– Não beba isso, Maria Eduarda.
– Você não entende nada. Se eu beber essas duas ampolas, vou ficar toda esticada.
– A única coisa que vai esticar é seu cérebro.
Minha irmã não me ouviu. Com a primeira ampola não aconteceu nada, mas assim que ela terminou de tomar a segunda, Maria Eduarda deu um soluço e depois despencou no sofá. Por favor, não vai morrer agora. Tenho terapia daqui a pouco, você sabe que custa uma fortuna. Mesmo implorando, ela nem se mexeu. Que chatice, era o que faltava. Por que você tem que ser sempre tão idiota?
Depois de dez minutos imóvel, Maria Eduarda abriu o olho.
– Eu estava respirando?
– Claro que sim ou eu teria ligado para o IML, que pergunta. Preciso ir embora. Fica com o celular do seu lado.
– Por quê?
– Você está meio azul.
– Ai meu deus, você precisa me levar para o hospital.
– Agora não dá. Posso chamar um Uber para você.
– E se eu morrer no caminho?
– O seu atestado de óbito vai sair mais rápido. De onde você tirou a ideia de tomar essas ampolas?
– Do Instagram. Estou com medo de ficar aqui sozinha.
– Você sabe que faço terapia para resolver os problemas que eu tenho com você. Problemas não, traumas.
– Que eu te tranquei no porão da casa da tia Coquinha, não tinha luz e de vez em quando um rato passava em cima do seu pé. Quantas vezes eu vou ter que ouvir isso?
– E a vez que você jogou Pinho Sol no meu guaraná? Você sempre foi tão meiga, Maria Eduarda.
– Agora além de você me deixar na miséria, ainda quer que eu morra.
– Hoje em dia tem Uber para tudo, até para pacote.
– Um pacote azul, estou parecendo um Smurf.
– Arranja um marido novo para cuidar de você e não torra a minha paciência.
– Você sabe que meu último marido fugiu, por que tem que falar nisso agora?
– Quer que eu alugue um cachorro para você?
– Um cachorro que saiba chamar a ambulância se eu desmaiar de novo?
– Está bem, Maria Eduarda, te deixo no hospital antes de ir para a terapia. Vou chegar atrasada, mas pelo menos você para de me atormentar.
– Quero ir com você. Quero escutar o que você fala de mim para o seu terapeuta.
– Essa ampola fez você perder a noção das coisas. Ou você já era assim?
– Ué, se a gente brigava dormindo quando éramos pequenas, podemos continuar brigando na sala do seu terapeuta para ver o que ele diz.
– Não viaja, você só quer chamar a atenção dele. Vamos, vou te levar para o hospital.
– Não quero ir.
– O que você quer, então?
– Já estou me sentindo melhor. Quero me olhar no espelho.
– Você passou de azul chumbo para azul celeste. Já é alguma melhora.
– Olha como o meu rosto está lisinho, não tem uma ruga.
– Que eu me lembre, você não era japonesa. Nunca vi seus olhos tão puxados. Você está conseguindo enxergar?
– Rejuvenesci uns vinte anos.
– Se você não estivesse ficando careca, talvez. Não está vendo os tufos aí do seu lado?
Maria Eduarda desmaiou de novo. Eu não tinha mais tempo. Deixei a porta do apartamento dela aberta e chamei um Uber para mim. Tentei ligar para o Samu, mas só dava ocupado. Devia ser um pouco de frescura da minha irmã, não é de todo mal ficar azul. Logo ela já estaria azul bebê. Quando me sentei na frente do terapeuta, ele me perguntou qual assunto eu queria abordar. Meus olhinhos brilharam e depois respondi: qualquer um que não tenha Maria Eduarda.
