Miolo de Botão (Carol Schettini)
Puta. Uma palavra com apenas quatro letras consegue fazer um estrago maior que muita frase escrita em livros de romance. O xingamento retumbava dentro do capacete de Deco enquanto ele dirigia a moto na estrada de chão que ligava a fazenda à rodovia e em alguns quilômetros, ao centro da cidade. Puta. Foi o que Deco disse a Kelly quando tinha 18 anos, há exatos 22 anos.
Quando Demóstenes falou que Kelly tinha voltado com uma filha moça a tiracolo e abrira um comércio perto da praça da Igreja, ele não se importou com as duas latas de cerveja vagabunda que havia bebido, pegou a chave da moto emprestada e tomou rumo. Puta. Com essa palavra terminou a noite de amor com Kelly. Podia se lembrar do lençol cinza de tergal barato com furinhos de traça mal tapando o colchão embolorado, o travesseiro com fronha de florzinha verde desbotada, a coberta peleja, a cortina de linhão rústico para cobrir os olhos dos curiosos que passavam na rua e deixava entrar a luz do poste ou mesmo uma régua do sol. Lembra do dinheiro amassado jogado ao lado de Kelly, o jeito como saiu do quarto vestindo a roupa, abotoando a camisa com os botões nas casas erradas, a bota com o calcanhar para fora, a pressa, a fuga da puta. Puta.
Fácil estacionar na frente do comercinho de Kelly, um café. Caso não aparecesse turistas, com certeza, fecharia as portas em menos de três meses. Toda mulher na cidade sabe fazer bolo e nenhuma delas pagaria caro por uma fatia de torta acompanhada de café com gotas de baunilha.
Ao entrar no estabelecimento, Deco repara na parede lotada de quadrinhos feitos de lenços brancos bordados, emoldurados um a um e pregados bem na entrada. Pelas cores, podia jurar ter visto Dora bordando algo parecido, ela não sabia combinar novelos e passava de uma cor a outra dando nós na pontinha das linhas. Além disso, no meio das flores fazendo a vez de miolo uns botões de camisa, tal Dora arrematava seus desenhos. No seu ouvido, a voz da irmã: ponto haste ponto atrás ponto haste ponto atrás.
Deco escolhe uma mesa mais reservada. Vê a filha de Kelly, a tal moça que Demóstenes disse ser a cara da sua mãe. De longe, realmente, a semelhança é impressionante. De perto, quando chega com um sorriso para pegar o pedido de Deco, ele por pouco não cai. Como pode um fantasma reencarnar assim? Fica encabulado, chega a balançar de um lado para o outro, as pernas bambeiam quando repara na marca de nascença perto da orelha da moça, um desenho de faca apontando para o pescoço. Demóstenes tem uma marca igual. Ele também.
— Quero um café simples. – Deco informa sentando na cadeira de uma vez – e também falar com a sua mãe.
A moça não acha estranho, muitas pessoas ainda se lembram de Kelly e costumam aparecer para falar com sua mãe. Quando Kelly sai da cozinha e vem caminhando, Deco puxa na memória a moça de outrora, mas quem vem sorrindo é uma mulher mais velha, com rugas nos cantos dos olhos, óculos pendurados no pescoço, calça jeans, blusa xadrez, sapatilhas. Nada de vestido curto, cabelo grande e solto, salto alto. Puta. Assim que ela chega perto da mesa, Deco se levanta, fica na dúvida se estende a mão, mas ela o abraça.
— Oi, Deco.
Kelly não finge não se lembrar de Deco. Não finge que ele também mudou com os anos, os mesmos anos que correram para ela maracujaram o rosto dele.
— Não sou mais Kelly. – ela informa – Há muito tempo.
Kelly senta na cadeira em frente a Deco e pede à filha duas águas.
— Sabe, Kelly, Há mais de vinte anos penso em te pedir desculpas pela ofensa que te fiz. A ofensa ficou pra fim, eu te ofendi, mas me senti mais ofendido por ter falado daquele jeito com você.
Kelly balança as mãos, não esperava que fosse esse o assunto que havia trazido o antigo amigo ao café.
— Bobagem, Deco.
— Eu te chamei de puta.
— Eu era uma puta.
— Não pra mim.
Deco toma um gole do copo d’água, colocando as mãos sobre os olhos, lágrimas insistem nascer, não sabe se pelas latinhas de cerveja, se por Kelly estar ali, se por não conseguir fugir do passado, se por tudo. Ainda com as mãos sobre os olhos, ele diz:
— Sei que joguei o dinheiro, uns trocados e.
