A noite vai ser difícil

por Américo Paim

A face de Marina era o oposto da figura alto astral, de beleza tranquilizadora que enchia o hospital de confiança e leveza. Nunca aparentou a idade, mesmo agora, aos quase cinquenta. À sua frente, já curiosa, Eduarda, de rosto estreito e nariz curioso, a pele branca e bem cuidada, com trinta e poucos, se ajeitou na poltrona da sala de espera dos exames de imagem, então fechada para reforma. Só elas. Ali não seriam vistas ou ouvidas.

– Minha filha, não atende mais celular, é?

– O bicho travou tudo, deu pau. Vou na técnica amanhã. Ivana que me deu seu recado.

– Ah, tá bom. Duda, veja só, é sigilo total.

– OK, Nina, sua cara diz tudo.

Marina desabou os ombros, soltou o rabo de cavalo, sacudiu a cabeça devagar. Ela ponderou muito, mas precisava falar. Se era uma lembrança doída para ela, quanto mais para os envolvidos. Carregava dentro de si como se acontecido na véspera ou na semana passada.

– Há pouco mais de vinte anos eu estava lá no Santa Madalena.

– O que demoliram?

– Sim. Hospital simples, ótima escola.

– O que houve?

– Em uma noite cheia, plantão na emergência, atendi uma menina. Pressão baixa, crise de choro, sem falar.

– Pequena?

– Tinha oito anos, se bem me lembro.

– Era muito comum?

– Foi meu primeiro caso assim. A mãe tava junto.

– Normal.

– Não achamos nada e ela ficou no repouso da enfermaria.

– Observação?

– Sim, fiquei curiosa e não dei alta logo.

– E ela passou mal?

– Não, mas quando fazia a ronda nos leitos, ouvi um soluçar, lento e claro.

– Era ela?

– Sim e já estava sozinha. A mãe tinha saído para alguma coisa.

– E aí?

– Entrei, conversamos umas besteiras. Ela nunca sorria. Dei papel, lápis e borracha, para distrair.

– E ela fez alguma coisa?

Sim, ela fez. Ao tempo que se acalmava, mas ainda muda, rabiscou uma cama grande, nada em volta, sem cadeiras, quadros, cômodas. Marina continuou com amenidades, porém, a criança não parecia lhe dar muita atenção, seguia no desenho. Fez travesseiros e uma pessoa sentada na ponta da cama, de frente para quem via a cena. Era um adulto, pois logo em seguida ela situou uma criança, um pouco afastada. Parou por instantes e o choro tímido voltou. Marina insistiu que continuasse. Apagou a figura infantil e retomou o desenho, com a criança agora com uma saia e de pé, perto da cama, bem próxima à figura adulta. A médica então lhe perguntou se era ela representada. Sem resposta. Perguntou por que os dois esboços não tinham olhos, boca ou braços. O choro se intensificou. A doutora checou seus sinais, lhe deu água, e acariciou sua cabeça, o que foi rechaçado de forma discreta. Elogiou o desenho e a encorajou, estava achando aquilo estranho. A garota fez um bigode no adulto. Seu papai? Pôs cabelos longos e depois olhos na menina e eles eram tristes, chorosos. Por que a mocinha está assim? Em silêncio, desenhou o braço direito da criança, solto perto do tronco, que era pouco mais que um retângulo. Respirou devagar, levantou os olhos marejados para o teto. Voltou a se concentrar e o braço esquerdo do homem ficou meio que repousado sobre a cama. A médica observava atenta. Ela então fez, entre as pernas do homem, no centro, um traço paralelo. Ali, em seguida, ela colocou a mão esquerda da menina. Marina em choque ainda viu a mão direita do homem ser colocada entre as pernas da criança. Ao final, ela desenhou a boca do adulto, com o que parecia uma língua saindo. Ela olhou profundo para a doutora por longos instantes, voltou a deitar, rosto contra a parede e disparou um choro descontrolado.

– Deus do céu, Marina, o que é isso?

– Um horror…

– O que você fez?

– Fiquei com ela, até que adormeceu.

– Nesse tempo todo, nada da mãe?

– Pois é.

– E aí?

– Apareceu depois de algum tempo. Eu pedi que me avisassem. Fui falar com ela.

