Ainda aqui

Percorri a casa à procura de um lugar tranquilo pra escrever, aqui na República das Meninas, em Ouro Preto, Minas Gerais. Encontrei um canto no jardim. Ressaca braba da festa de ontem. Passei pela cozinha e tomei minha segunda xícara de missoshiru, melhor antídoto, do qual havia me esquecido. É bom tomar com queijinho de soja picado dentro e muita cebolinha. Na faculdade, costumava ser minha primeira refeição de domingo, lendo um livro no sol de manhã, justamente pra ajudar na ressaca.

Na minha cabeça, a história que Thaís me contou e tudo que aconteceu ontem. Thaís é tia da minha melhor amiga, Amanda, que acaba de se formar na Geologia da UFOP. Amanda é minha amiga desde pequena. Thaís, a tia, sempre foi bacana com a gente. Eu e Amanda adoramos ser convidadas para as festas de aniversário da Thaís, quase todo ano. Gente diferente e interessante, comida e bebida chique, música boa. Ela é professora de estatística na Sociologia e na Psicologia Social, em Belo Horizonte. Não é casada nem tem filhos. Bem diferente de nossas mães. Minha mãe e Thaís também se conhecem há muitos anos, desde antes de eu e Amanda existirmos.

Ontem na formatura eu e Thaís nos sentamos juntas no auditório. Familiares e amigos estavam umas três fileiras mais atrás. Uma certa hora, Thaís apontou para um homem magro, de estatura baixa e cabeça raspada, em pé, do outro lado do palco onde estavam os formandos e me perguntou se eu o conhecia. O homem segurava uma câmera fotográfica grande, se posicionando para fotografar a entrega de cada diploma.

Eu respondi pra Thaís que não conhecia o tal homem, mas ouvi falar. Ele mora no mosteiro Pico de Raios, eu disse. Parece que está em treinamento lá. O mosteiro fica no Morro de São Sebastião, perto do centro de Ouro Preto. Alguns estudantes descobriram o lugar e começaram a frequentar. Um certo número deles só pra ficar curtindo a vista e o lugar, outros considerando aprender a meditar. Mas é difícil entender como funcionam os eventos lá. Eu mesma já tentei algumas vezes. Quase sempre está vazio, com as portas internas fechadas. Esse cara parece que está morando lá e é fotógrafo.  Por que a pergunta? Você o conhece?

Pior que sim, a Thaís respondeu. Eu não estou acreditando. Ele é um fantasma que parece ter ressuscitado dos mortos, nos últimos meses. Eu o vi uma noite dessas na porta do cine Belas Artes, no lançamento do filme Ainda Estou Aqui. E lá estava ele! Depois, em um aniversário no sítio de uma amiga, lá estava ele novamente. E na última vez eu o vi na rua, perto da minha casa. Um fantasma mesmo.  Sabe quem o recomendou como fotógrafo?

Nossa, parece um fantasma stalker, eu disse. Não sei exatamente, respondi, só ouvi dizer que ele é muito bom. Acho que foi a mãe de alguém da comissão de formatura que recomendou.  Se não me engano ele também é professor, talvez de filosofia, em uma cidade aqui perto. Mas tenho a vaga lembrança de alguém comentar que ele também é aposentado do exército.

Thaís, inquieta, continuou a observar o fotógrafo. As cadeiras do auditório eram bem desconfortáveis e a entrega dos diplomas bastante lenta. Amanda foi uma das primeiras a receber seu diploma, a entrega era em ordem alfabética. Eu conhecia algumas das meninas da turma de geologia dela e ainda estava prestando atenção. Até que Thaís começou a me contar como tinha conhecido o tal fotógrafo.

Foi na época da faculdade, ela me disse. Apareceu um cara lá na escola que ninguém conhecia. Não tinha feito vestibular e entrou já no segundo ano de sociologia. Ou talvez história, não me lembro com certeza. Eu era da matemática, mas nesta época fazia umas matérias na psicologia, no predinho antigo anexo ao prédio de humanas. Nos intervalos todo mundo se reunia no murinho. Esse cara era ruivo, tinha cabelo e barba ruivos na época. Era baixo e magro. Ele não tinha amigos e andava ali pelo pátio sozinho, às vezes lendo um livro, ou um jornal. Nessa época não existia celular, nem internet. A gente fazia jornal no mimeógrafo, que é uma espécie de impressora, um troço muito antigo.

Eu disse pra Thaís que já tinha visto um mimeógrafo na casa do meu tio Gustavo, irmão da minha mãe. Um processo de impressão interessante. Meu tio era da mesma época da Thaís na universidade e tinha exemplares dos tais jornais de mimeógrafo. Eu e ele chamávamos os exemplares de jornal Abaixo a Ditadura. Já li alguns.

