Cassiano, o pai, despertava lento. Abria primeiro um olho e minutos depois descolava o outro. Aquecia a garganta com um estampido pulsante, seguido de pigarro e tosse convulsa. De pé, pulava o pão, engolia o café, tomava fôlego e uma dose de drama. Satisfeito, batia no peito e trinava. O mundo perdia um pouco de espaço, ocupado sem licença, nem margem de folga, pela prepotência daquela voz.
Meu vizinho cantava mal, mas era pago para isso. Também tocava flauta, e cobrava caro para a aula que dava. Vigarista em descrédito e semianalfabeto, desconfiava da maioria dos assuntos, homem de pouca conversa. Mal falava de si, fugia da infância de quem se fez na desgraça. Uma hesitação que descombinava da vaidade, quase burlesca, e da safadeza, para lá de excessiva. Não aparentava ser má pessoa, só um tanto equivocado, quando afundava de mão beijada seu casamento ao praticar uma quiromancia de araque com o pretexto de bolinar as mulheres. O que fazia com muito gosto. Obviamente, de graça.
Seu toque atrevido não poupava nem Cida, a fiel escudeira. Segundo eles, da família.
Empregada explorada, a pobre passava apertos, pano no chão, farinha na mão para sovar o pão que junto ao diabo amassava. Mas nunca passava desapercebida. Mulher feita embrutecida pelo tempo, foi trabalhar na casa ainda adolescente. Trouxe consigo apenas a roupa do corpo, a barriga roncando, um par de olhos estrábicos e alguma desorientação. Virgem de sexo, carisma e vaidade, era muito branca e cortava os cabelos à escovinha. Tinha personalidade geniosa, documentação indefinida e nádegas inexistentes. Quieta, o pouco que falava era errado, ou inteligível, o que instigava a vizinhança se era fugitiva da polícia, se jamais passou na porta de uma escola ou sofria de problemas na dicção. Ao ser alvo de chacota, entrava em modo azedo, vociferava grunhidos desconexos, dois tons acima do suportado pela audição humana, uma bola de brilho surgia no centro da testa e ruborescia como se tivesse acabado de levar duas bolachas na cara.
Cida cozinhava bem, Cassiano era cheio de fome. Annabel, embora desmilinguida, fazia questão dela mesma botar comida no prato do marido. Servia a refeição com a colher tremulando, engolia a raiva, deixava a digestão para depois. Cassiano almoçava com paladar insípido, também amarelo, de quem sabe que faz a coisa errada, que sabe que a esposa sabe, e sobretudo, que sabe que ela finge que não sabe. Almas gêmeas dos opostos que se toleram, Annabel nunca respondia de pronto. À mesa, afirmava, sem convicção, estar tudo certo no relacionamento. Passava as tardes sozinha, largada em uma cadeira na calçada, bronzeando a índole passiva. Escondia debaixo da última camada de maquiagem uma tristeza tão funda que jamais alguém foi capaz de enxergar.
Elegante de berço e bem alimentada, Annabel veio da cidade grande. Família clássica, educação rígida. Ingressou em um disputado colégio de freiras ainda pequena e foi convidada a se retirar anos depois. Contava a lenda, que no segundo ano escolar, então aluna irrepreensível, de presença assídua e letra caprichada, sentiu uma súbita tontura acompanhada por ânsia de vômito ao chegar perto da professora de matemática. Pediu dispensa no meio de uma prova, precisava sair, tomar ar fresco. O pedido, tão negado, quanto insistido, rendeu uma nota zero e uma visita à direção. As tranças cobrindo o nariz esconderam também o faro assombrado e destoando do espanto dos que presenciavam a cena, ela seguiu zumbi, com meio baixar de pálpebras, em uma sonolência morna. Irritada com a aluna de cara sonsa, a mestra balbuciou um seco até amanhã. A menina deu o recado:
– A senhora já cheira a defunto.
Foi um deus nos acuda, onde deus não acudiu, e naquela noite a professora morreu.
Uma insuficiência cardíaca desconhecida pela velhota rendeu a Annabel uma prematura reputação de maldita, mas um cheque enviado pelo seu pai abafou este escândalo e todos outros impulsos que a filha pressentia.
Entre pancadas e pormenores, a casa vizinha carregava o cartaz da mais animada da rua. A singularidade dos filhos destoava da impertinência dos pais, mas a fama da família vinha da turbulência de todos.