Chamou a mãe para uma sala reservada. Relatou as condições de saúde da menina e lhe fez perguntas, como se fossem aleatórias. A mãe contou que era separada e trabalhava em uma multinacional. Perguntada, disse que o pai biológico da menina tinha sumido alguns anos antes, sem deixar rastro. Citou que tinha encontros com homens aqui e ali, nada tão sério. Perguntada se eles chegavam a se relacionar com a sua filha, a mulher arrodeou, e em rápido atalho, encerrou a entrevista. Ia sair, quando Marina a surpreendeu com o desenho. O rosto incomodado respondeu a qualquer dúvida que a médica tivesse, mas a reação rápida e agressiva e a fala desacreditando qualquer possibilidade de a menina falar a verdade, surpreenderam. Ela sempre foi assim esquisita. Não diz coisa com coisa. Aliás, mal fala. Não é pra levar a sério esses desenhos. Já fez outros bem estranhos. A doutora tentou em vão descobrir se o comportamento de silêncio era antigo. Só trouxe ela aqui porque tava muito lesa e chorando o tempo todo, uma aporrinhação. É coisa de criança, não sabe?

– Nina, o que você fez? – interrompeu Duda.

– Nada significativo.

– Chamou a direção do hospital?

– Alegando o quê?

– Abuso contra a criança.

– Com que prova? Um desenho? De uma criança que não está falando?

– E aí, o que aconteceu?

– Tive que dar alta, não poderia mantê-la ali. E guardei o desenho.

– Esses anos todos?

– Sim. Por isso que lhe chamei.

Marina foi até a bolsa e retirou um papel maltratado pelo tempo. O rosto de Duda se transformou.

– É como você descreveu. Que triste.

– Muito.

– Você anda com isso por aí?

– Claro que não. Guardei porque a história nunca me deixou.

– E por que trouxe hoje?

– Por causa da menina.

– Como assim?

– Eu tinha o nome dela anotado.

– E daí?

– Há coisa de um mês vi o nome dela em outro lugar.

– Obituário?

– Não! Na lista de empregados do hospital.

– Tá de brincadeira.

– Sério. Ela agora é a enfermeira Erlane. É colega aqui na UTI.

– Tem certeza disso?

– Sim. É um nome marcante. E tem mais.

Logo que viu seu nome, Marina lembrou e foi se aproximando. Ganhou certa confiança. Sem explorar a história pessoal, conheceu o que Erlane achava sobre aquele tipo de abuso e se assustou com o que ouviu. Erlane faria qualquer coisa para um canalha assim pagar. Suas falas e gestos se alteravam, beirando o desequilíbrio. Ela não imaginaria que falava com alguém que conhecia seu drama. Nunca descobriu sobre o paradeiro do seu agressor. A razão, inacreditável: a mãe o protegia. Por medo, apego financeiro, chantagem, por não ligar para a própria filha, fosse qualquer uma dessas razões, as investigações de Erlane nunca deram em nada. O cara estava blindado. Era como procurar um fantasma, alguém que nunca existiu.

– Duda, tem algo muito ruim dentro dela. Estou preocupada.

– Não é pra menos, amiga, mas por que essa conversa hoje?

– Ela entra no outro turno daqui a pouco.

– E daí?

– O cara, o abusador, acabou de dar entrada na UTI.

– Eita, como você sabe disso?

– Eu tinha o nome dele guardado, desde o registro naquela noite. Me lembrei.

– Ué, mas quem trouxe não foi a mãe?

– Não. Foi ele. Deu entrada e largou aqui. A mãe veio depois.

– Que estranho! O que está pensando?

– Que teve mais coisa além do desenho. Ela pode ter sido…

– Sério? Ninguém examinou?

– Não havia queixa nessa direção. Parecia um caso simples.

– Nina do céu… Acha que ela poderia…

– Você duvida?

– Claro que não.

– Estou muito preocupada. Se acontece algo aqui…

Levantaram-se. Eduarda, que já estava de saída para casa, acompanhou Marina até a entrada da UTI. Ela precisava voltar a seu posto e escrever seu relatório para passagem de turno. A pedido de Eduarda, Marina foi buscar a ficha do homem, para saberem o que o havia levado até ali. No momento que voltou e lhe entregou o papel, Erlane chegou.

– Boa noite, doutoras.

– Olá, Erlane, tudo bem? – replicou Marina.

– Tudo. Como está o movimento aí?

– A noite vai ser difícil.

Marina lançou um olhar silencioso e diferente para Erlane. Mesmo sem saber o que ela queria dizer, a moça notou.

Eduarda nem viu a cena. Estava parada, incrédula diante do nome de seu padrasto naquela ficha de entrada na UTI.

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