Nunca mais eu vi um mimeógrafo, comentou a Thais.  Na escola também tinha muita pixação, ela continuou. Um professor gringo da psicologia social teve uma pixação na porta da sala dele de FORA COM A CIA. Ninguém nunca soube quem pixou. O professor desistiu de dar aulas lá e foi embora. Pro Recife, me parece.  Ou foi que disseram na época. O homem ruivo continuou lá. Os estudantes tinham certeza que ele era espião da ditadura.

A entrega de diplomas continuava, muito lenta. Cada aluna ou aluno em cima das plataformas no palco descia até à frente do palco para receber seu diploma. Esse ritual era entremeado de discursos e agradecimentos de professores e alunos que discursavam no meio do processo. Muitas homenagens. Longuíssimo. Thaís e eu resolvemos então sair e caminhar até o local da festa que ia acontecer depois da entrega dos diplomas. Eu tinha me comprometido a conferir se estava tudo certo na Canaã. A Canaã é uma dessas repúblicas antigas e tradicionais de Ouro Preto, onde seria a festa.

Subimos eu e Thais pela ladeira em frente ao Centro de Convenções, onde estávamos, e ela começou a me contar sobre a viagem que fez com suas amigas do departamento de humanas muitas décadas atrás.  As quatro foram primeiro de Belo Horizonte para Brasília e de lá para o interior do Maranhão, depois pra São Luiz e Belém. Ela me contou que a Belém-Brasília nem era toda asfaltada ainda e que a floresta vinha até quase perto da estrada. Dava pra ver do ônibus.

Foi de ônibus a viagem das quatro amigas, muito jovens ainda. Viajaram durante dias dentro desse ônibus, numa estrada poeirenta, no meio do nada. Thais me disse que Imperatriz, onde pararam pra dormir, era uma cidade muito pequena, com um punhado de serralherias.  Ali elas dormiram num hotel de beira de estrada, nadaram no Tocantins e combinaram de dividir dois PFs entre si. Dois pratos vazios e dois PFs pra dividir. Surgiram quatro PFs cheios na frente delas e um caminhoneiro, que pagou o almoço, disse com voz grave e muita autoridade: Come! Elas obedeceram na mesma hora.

Eu e Thaís continuamos nossa caminhada. Passamos pela Igreja do Rosário e fomos subindo a ladeira em direção à Canaã. Passamos na porta da pousada da Thaís e paramos. Ela queria pegar um casaco. Enquanto esperava, vi um grupo de estudantes descendo a rua e senti saudades. Depois da minha formatura no final do ano passado, comecei meu mestrado na Letras, em Belo Horizonte. Meu primeiro retorno às ladeiras da cidade onde morei por cinco anos foi este fim de semana,  pra formatura da Amanda.  

O incômodo da Thaís com o suposto infiltrado do exército lá atrás na época da faculdade parecia tê-la perturbado bastante. Será que era afinal a mesma pessoa? Será que na época eles tinham certeza que o cara era infiltrado? Ela voltou com o casaco e um cigarro, que acendeu na calçada.

Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje, disse Thaís.

Como é que é? eu perguntei rindo.

As coisas se repetem, ela disse. Nossa indolência permite.

Eu já tinha escutado aquela frase em um contexto de educação antirracista, mas não tinha entendido muito bem o significado, então ouvi e fiquei em silêncio.   

Sabe, ela continuou, aqueles anos foram muito difíceis pra todo mundo. Nessa viagem, passamos vários dias no interior do Maranhão, com um pessoal do CIMI, o Conselho Indigenista Missionário. Havia ali perto um assentamento do INCRA. Duas de minhas companheiras de viagem, do alto de seus 19 anos, acharam por bem fazer várias visitas ao assentamento, pra explicar aos assentados que eles eram explorados pela ditadura. De fato, eles eram obrigados a comprar tudo no armazém do INCRA e terminavam sempre devendo e tendo que trabalhar pra pagar as tais dívidas. Confusos, eles escutavam aquelas meninas desconhecidas e de fala estranha.

Nós estávamos hospedadas na casa do padre José, um amor de pessoa e pároco do lugar. Ele era casado com uma moça da região. Eu nunca tinha visto padre casado na minha vida. E nem tive coragem de voltar ao assentamento falar com os assentados que eles estavam sendo escravizados. Eu tinha pesadelos toda noite, dormindo na igreja católica, ouvindo os batuques do terreiro do outro lado da praça e o alto-falante da igreja evangélica no outro extremo da mesma praça. Ouvia também barulhos imaginários de tiros das guerrilhas.

