Quem sou eu? Onde estou?

Onde estou? Who am I? Where am I? What am I doing here? Eu e Marilu demos muita risada quando ela repetia estas frases em inglês, favoritas nas aulas que ela havia recomeçado algumas semanas antes. Ela se imaginava na NYU sem falar inglês, tendo que interagir com pesquisadores estrangeiros e ficava aterrorizada, ao mesmo tempo em que se divertia, antecipando seu futuro em Nova York. Mari tentava resgatar o idioma abandonado anos atrás, logo depois da volta do intercâmbio. Precisava melhorar pelo menos um pouco, um brush up no básico, no pouco tempo que teria até o final do semestre. Sua pesquisa era tão relevante, que a NYU a queria com ou sem inglês. Era o que havia dito o Ivan Roncalli, nosso orientador e diretor> Mari estudava projetos de recuperação dos hipercentros em áreas metropolitanas no Brasil.

Não me ocorre agora quando foi que eu comecei a pensar que Marilu não merecia aquela bolsa. Pra começar, o inglês dela estava tão precário que iria com certeza comprometer seu desempenho. O meu, no entanto, estava super em dia. Sim, eu comecei a me comparar com ela e a achar que ela não fazia jus àquela oportunidade. Sabia da dedicação dela, de sua relativa inocência existencial, sua fé nas instituições e na academia. Ao mesmo tempo, estava cada vez mais consciente da minha própria descrença e de meu recente cinismo com a estrutura toda de poder, com o patriarcado, com o diabo a quatro. Por exemplo, a maioria dos pesquisadores no nosso departamento era formada por mulheres. O diretor do departamento, óbvio que era um homem. As bolsas de estudo e os financiamentos todos na mão dele pra distribuir. Sem mencionar a puxação de tapete que eu observava, cotidiana: tal projeto não me interessa, já aquele vamos inscrever pra bolsa, independente de desempenho. Marilu me olhava como se eu estivesse falando grego, quando eu fazia qualquer comentário com ela sobre esse tipo de assunto. Éramos amigas desde o ensino médio e fomos vizinhas muitos anos também. Quase irmãs, mas ao mesmo tempo, eu refletia na época, quase duas estranhas.

Na adolescência, Marilu e eu não nos desgrudávamos. Éramos colegas de escola e vizinhas e se uma não estava na casa da outra, a outra estava na casa da uma. Minha casa, pra Marilu, era uma aventura divertida. Praticamente seis adolescentes vivendo na casa, junto com minha mãe, que era a sétima adolescente. Pincéis e tinta espalhados pela casa, música alta, quartinho escuro com ampliador pra revelação de fotografias em preto e branco. Alguns dos meus amigos achavam aquilo o máximo. Eu achava tudo só uma grande bagunça mesmo. Meu pai aparecia pouco em casa, viajando muito a trabalho pra tentar sobreviver e sustentar aquela zorra toda. Nossos móveis também eram bagunçados. Eram velhos e meio embaralhados, nada combinava direito com nada. Com exceção do ateliê da minha mãe, que ficava nos fundos da casa e era razoavelmente organizado, cheio de coisinha modernas, o resto da casa era bem caótico.

A calma e estabilidade na casa da Marilu estavam em contraste direto com o caos da casa da minha família.  Dr. Otto, pai de Marilu tinha uma biblioteca linda. Havia uma estante grande muito bonita, daquelas construídas dentro da parede, com iluminação embutida, o que na época era o máximo. Aquelas prateleiras recheadas de livros me interessavam imensamente. Ele trabalhava no escritório de advocacia da família, no centro da cidade, e quase nunca usava este escritório da casa. Eu e Olívia pegávamos livros ali, mas sempre os devolvíamos. Nunca roubamos nada. Não que nós duas não roubássemos outras coisas. Marilu, por exemplo, adorava roubar namorados ou mesmo maridos alheios. Tinha um certo gosto pela coisa. O escritório do Dr. Otto ficava à direita, na entrada da casa, pela varanda da frente. Havia duas portas bonitas, com grades antigas e vidro na parte de cima. A porta grande, logo na frente, abria para um pequeno hall de entrada de onde já se podia ver a ampla e suntuosa sala de estar da família. A outra, bonita, porém menor, logo à direita, abria diretamente para o pequeno escritório. A decoração era discreta, havia uma parede com azulejos portugueses no fundo e peças antigas e raras espalhadas por mesinhas e estantes. Uma tia da Olívia comprava e vendia antiguidades. Visitava fazendas e casas antigas no interior do estado garimpando as peças. Algumas iam direto para o escritório do cunhado favorito. 

Se eu acreditasse que Marilu fosse fazer novas descobertas e abrir portas em sua vida com essa bolsa, talvez me sentisse menos incomodada. Um bom exemplo de como ela não aproveitava bem as chances que tinha, era por exemplo a situação do inglês dela. Seu espanhol era relativamente bom, graças a suas infinitas viagens à Argentina. Além dos inúmeros namorados hablantes de espanhol que ela acabava arrumando por lá. Na adolescência, fizemos o intercâmbio de inglês pelo mesmo programa. Quando voltamos, comecei a dar aulas de inglês, pensando em dar um jeito de sair logo de casa. Mas foi também pra não esquecer. Marilu voltou com um sotaque meio atrapalhado e nunca falou muito bem. Nem pensava em sair de casa; era um assunto fora de questão. Depois que terminasse a faculdade, quem sabe. Quando estávamos as duas na pós, a Marilu só saiu de casa porque a casa deles virou escritório da firma do irmão. Dr. Otto morreu, depois dona Lourdes. Os dois não viviam um sem o outro. Marilu se casou. Com um sujeito super mais velho, o Olinto. Ele tinha uma editora e uma livraria.

