Efeito dominó

Olá, boa noite, seja bem-vinda! Muito prazer, meu nome é Marcela (dois beijinhos no rosto), entre, por favor, você é amiga da Gisela? Conheço essa mulher maravilhosa (pausa as sílabas do ma-ra-vi-lho-sa) há anos (prolonga a palavra aaaaannnooossss), mais de trinta (enfatiza o trinta), amiga de verdade (bate no peito). Saiba que o dia que precisar poderá contar com ela (muda a voz para um tom confessional) eu estava num táxi, desesperada, havia acabado de ter alta do Mental Hospital, e Natal para mim é uma época difícil. O monstro do meu ex-marido tirou as meninas de mim no dia de Natal, dois anos sem elas. Semana passada procurei a mais velha sem estar na presença da advogada dele. Recebi a notificação de que teria que me apresentar ao juiz, fiquei nervosa, quebrei a pia do banheiro com as mãos. Fui internada, crise nervosa, Natal é uma época complicada. O Sam me falou, you should call a friend (imita a voz de Sam, grossa). Sabe quem é o Sam? O motorista do táxi! Um anjo! Um sinal ter entrado no carro do Sam. Liguei para a Gisela, que me atendeu na madrugada, porque moro em Chicago, mas sou de São Paulo. A Gisela me valoriza, amiga vem para cá (chora), isso foi anteontem, ontem comprei a passagem cheguei hoje, hoje, (chora mais), véspera de Natal, eu, que nem comemoro, sou judia, mal trouxe nada. Vim com a roupa do corpo. Tudo tão difícil (assoa o nariz), mas fique à vontade, olha a Gisela está ali, com licença que está tocando a campainha, adorei conversar com você! 

Paula, que ainda segurava a travessa coberta por papel alumínio e trazia no ombro uma sacola com duas garrafas de vinho mais o presente para o amigo zoado de última hora, não me deu Feliz Natal, não cumprimentou as outras pessoas, apenas questionou, atordoada:

— Quem é essa louca? 

Ah, sim. A explicação. Ingênua, eu, esperar que Marcela chegaria mansa. Na verdade não tive tempo ou ideia de gravar um vídeo poupando saliva. Resumo do drama, Marcela é uma amiga antiga. Muito antiga. Fui amiga da irmã dela. Fui. Porque ou você é amiga da Marcela, ou da irmã. Tão polêmica, que antes de passarmos para os pormenores que culminaram no convite para passar o Natal comigo, é preciso perceber quem ela é. Tenho um bom exemplo, curto e grosso, tudo verdade. Marcela fazia análise. Marcela foi a uma festa em um centro budista. Marcela conheceu um rapaz tão bonito quanto sossegado. Luciano. Das coisas que só acontecem, ou com pessoas intensas como ela, ou em filmes do Woody Allen, no momento em que o cosmos liga os pontos e traceja as pegadinhas da vida, Marcela descobriu que o zen Luciano era filho da psicanalista. Optou por relatar ela mesma a coincidência. No divã. O instinto materno da profissional  jogou a ética para escanteio e gritou mais alto: com meu filho, não! A analista conhecia a fundo a mente balburdiada da paciente. Não sei como se deu a relação mãe>filho, mas Marcela e Lucas se casaram. Nao me lembro da sogra estar presente na cerimônia. A questão é que Marcela foi atriz mirim. Despachada, desinibida, inteligente. Não linda como a irmã mais velha, Sara, loira, olhão azul e convencida, nem feiosa como a caçula Raquel, de rosto bolachudo e personalidade amputada. A beleza comum de Marcela, olhos castanhos, cabelos crespos, pretos, e a presença capaz de dar em um segundo um duplo twist carpado mais uma cambalhota finalizada com dois pés juntos alinhados virou a galinha dos ovos de ouro da família. Acho que nem a própria Marcela sabe como ou quando começou a interpretar. Levada pela mãe à um teste, encantou a todos de imediato, chorava de verdade. Com sete ou oito anos sustentava a família toda. 

Marcela pega de ouvido a frase de Paula:

— Achei mesmo que ela tinha um rosto familiar. 

Depois da risada aflita, Marcela desova:

Meu rosto só não é familiar para minha família (evidencia o minha). Operei nariz, queixo, orelhas de abano. Minha ex-família, as duas ex-famílias, ando afundada em processos — vira para mim, como se abrisse uma dimensão paralela na conversa: te contei que Lucas está me processando? O imbecil além de pegar a guarda das meninas ainda me meteu no pau. E eu estou processando minha mãe, pelo fato dela ter me feito trabalhar como uma filha da puta infantil. Vaca. Não sabe o mal que me fez! E continua: eu na canseira, no trabalho árduo. Ela, a narcisista, queria a filha bonita no book da agência mas nunca (eleva a voz no nunca) nunca teve minha foto na carteira. 

Aproveito que Marcela vai atender a porta e termino de contar à Paula que após o casamento ela e Luciano se mudaram para os Estados Unidos. Executivo de uma empresa de tratores e máquinas pesadas, ele progrediu na carreira. A primeira filha nasceu em Miami, no Colorado, a segunda e a terceira em Chicago. Marcela trocou a carreira de atriz pela maternidade sem jamais abandonar o ego necessitado de aplausos. Ela praticamente se depilava nas redes sociais. Fez da separação um reality show com requintes de verdade. O motivo do divórcio de um casamento de mais de vinte anos? Marcela ama contar: 

Fomos jantar no Eataly. O Luciano havia me adiantado que precisava muito me contar uma coisa (diz grande, COISA). Eu respondi, OK. Paula, você precisa olhar para mim (Marcela dirige a cena e a posição dos expectadores). Ele falou: eu estou fazendo aula de dança. Paula, me vierem uma lágrimas, assim, gordas (faz um gesto de quem vê algo através de binóculos), não sabia o que pensar, não sabia se ria ou chorava, o quê? será que estou em um programa de auditório, o que ele disse, está fazendo aula de dança? Sim, confirmou, cara de pau, assumiu, eu sei que menti, não sei o quê, não sei acolá, mas vamos continuar, eu sei que eu menti, mas essa é a única mentira. Marcela agora aos berros, refaz a frase, ESSA É A ÚNICA MENTIRA, olha que frase perigosa. Voltamos para casa, você acredita que ele foi para a aula de dança?

Pela amostra grátis da macedônia emocional não é difícil deduzir, embora falte uma parte importante nessa história a dar depoimento, que não foi a aula de dança o pivô da separação. Talvez alguma dançarina. Marcela ficou possessa porque Luciano, matriculado no curso de dança há mais de um semestre, iria se apresentar no musical de Natal em um teatro de Chicago. Apresentação pequena, com um detalhe não tão menor (para ela): Luciano seria o Papai Noel. As filhas fariam uma participação afetiva como duendes. De graça, acredita?  As três, ali, de graça! Nem me importa que são metade judias, Luciano é católico, estou cagando para o Natal. Mas, de graça?

(Glaucia Faria)

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