Abusadinho – Yan

A etimologia de abuso diz o seguinte: palavra originada pelo prefixo ab (que se afasta) e o sufixo usum (usual, comum). Um abuso, portanto, nada mais é do que algo que se afasta do comum. O que não me parece nada comum, já que eu tenho uma relação muito próxima com a palavra e seus derivados desde criança. Para minha avó, o preço de qualquer coisa no mercado, até em liquidação, era um abuso; eu pedia três livros do Harry Potter para minha mãe, ela me mandava não abusar da sua paciência; e quando o marido da minha tia chegava para mais um natal de mãos abanando, abria a geladeira e pegava cerveja sem pedir licença, ele era um abusado.

Esse, sem dúvida, foi um adjetivo nada extraordinário na minha infância. O marido da minha tia era abusado, os velhos do bar da esquina que mexiam com minha irmã desde que ela fez 12 anos eram abusados, e também eu, quando respondia minha mãe, era um abusadinho. Ser abusado significava fazer alguma coisa inconveniente, mas não estranha. Ou seja, era fazer uma coisa que até não deveria ser comum, mas era muito comum. E chamar de abuso não impedia de acontecer de novo e de novo.

Por isso, já na faculdade, depois de dormir na casa de um amigo e acordar com ele abaixando a minha calça, não aceitei quando me disseram que eu tinha sido abusado. Não fui no sentido que eu já conhecia da palavra, porque minha mãe me ensinou a ser uma boa visita, pedir licença ao entrar, não pedir coisas e não sujar o banheiro. Tampouco achava que tinha sido abusado no sentido que queriam me dizer. Eu sabia que aquilo não era comum e afastei o cara com um chute bem perto de quebrar o nariz.

Muitos fatores me pareciam incomuns: era um cara assediando outro cara, e não uma mulher; o outro cara, eu, conseguiu se defender; e, diferente de quando minha mãe me chamava de abusadinho ao dar resposta desaforada, eu me senti culpado. Por me colocar numa situação em que eu pudesse ser abusado e, principalmente, por me colocar no lugar de vítima. Eu não podia me enxergar como uma vítima porque isso jamais foi comum para mim. Obviamente não contei para minha vó, mas se tivesse contado talvez ela dissesse: “por que você deu confiança pra esse abusado?”. A culpa era comum. Todo o resto, portanto, não podia ser abuso.

Dez anos depois, até consigo dizer que foi abuso, mas um abuso menor. Pode ser que um dia eu entenda que réguas nos afastam do que deveria ser normal. De qualquer forma, sou grato a todas as pessoas que me ajudaram a dar nome aos bois,  a parar de usar jogos sintáticos para fugir, mais que da palavra, da marca que a experiência deixa. De toda e qualquer forma, abuso é abuso. Sem as pessoas que me alertaram, talvez eu deixasse para lá. E é isso que aproxima o inaceitável do comum. Demorou, mas também entendi a diferença entre abusado e abusador. Desejo que essa confusão não se repita na cabeça das próximas crianças. Seja um parente, um grande amigo, um desconhecido ou um grande herói nacional, é preciso dar a resposta mais desaforada, barulhenta, incomum. Desejo que sejamos todos, no melhor sentido da palavra, abusadinhos.

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