Rodrigo era o filho mais velho. Quando nasceu, não chorou. Completou um ano sem derrubar uma lágrima sequer. Ao examinarem de perto o menino, Annabel e Cassiano constataram: os olhos do primogênito não tinham humor. Uma falha de caráter que, com o tempo, se tornou imoral. Mentiroso por vocação e sorteado pela genética, seu rosto de anjo renascentista saiu cuspido e escarrado ao da mãe. Uma rara beleza desperdiçada em expressões debochadas e funestas, e nem isso o deixava menos bonito, no caso, fisicamente. Fraco para o álcool, no primeiro gole perdia a compostura, no segundo apagava. Antes, dava vexame, recitando poemas que inventava, todos pobres de rima e sem encanto algum. Distante da família, Rodrigo passava semanas fora de casa. Saía sem olhar para trás, ao voltar era mal-recebido. Alguns vizinhos não o suportavam, outros faziam pouco caso da sua existência. Uma lenda viva equivocada, um porta fechada nas rodas de conversa, um sem-amigos cercado de nada por todos os lados.
José. Outro problema. Imprevisto e temporão, caiu como uma bomba no colo dos pais e dos irmãos que já coçavam um bigode na cara. Annabel não disfarçou o desapontamento ao parir o caçula, concebido quando ela e Cassiano já não partilhavam nem a cama, nem o respeito. Mas era um verão intenso, e amolengados em um meio de tarde, ao tirarem as roupas para aliviar o calor, esbarraram os ombros e caíram os dois no chão da cozinha. No escorregadio do azulejo molhado, entre o beijo na boca e o suor das panelas, e na falsa tentativa de se levantarem, cruzaram as pernas, os braços e os fluidos. Com um resto de desejo fecundaram mais uma alma e sem vontade nenhuma trouxeram ao mundo um pequeno demônio. Aturado pelos pais, detestado pelos mais velhos e temido pelos mais novos, o moleque não acatava castigo ou cala boca. Não havia cadeira que o fizesse ficar sentado, parede que não tivesse seu risco, muro que desafiasse sua altura ou enfeite de mesa resistente a curiosidade atrevida. Pulava no sofá até as molas esticarem, roubava doces, desterrava vasos, deitava girinos nos sucos, as panelas perdiam tampas e ganhavam dedos no molho. Tagarelava pelos cotovelos, esfrangalhava o sossego, aterrorizava vidraças e caudas dos gatos. Dormia dez minutos após matar a fome que sambava nas costelas. Acordava maior, de tamanho, saúde e disposição. Transformado em muitos, era visto por toda a gente, o tempo todo, em todos os cantos. Abençoado pela paciência de Cida, o menino urgente não parava nunca.
E havia o filho do meio, que devido a uma promessa feita por Annabel, a qual ninguém nunca soube o motivo, ou desfecho, foi batizado de Dairronal. Logo após o parto, quando o médico deu o primeiro tapa, e ele o primeiro grito, o menino recebeu a alcunha de Leão, e seu verdadeiro nome, retirado de um remédio para diarreia, nunca mais foi pronunciado.
Quase um protagonista de romance capa-mole, desses baratos, lidos, esquecidos e descartados, Leão conciliava a candura dos recém-nascidos com o espírito ancião de quem rebola há séculos. Seu carisma destoava dos dezenove anos. Conversador, para ele toda fala era bem-vinda. Um olá passageiro, um diálogo bobo, uma prosa de horas, uma orientação complicada. Aberto a qualquer temática, não censurava assuntos, não repudiava fetiches ou crendices, não corava quando alguém mentia, não advogava nenhuma parte da conversa. Escutava as gentes do jeito que eram, despidas, sujas, a pé, sem aristocracia ou cartas de recomendação. Isso anulava o fato dele ser feio como a fome. A pele flácida mal encaixava o olhar bovino fitando o abate e caminhava com passos demasiados lentos para a idade que tinha. Pálido e magro, as veias transpassavam a pele dos braços tatuando árvores de caule arroxeados e folhas amarelo-hematoma. Não raro despertava em desconhecidos uma assustadora primeira impressão de estarem à frente de um cadáver ambulante.
Com os dedos cruzados em ostensivas declarações de amor aos três rebentos, Annabel disfarçava o que toda vizinhança não apenas sabia, como concordava: Leão era perfeito. Gentil, responsável, orgulho de todos. O filho preferido na jamais assumida escolha que uma mãe pode fazer.
(Glaucia Faria)
