Um beijo não é só um beijo

A mexicana Fernanda Melchor, 42, é uma das mais destacadas escritoras da atual onda hispânica. Apareceu com o impressionante romance Temporada de Furacões (Mundaréu), que narra a descoberta de um cadáver de uma prostituta, a Bruxa, em uma pequena comunidade rural, combinando elementos do suspense policial com uma prosa experimental e vertiginosa, quase fantástica – que lembra bastante o Pedro Páramo de Juan Rulfo. A trama se desenvolve através de múltiplas perspectivas e fluxos de consciência explorando temas como violência, miséria e superstição. O livro vem em uma onda que lida com histórias de feminicídio e violência de gênero, como Garotas Mortas, da argentina Selva Almada. O livro foi finalista do International Booker Prize.

Pensei várias vezes em trazer trechos desse romance aqui mas sua linguagem alucinante, que foge do enredo, deixaria todo mundo passado. Mas apareceu este pequeno ensaio pessoal na Serrote 47, “Confusão de línguas”, que merece atenção. Nele, um abuso – muito semelhante ao tratado por um colega nosso em uma ficção…- é abordado do ponto de vista da mulher. O registro autobiográfico de Melchor é frio, pois se aproxima do ensaio sobre o abuso, mas é tinto com irrupções de violência surpreendente para um gesto supostamente não tão violento. Às vezes a violência surge da maneira mais terna.

PROPOSTA

A ideia aqui não é necessariamente usar a mesma forma de Melchor – o ensaio autobiográfico -, e sim trabalhar a questão do abuso e como ele se desenvolve na memória.

Mas, se quiser escrever um ensaio autobiográfico, em vez de uma ficção, também pode.

O abuso não precisa ser sexual – pode ser um assédio moral, por exemplo.

Pode ser só uma frase mal colocada que ficou ressoando durante anos. Pode ser uma situação desconfortável. Pode ser um mal entendido. E claro, pode ser alguma violência física.

Minha sugestão é tratar do assunto em dois instantes.

No primeiro momento, quando surgiu o abuso.

E no segundo momento, quando o abuso foi, de certo modo, superado.

Uma possibilidade narrativa, para o segundo momento, é o abusado confrontar o abusador, anos depois. O que faz? Conversa? Vinga-se? Perdoa o abusador?

Talvez para o abusado a maneira de processar o trauma seja esquecendo.

Talvez seja o reinventando na memória.

Quem é o abusado, quem é o abusador? Descreva-os física e psicologicamente. E deixe bem claro a diferença entre as posições de poder que cada um ocupa.

Capriche na descrição da cena em que aconteceu o abuso.

Você pode escrever em qualquer pessoa, em até 9 mil toques.

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