Quando desembarcamos em São Luiz, minha angústia com a guerrilha e o perigo em Bom Jardim ficou pra trás. Adeus Bico do Papagaio, adeus assentamento, adeus indígenas tendo suas terras invadidas. Adeus tristeza. Praia e mar era tudo que eu queria. Nos hospedamos no dormitório da universidade, que estava vazio naquele período de férias.

Eu estava completamente envolvida na história que Thais contava.

No meu primeiro passeio na manhã seguinte, ela continuou, resolvi atravessar a pé a ponte que liga São Luiz ao continente. Depois do meio da ponte, vejo na outra extremidade um homem branco de cabelo ruivo, caminhando na minha direção. Aos poucos noto a barba ruiva, a estatura baixa. Era o espião do exército da minha escola atravessando a ponte, vindo na minha direção. Meu coração acelerou, minha paranoia e angústia retornaram com força. Dei meia volta e corri pela ponte na direção contrária. Voltei para o alojamento e passei o resto do dia trancada lá.

Já estávamos na calçada da Canaã. Eu e Thaís paramos um pouco pra recuperar o fôlego. Havia um banco em frente ao Restaurante Minas Gerais e nos sentamos ali por alguns minutos. Sempre achei a Thais uma pessoa fascinante. Professora de estatística nas Ciências Sociais e na Psicologia. Elegante e estilosa, era super cool como tia. Eu e Amanda gostávamos de conversar com ela, apesar de termos poucas oportunidades. Uma enciclopédia de assuntos sobre os quais não tínhamos tempo nem ânimo de conversar com nossas mães. Ela era um pouco estranha, às vezes, o que atribuíamos à idade dela, que já poderia ter se aposentado. Não tínhamos consciência alguma do nosso etarismo. Palavra que, aliás, eu aprendi bem recentemente.

Chegamos à República. O carro de Thaís estava estacionado na porta. Ela chegou cedo e estacionou ali, sabendo que ia ficar difícil mais tarde, na hora da festa. Thaís prefere andar a pé pelas ladeiras de Ouro Preto. Não gosta do trânsito, nem de como os estudantes dirigem pelas ruas da cidade. Subimos as escadas do casarão e entramos na grande sala de estar. Fotografias dos ilustríssimos alunos, desde os primórdios da fraternidade, cobriam as quatro paredes, descendo desde o teto alto da sala até quase à altura dos olhos dos visitantes.

No sofá de couro velho e descascado, Moreno, o cachorro da casa, brincava com uma bola de tênis e uma pequena tigela de plástico. 

 Deixei a Thais olhando as fotos e fui até a cozinha conferir se estava tudo certo. Alguém me disse que o gelo não havia chegado. Desci pela cozinha mesmo e andei até o pátio da frente, pra checar se estava tudo certo com os músicos. Me pediram para mudar uma caixa de som de lugar e se eu podia conseguir mais um microfone. Sentei no banquinho da horta e comecei a ligar pra resolver o assunto do gelo e do microfone. Diego, namorado da Amanda e residente da Canaã, apareceu pra me ajudar. Conversamos sobre o problema do microfone e ligamos pro pessoal que ia cuidar da portaria da festa. Só tinha um porteiro e precisávamos pelo menos mais um. Eu e Diego mudamos a caixa de som e arrumamos algumas mesas que estavam fora do lugar.

Fui até o portão esperar o motoqueiro com o gelo e ver se já tinha gente chegando pra festa. Notei que o carro da Thais não estava mais lá. Fiquei sem entender. Liguei pro celular dela, mas não atendeu. Subi rapidamente as escadas e entrei na sala, onde a havia deixado, olhando as fotos dos residentes da república. Não havia ninguém na sala.  Procurei na cozinha. Ninguém viu. Conferi o banheiro e os quartos. Nada. Moreno, o dog da República, continuava no sofá, brincando com sua bola. No outro extremo da sala agora havia um gato. De repente, um choque. Sobre uma poltrona menor, no final da sala estava a câmera do fotógrafo ruivo, agora careca, o provável infiltrado, o fantasma stalker da Thaís.

Não foram feitas fotos oficiais da festa. Somente fotos de celular, feitas pelos alunos, amigos e parentes. Guardei a câmera no armário do Diego. Ninguém encontrou mais o fotógrafo. Já liguei várias vezes pra Thaís hoje de manhã e o telefone chama, mas não atende. Ainda não sei como contar essa história pra Amanda.  

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