rosto, enxagua a boca, esfrega os olhos contra a vista embaçada diante do espelho. Os seus vinte anos estão ali, no reflexo emoldurado em madeira nobre posta sobre o balcão de mármore carrara branco da pia. Vinte anos intactos, ele procura alguma marca visível no corpo, não encontra. Não há cicatriz. Somente a respiração sofre, encurta. “Calma, cacete, tá tudo certo”.

Otávio atravessa a porta em direção ao quarto. Ali está a cama de que se arrastou para vomitar. É um móvel maciço, pesado, coberto com o lençol fino que seu corpo desalinhou. Ocupa um terço do cômodo, ladeada por duas mesinhas de cabeceira que sustentam abajures de porcelana. Otávio então enxerga a cômoda que se impõe do outro lado da cama, rivalizando com ela. Sobre seu tampo e suas seis gavetas, há quatro porta-retratos em prata de lei. Otávio se aproxima. No maior deles, uma família trajada para a fotografia. De pé, o homem enverga um terno listrado e a mulher um vestido florido. As três crianças sentadinhas quase repetem as roupas dos pais. O rapazinho veste um terno em miniatura. A mocinha estampa as tulipas da mãe. O menino pequeno foi poupado e, de bermuda e camisa ensacada, segura os suspensórios. As outras três fotografias são dos filhos, um a um, iguaizinhos à da família completa. Otávio procura alguma familiaridade naquelas cinco pessoas em preto e branco. Insiste, duvida, não encontra. Acha na ponta dos dedos uma leve camada de poeira que se expande dos porta-retratos às mesinhas de cabeceira e escurece a planta dos seus pés descalços.

Quando desiste de interpelar, em busca de reconhecimento, os rostos nas quatro fotografias sobre a cômoda, Otávio nota a quartinha no aparador, embaixo da janela. É uma quartinha de barro como a que sua avó mantém no balcão da cozinha de casa. Enquanto entorna a água fria para dentro de si, ele pensa que nunca lhe ocorreu algo assim. Pelo contrário, sempre se orgulhou da austeridade dos seus gestos, do seu autocontrole. Otávio frequenta a noite desde que migrou de Timbaúba para estudar na capital, faz dois anos. Como quem furta, tornou-se habitué do baixo-meretrício recifense. Conhece-o com a disciplina que jamais foi capaz de dedicar à escola técnica ou às aulas de eletricidade I. Estudou empiricamente o ecossistema decadente dos bares e cabarés. Sabe em detalhes como se alimenta, reproduz-se e morre, combalida e suja, a sua fauna. Junto a seus colegas de ofício, é comum que Otávio se regozije da ciência que desenvolveu naquele ambiente, tanto quanto dos princípios éticos que elegeu no trato com sua clientela.

“Meu velho, nunca beije na boca. Nunca dê o cu, compreendeu? Se saia. Dê seu jeito. Por mais que o cara peça, por mais que o cara pague, no máximo você promete. Deixa ele roçar e tal. Nada de cabecinha, certo? O frango que tu come hoje pode pagar o dobro, o triplo amanhã. É tipo investimento, tá entendendo? Tu trata o viado com carinho, deixa ele se apaixonar… Véi, tu vai encher teu bolso. É, pô, é sério! Mas bota teu limite. Se ele endoidar, tu desaparece feito foguete, booom. Mas oa, presta atenção: muito cuidado com o que tu toma com os cara. É tua vida, carai. Não dá pra beber tudo, tomar tudo e perder o juízo. Não dá pra confiar”. O código ético de Otávio prescreve a conduta sexual adequada e medidas de segurança necessárias. Na sua lógica, acordar como agora é algo fora de cogitação. Um erro que ele condenaria em qualquer circunstância.

Apoiado nas grades, Otávio enfim descobre que saiu do Recife. É que as copas gordas das mangueiras próximas à janela apenas antecipam o verde do canavial que se estende até se perder de vista. Otávio é íntimo desse verde irrefreável. Seu gosto de infância, o desfrute de sua meninice. O verde doce do melaço de cana que sua avó arranja nas sobras da usina e o entrega sorrindo, na expectativa de vê-lo sorrir, lambuzado. O verde salgado do suor do trabalho de seus avós, metidos no plantio, na queima e no corte, deixando-se moer. O verde azedo que atraiu aquele boia-fria de olhos igualmente verdes para os dezesseis anos de sua mãe, logo emprenhada e mãe solteira, rameira, rameira, rameira, nas voz rouca de seu avô. O verde amargo da cachaça que seu avô incorporou ao dia para enfrentar a cana-de-açúcar e o que restou da vida depois que sua mãe os deixou. Otávio é íntimo desse verde incansável e, ainda hoje, foge dele como criança que se socorre do abandono. “Puta que pariu, que lugar é esse?”.

Otávio corre à porta do quarto. Está trancada. Abre as gavetas das duas mesinhas de cabeceira e da cômoda. Não acha nada além de colchas, lençóis, fronhas e toalhas. Volta à janela e quer gritar. “Eu grito o quê, porra?” Escuta um bem-te-vi no alto do jambeiro. Vê uma família de saguis subindo os galhos da jaqueira. Decide, tímido, o que dizer. “Tem alguém aí? Eu tô preso!”. Repete. “Tem alguém aí? Eu tô preso!”. Insiste, mais alto. “Ei, tem alguém aí? Eu tô preso!”. Perde o pudor. “Socorro! Eu tô preso! Socorro! Socorro!”. Até que, cansado, resigna-se à ausência de resposta. Quem o deixou ali não está perto, não o ouve ou resolveu torturá-lo com o seu silêncio. “Quer saber? Vou tomar um banho nessa merda”.

Otávio pega uma das toalhas brancas na segunda gaveta da cômoda e segue para o banheiro. Gira o registro com cuidado, pretende testá-lo. A água que despenca sobre sua cabeça é pouca, lenta e limpa. Cheira a terra molhada, como a primeira chuva de junho após meses de secura e falta. Otávio sente a água descendo pelo corpo e a persegue com as mãos, dos ombros ao peito, dos braços ao abdômen, da genitália às coxas. Seus pelos se eriçam. No interior do desconhecido, Otávio sente algum prazer. Ali estão os seus 20 anos, na pele parda e molhada, na mão direita que manipula o pênis, na mão esquerda que procura o ânus. É aqui que, oscilando entre o desejo e o medo, Otávio se toca entre as nádegas. Sob o chuveiro, percebe-se diferente, largo, aberto. É aqui que Otávio se assusta e, deixando-se na mão direita, começa a recordar o que houve na noite anterior.   

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