Devo ter dormido um tico pois quando abri o olho estava tudo escuro. Menos o teto, com uns riscos parados; era a luz da rua passando na veneziana. Estava frio, mas fui levantando devagar, estrado estalando, cobertas roçando. Saí do quarto para o corredor arrastando a meia, eu que não iria de chinelo, não sou besta nem nada. Tateava a parede de leve, maior medo de esbarrar em algo e fazer barulho. Fui me guiando pelo que não era sombra até a escada e desci leve e tenso, não queria corrimão rangendo, nem degrau dedurando.
Pé ante pé, dei na sala. Torneira da cozinha pingando e relógio fazendo tique taque, aqueles barulhinhos que só existem quando o mundo todo fica calado. Na rua, a janela iluminou e em seguida passou um carro chiando no asfalto molhado. Estava frio e garoa, eu nem um pouco preocupado, não iria perder o filme. Me guiei pelo horário branco do videocassete.
Toda terça (?) feira, depois que meus pais dormiam, eu dava um jeito para ver o Sala Especial. Depois, na manhã seguinte na escola era aquela falação sobre a musa da noite, Sandra Bréa, Matilde Mastrangi, Sônia Braga, Natália Dippi, Monique Lafont. Seguia aquela mentirada dos meninos de canela fina, aquela descrição babaca de tudo que faria se um dia… quando um dia elas estivessem totalmente disponíveis para nós. Tudo que elas fariam, tudo que nós deixaríamos fazer. Mesmo quem depois não ia gostar de mulher, assistia só para não ficar por fora.
Semana passada fora Emanuelle no Espaço. Na anterior, o filme da Morena das Neves. Hoje ia ser um com a Jaquelina Bisset, um que ela mergulha só de camiseta branca e biquíni na água fria e dá para ver tudo os peitos dela, arrepiadina a pele da gringa, os olhos azuis, ou eu acho que eram azuis, minha TV era preto e branco, a mãe falou que ia ter uma nova para a próxima Copa do Mundo, se Deus quiser amém.
Depois do clique de ligar a TV, veio aquele vozeirão pelo volume e girei para baixar rapidinho antes que acordasse todo mundo. O tubo foi esquentando e a imagem aparecendo devagar e eu esperava ali ao lado do seletor para botar no lugar certo. Já tinha um monte de canal no zumbido de arco-íris cinza – muito tempo depois fui saber que era o teste de cores – ou pior ainda, no chiado polteirgeist da estática.
Quando cheguei ao canal do Sala Especial, ou o filme acabara ou mudaram a programação. Era um outro, um filme antigo, estranho, nunca soube o nome. De início, pensei que era um bangue-bangue, um daqueles italianos, pelo jeito de filmar, aqueles closes, aquele povo suado, não era o mesmo deserto de um John Wayne. Mas não era um caubói, era um tipo Rei Artur.
A história já tinha começado e eu fiquei lá vendo, na esperança de uma pelada. Não sei como as coisas tinham chegado ali. Havia um monte de gente maltrapilha reunida ao redor de uma fogueira gigante e uma lança espetada no chão, o cabo enfeitado de bandeirolas e espelhinhos. Um velho barbudo e desdentado conduzia um julgamento ou coisa assim. Chamavam ele de o Rei dos Esmoleiros.
Entendi que havia duas famílias, cada uma brigando com a outra há décadas: uma era os Vorgas – um bando de velhinhos com cara de filhos da puta e os Tirgas – uns magrinhos pálidos, que depois percebi que eram vampiros. O Rei dos Esmoleiros bateu palmas e sacudiu seus chocalhos para declamar algo mais ou menos assim:
-Parou com essa guerra. Antes havia muitos Vorgas, agora só tem esses velhos e o seu harém das escravas. Antes havia uns Tirgas, agora só tem esse casal e três crianças. Assim não dá, já correu muito sangue, tem que acabar com isso. Para selar a paz e garantir que acabe aqui a mortandade, Yuri, o filho dos Tirgas, fica adotado pelos Vorgas e Nicola, filho dos Vorgas, vai ser criado pelos Tirgas.
Corta para uma carroça sem janelas indo para as terras dos Tirgas. O Nicola coitado enfiado dentro daquele caixote. Era um daqueles brancos sujos, feito gaúcho pobre, bonito e bravo e feio, os olhos claros e eu até hoje não sei a cor. Ele se cansa de ficar ali preso, bate no teto e pede para falar com o motorista da carroça, me deixa descer, quero ver aí fora, não sou vampiro, não tenho medo de sol.
O condutor fala OA e os cavalos freiam todos juntos e o velho diz, tá bom, tá bom, tu sobe comigo, mas quando chegar perto dos vinhedos, você volta para o caixão.
Ele se apresentou como Ivano e ficou contando umas coisas lá da vida dos Tirgas, a maior parte não sei se interessa. Os Tirgas eram mesmo vampiros, mas uns vampiros novos, nada de séculos e eternidades. O bebê mesmo só tinha uns 50 anos. Isso seria bom para o Nicola.
-E eles nunca quiseram chupar seu sangue?
-Eu sou servo em suas terras, eu devo para eles, eles se responsabilizam por mim. Entre beber meu sangue camponês, eles preferiam matar um carneiro dos Vorgas, essa é a verdade. Mas vez ou outra, quando é inverno e as presas são poucas, faço umas sangrias para os sanguessugas.