Meu departamento era o mesmo da Marilu. Nosso orientador o mesmo e nosso nome o mesmo, praticamente: Maria Luiza Prado Mendes e Maria Luiza Pimenta Mendes. Marilu e Malu. O que aconteceu na época, foi algo que, confesso, jamais me imaginei fazendo. Tudo se desencadeou meio que por conta própria, apesar disso não fazer muito sentido para algumas pessoas. Os atos e fatos se sucederam meio que espontaneamente e minhas intervenções na época me pareceram apenas intuitivas e naturais. Não tinha como não acontecer. Tinha algo de mecânico, talvez, ou pelo menos foi como eu interpretei na época o desenrolar dos fatos. O grau de cálculo e oportunismo marchetado ali, só mais tarde viria a me atormentar. Marilu me condenaria pro resto da vida. Ou não?

Eu não saberia dizer se a determinação do nosso orientador em despachar a Marilu pra Nova York era pra agradar o tio dela, pesquisador super renomado de outro departamento e grande amigo dele, ou se era por algum outro critério técnico. Ou se pela rejeição dele ao casamento da Marilu. Aceitação na NYU nós duas tínhamos, pelo mesmo orientador de lá, o Professor Timerman. Mas parece que não havia bolsas suficientes. Não havia uma explicação clara, nem esta questão era discutida. Eu esperava que minha bolsa também saísse, apesar de não ver muitos sinais favoráveis.

No dia em que tomei minha atitude decisiva, eu estava sozinha na secretaria do departamento. Esperava a Suzy, secretária do Ivan de Castro, diretor e orientador meu e de Marilu. Ela tinha ido buscar um comprovante que eu havia solicitado. Eu estava em pé ao lado da mesa dela, olhando a grama do campus, seca e queimada de sol, no lado norte do prédio. Quando me virei pra ver se a Suzy já estava retornando, notei a página da NYU aberta em seu computador e uma pilha de documentos ao lado, com as fichas de alunos selecionados para a bolsa. A ficha da Marilu era a segunda da pilha. Do outro lado da mesa, havia dois livros e uma pasta com outros documentos e algumas fichas de alunos. Olhei para a porta e conferi que a Suzy ainda não estava vindo. Abri a pasta e peguei minha ficha. Não estava na pilha selecionada. Rapidamente, troquei as fichas. Coloquei a minha na pilha selecionada, ao lado do computador, e a da Marilu na pasta do outro lado da mesa.

Na semana seguinte, recebi um e-mail e a carta de aceitação do Liberal Studies da NYU. Descobri que Professor Timerman, que constava inicialmente no formulário de inscrição para a bolsa e a vaga no curso, era uma mulher. Ela me escreveu dizendo que não sabia quase nada sobre o idioma ou as tradições dos Krenak, os indígenas de Minas Gerais que eu estudava, mas estava ansiosa por me conhecer e aprender mais. Estava também muito interessada na cultura alimentar e nas práticas agrícolas deles.

Estou agora sentada em um banco na Washington Square observando o burburinho dos frequentadores daqui. Uns andam de patins, outros fumam um baseado, um sem-teto alto, de olhos azuis, empurra um carrinho de supermercado com suas coisas dentro e uma bandeirinha dos Estados Unidos pendurada na frente. Estou ficando no loft do amigo de uma colega brasileira, pertinho daqui. Estou usando a bike dele, que encontrei no apartamento. Apesar do loft ser minúsculo e estar infestado de micro baratinhas, estou gostando. A cama fica no alto de uma escada, próximo do teto e tem uma janelinha de vidro com um nicho, onde coloco meus livros e meu iPad. As baratinhas parecem preferir a cozinha, que na parte de baixo do cômodo. Acho que elas moram dentro das paredes e, para minha sorte, não costumam sair durante o dia.  Penso que não vou ficar lá muito tempo. Vou sublocar um quarto na casa de uma moça da universidade que precisa aprender português de Portugal. Já expliquei pra ela que falo português do Brasil, mas ela não se importa. Estou amando o Village. Parece que nasci e fui criada aqui nesta bagunça.

Desde que cheguei aqui, já me vi parar no meio da ponte do Brooklyn pensando se deveria pular de lá e parar de sentir remorso por ter ‘roubado’ a bolsa da Marilu, perdido sua amizade e o professor não estar mais falando comigo. Nem Ivan nem Marilu sabem explicar o que aconteceu. Eu mesma às vezes fico em dúvida. Já estou bem familiarizada com a rotina do Liberal Arts e meu trabalho vai indo bem. Já sentei mil vezes nesse banquinho aqui da Washington Square Garden pra pensar na vida. Who am I? Where am I? What am I doing here? O sol bate no meu rosto, eu me viro no banco e continuo a ler meu livro. Me inscrevi também em uma matéria do Creative Writing, que começo no trimestre que vem.

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