— Vinte e três reais.
Também com o olhar baixo, vigiando a palma das mãos que abrem e fecham espalmadas em cima da mesa, Rosário confirma.
— Vinte e três reais.
Ela repete. Deco não sabe ao certo quanto dinheiro tinha na época, pouco, pouco.
— Eu não tenho certeza.
— Uma nota de dez, uma nota de cinco, o resto em notas de dois reais. A nota de dez rasgada, colada com durex, a de cinco com um marca em caneta azul, as de dois amassagadas. Vinte e três reais me libertaram da vida que eu vivia.
Rosário confirma olhando para o lado, dando um sorrisinho de boca fechada em direção à filha para sinalizar estar tudo bem.
Não foi a coça que levou de Demóstenes dias antes de encontrar com Deco por acaso na farmácia, mas o dinheiro arremessado por ele na cama com raiva para ela que fez Kelly querer mudar de vida. Pegou o trocado, o pouco de coisa que tinha, juntou tudo, tomou um ônibus e começou uma nova jornada em uma cidade próxima, onde ninguém a conhecia. Fingiu de moça direita, fingiu de viúva, acabou acolhida por um casal idoso de estrangeiros, sem filhos, sem ninguém. Praticamente a adotaram e quando descobriu a gravidez, deu a maior alegria aos velhinhos. A menina foi mimada de todas as formas, nunca perguntou pelo pai, nunca quis saber.
— Quem é o pai dela? – Deco perguntou já sabendo a resposta, a marca perto da orelha, a mesma marca que Demóstenes tem nas costas, a mesma marca que ele tem perto do pulso.
— A quem interessa? O pai dela nunca quis saber. Foram vinte e dois anos sem pai.
— Não dá para procurar o que não sabe que existe.
— “O diabo é o pai da mentira”.
— João, 8:44.
A citação da Bíblia deixa Deco desconcertado. Natasha, sua mulher, também costuma responder seus apelos deste jeito. Puta. Como se atreve citar versículos para ele depois de tanto tempo, depois de tudo. Com o rosto amarrado, ele a repreende:
— Não precisa apelar para o Novo Testamento. Não sei se a sua filha é minha filha. Minha parente, com certeza, deve ser. Ela é a cópia viva da minha mãe e o sinal perto da sua orelha, todos em casa também tem. Mas, Kelly, Rosário, não interessa seu nome, mas hoje foi a primeira vez que tive notícia da existência dessa menina.
As lágrimas que insistiam em brotar para fora agora voltam para dentro transformando o remorso em ódio. É mesmo uma puta.
O comentário de Deco pegou Kelly desprevenida. Ela achava que os irmãos sabiam da filha, não a procuravam porque preferiam não assumir uma filha de uma puta.
— Todos os anos, desde que ela nasceu, eu mandava alguém trazer uma foto dela para ser entregue na fazenda de vocês. Todo dia 13 de junho, dia de Santo Antônio, dia que dormi com você, na data certa em que recebi uns trocados, comprei uma passagem e arrumei a vida, 13 de junho, uma foto era entregue na mão de Dora. E Dora pagava de volta com um bordado. Ela esperava na porteira.
A cabeça de Deco vira em direção aos paninhos emoldurados na parede. Kelly toma um gole da água, olha direto no olho dele:
— Você não são eles, Deco. Você não é o seu irmão. Você não é a sua irmã.
A mesma frase dita vinte anos após ter despertado a ira de Deco. Seis palavras agora repetidas duas vezes. Ao contrário do que deu a entender, Kelly se lembrava e a guardou por um bom tempo para jogar de novo em cima dele. A afronta não foi dele ao xingá-la, foi dela ao destratar seu irmão e ela a estava repetindo. Puta. Deco engole as quatro letras como se engolisse um comprimido largo lhe entalando a garganta. Levanta da mesa, busca um trocado amassado no bolso e joga na frente de Kelly.
Vai embora não sem antes pegar um dos quadrinhos na parede. Podia ser qualquer um, mas faz questão de escolher o maior botão, tem certeza de saber onde pode encontrar outros do mesmo tamanho e da mesma cor. Com o quadrinho preso entre sua pele e o botão da calça, sobe na moto. Não quer correr o risco de perdê-lo no caminho de volta à fazenda. Perdido o remorso, a palavra puta não martela mais na sua cabeça, mas sim o nome Dora. O que a irmã fez? Esconder um segredo destes durante toda a vida da menina faz Deco duvidar de toda sua irmandade.