Ivano puxou a manga da camisa e mostrou os cortes no braço.
Daí corta de novo para a casa sem janelas ou crucifixos dos Tirgas. O pai tinha um cabelo topete e costeleta bem tio Afonso no álbum de fotografias, só faltava a barriga e a calça boca de sino. Era um ator bem canastrão, a boca se movia e a dublagem melhorava a atuação dele. Ele se apresentou como Dom Franko Tirgo e era a ele que Nicola deveria se submeter como filho. A mãe, Dona Marinka Tirgo usava um véu e tinha no rosto uma maquiagem de cicatriz tão tosca quanto pavorosa. Tinha um olhar impiedoso de mãe. Ou da minha mãe. E também havia o bebê que chupava o sangue da mãe nos peitos e olhou para a câmera como se soubesse que estava sendo filmado.
E havia a filha, agora meia-irmã de Nicola, Milana Tirga. Eu fiquei besta, era a Jaqueline Bisset novinha, como eu nunca tinha visto antes. Tinha uns 16 anos e, se não tomasse sol ou uma estacada no coração, ficaria eternamente nos 16 anos. A câmera voou num close para ela, quem não voaria nela se pudesse? Nicola Vorga e eu já ficamos taradões.
Daí o filme embaçou numa ideia de mostrar o Nicola Vorga com a família nova. Nessa hora não sei como não dormi. A fotografia ficou azulada, escura, eu não conseguia enxergar direito o que havia. Mesmo assim, acompanhei os atores no meio das parreiras pela noite. Metade dos camponeses das terras dos Tirgas trabalhavam durante a noite nas lavouras. Outra metade ficava durante o dia, para defender os senhores durante a luz do sol. Enquanto a madrugada passava, Marinka tricotava infinitos sapatinhos para o bebê que jamais iria crescer, enquanto a doce Milana carregava-o para onde fosse, feito uma boneca morta-viva. Nicola e seu pai adotivo trabalhavam durante a noite e antes do amanhecer entravam na Casa Grande.
-Cansado?
-É mais fácil do que arar a terra cheia de pedras dos Vorgas.
-Prove. O sereno da noite torna nosso vinho mais doce.
Nicola bebeu a taça, sob o olhar atento e invejoso do bebê. Só poderia ser ciúme, o Vorga tinha pernas fortes o suficiente para ser livre e perambular de lá e pra cá, e ainda experimentar a luz do sol e da lua. Mas Nicola também tinha ciúmes do bebê, sempre tão aninhado ao seios da jovem Milana.
Lá pelas tantas, a jovem vampira deixa cair um lenço para Nicola, que o esconde em sua roupa. Ele fica deitado em seu quarto cheirando o lenço, eu só consigo pensar que deve estar com fedor de carniça de defunto, mas ele cheira e cheira, aparentemente apaixonado mas a atuação do moleque é muito ruim para dizer se é amor ou tesão. Quando a luz do sol penetra pelas frestas da Casa, Nicola sai de sua cama e se esgueira para fora da casa até o limite das terras dos Tirgas. Ali ele encontra um primo Vorga chamado Konrado, um homem sem orelhas. Eles conversam sobre os pontos fracos do terreno e os melhores lugares para invadir as terras. Então a gente descobre que Nicola foi enviado para trair sua família adotiva.
E eu comecei a achar tudo aquilo uma chatice e eu pensando que meu projeto punheta deveria ser engavetado para a próxima semana, fica nessa enrolação e eu sem nada. Mas quando Nicola retornou a sua casa, ele é surpreendido pela Milana. Ele quase solta um grito de susto, mas ela cobre a boca do irmão adotivo com a própria mão e depois com a própria boca e ela o imprensa contra a parede e depois usando sua força de vampira o leva subindo as paredes daquela casa assombrada. Nicola impede um quadro de cair para evitar fazer barulho e apesar do som ser cheio de ruído de filme velho e dublado, consegue-se escutar a madeira estalando e as frestas deixam passar a luz do dia e a pele de Milana se queima com pequenos riscos, mas ela não parece se importar e ele também não. E enquanto ela expõe os seios para que Nicola se afunde neles, eu também me exponho por baixo das cobertas. Até que a câmera se afasta e mostra o bebê observando tudo, calado.
Depois o filme foi para a casa dos Vorgas e eu não fui. Dormi, não lembro direito. Só sei que o Yuri Tirga ficou confinado numa gaiola cheia de cruzes, espelhos e água benta. Nesse pedaço que perdi, Nicola Vorga mudou de lado – eu também mudaria com uma irmã como a Bisset – e brigou com o primo Konrado. Os dois saíram na porrada, mas o Konrado era mais velho e mais forte, deixou o moleque no chão:
-Vou encher seu cu de alho até você tirar da cabeça essa vampira. A gente vai invadir e vai derrubar tudo e vamos decidir se você fica entre os vivos ou mortos. – e cuspiu na cara dele antes de soltá-lo
Nicola levantou-se com dificuldade e cambaleou de volta para casa. Pretendia usar seu atalho mas foi pego no meio do caminho por Ivano, o servo fiel dos Tirgas. Daí na imagem seguinte, estava no interior da casa sem janelas, no centro de um outro julgamento, pai e mãe adotivos ouvindo tudo que o motorista de carroça tinha para dizer.
