Los Angeles, fevereiro de 2023
A noite desta quinta-feira foi marcada pelo fechamento de um caso que movimentou a delagacia terceira de Los Angeles. Conhecido como o Michael Myers dos millennials, Craig Ledbetter, de 39 anos, saía pelas ruas do centro com um facão e macacão jeans, cortando coques e rabos de cavalo de homens passados dos 40. Cabelos soltos eram poupados.
Natural do interior da Califórnia, ele disse à reportagem que estava aliviado com a prisão. “Rapaz, sou um soldado do senhor, recebi ordens Dele pra fazer o serviço e fiz. Mas cansa, viu? Comecei pela minha cidade, lá só tinha um cara pra cortar. Corri atrás, me escondi em canteiro, peguei umas três meninas sem cintura achando que era ele, até que consegui. Aqui em Los Angeles é chato demais, o tempo todinho cortando, corta, corta, corta. Eu me sinto feito um estagiário de salão, sabe? Tem dia que minha mão chega doi. Mas a palavra do Senhor é a palavra do Senhor, né? Ele mandou eu vim pra cá e eu vim. Agora acabou, Graças a Deus”.
Do outro lado, vítimas do agressor em série, como Noah James, DJ de 48 anos, lamentam: “Ela me atacou agressivamente. Serão anos pra atingir o mesmo comprimento e talvez uma eternidade pra retomar a autoestima”. Para cada um dos ataques, Ledbetter contabilizará até 18 meses de reclusão. Somente em fevereiro, foram 37. “Haverá consequências, dezenas de homens tiveram as suas vidas alteradas negativamente. Prevejo para eles períodos longos de terapia, hidratação e vitamina D3”, disse em entrevista o delegado Theodore Henry. Graças a homens como Henry, e assim como Ledbetter, a cidade hoje amanheceu aliviada.
Caruaru, agosto de 2024
Josias Andreato, empresário do ramo de vendas, correu 11 km atrás do Uber que levava a ex-companheira Giovanna Malaquias de volta ao trabalho depois de uma consulta que fizeram os dois à pediatra das crianças. A queixa do pai era a de que, durante os fins de semana, os meninos (3, 5 e 7 anos) não pregavam o olho. “Dá 10h da noite e eles tão feito o demônio da Tasmânia do desenho, sabe?”. Enquanto a mãe alegava que dormiam perfeitamente bem de segunda à sexta, período em que tinha a guarda dos filhos. “É rotina Josias, precisa aprender a fazer rotina com eles”. Josias alegava tentar, jurava de pés juntos fazer a higiene do sono, alimentar, manter o uso da melatonina e das vitaminas todas que eles tomavam quando na casa da mãe. “E a homeopatia? Tu tá dando a homeopatia”. “Aquela do xarope? Dou feito tu falou, de 6 em 6 horas”. “Entende dra. Fabiana? Esses meninos tomam esse xarope há anos, anos, desde que Joca tem 2. E eu ainda tenho que falar pra esse cara que tem que dar. Lembrar que a homeopatia é o xarope e a melatonina e as vitaminas são as cápsulas”.
Foi o resultado de um exame simples de urina requisitado pelo pai que levantou a suspeita. Teve a ideia quando Joca pediu a palavra na consulta anterior. “Mas pera, eu pensei que esse xarope era novo, o da casa de mainha é transparente, o da de painho é vermelho. Mais gostoso até.”
Giovanna até tentou negar, mas teve uma crise de riso quando Dra Fabiana, lambendo a melatonina e dando um golinho da homeopatia, soltou um “cara, genial”. Mandava Gatorade com groselha no frasco e rapadura nas cápsulas de de manhã e de de noite. Cada um tomava umas 6. Josias acabou não alcançando o Uber. Talvez os meninos tivessem conseguido, mas a mãe sapecou todo mundo no carro pra deixar na natação antes de ir pro escritório. E depois, ainda era quarta-feira.
Lincolnshire, julho de 2019
Aborrecido com a falta de talento para a edição fotográfica da polícia de Lincolnshire, Stephen Murphy, de 33 anos, foragido, sugeriu uma foto alternativa para o cartaz de procurado publicado nas redes sociais da delegacia de sua cidade. Ele foi convocado a depor no tribunal em 9 de julho para responder a acusações de roubo e faltou. Viu na última quarta-feira a publicação que pedia à comunidade que o denunciasse sob pagamento de recompensa. Com luz péssima e ângulo desfavorável, o retrato desagradou o ex-modelo. Além de enviar opção do seu agrado acrescentou um comentário ao post. “Escolheram a minha pior foto, e olha que passei 3 horas nessa delegacia. Galera nem pra escrever meu nome direito. Sei não viu…”
Recife, dezembro de 2022
Em audiência de conciliação e mediação da vara de família da cidade do Recife, Catiene Castro, uma das partes envolvidas no conflito, confessou se ver obrigada a tomar medidas mais contundentes do que as propostas pelo estado diante da negação de Leonardo Lessa, ex-marido, de assinar o divórcio que ele mesmo propôs. Comunhão total de bens. Faz 3 anos e a bichinha tá doida pra comprar um apartamento. A dentista de 45 anos entrou no Spotify (e no Netflix e na HBO e na Disney +) do ex e saiu clicando em tudo que é conteúdo, muita música do Capital Inicial e do Jota Quest, todas as comédia nacionais, especialmente as do Hassum, romancinhos adolescentes da Larissa Manoela, Dorama a dar com pau, ação do tipo Bad Boys, de preferência dublado. Agora isso de pouquinho, sabe? Pra não dar muito na cara. No instagram de Leonardo, ela deixava de seguir uma duas contas por dia, acrescentava 3, 4. A vida foi ficando feia, desinteressante, ele foi perdendo os aniversários dos amigos – que ninguém lembra, a gente vê mesmo é nos stories que o povo republica pra ganhar parabéns – depois os amigos. Deu uma deprimidinha. Entrou no Bumble, mas era uma galera esquisita, entrou com a mesma senha, né? Ele marcava de esquerda, ela ia lá desmarcava e clicava no não gosto de política. Entre otras cositas más. Vez ou outra dava até pra conversar com uma com um pouquinho menos ácido hialurônico na boca. Chamava pra casa, que não sabia mais o que tava acontecendo de bom na cidade. Aí largava um Spotify na caixinha de som, como fez no dia que conheceu a ex, “Voces del sur” pra tocar, que não tem quem resista a uma cantiguinha em espanhol. Do nada entrava um “Oh, baby me leva” do Latino, também obra de Catiene, se a mulher tivesse um pinguinho de noção, era a hora de alegar dor de cabeça e ir embora. A última que ficou, topou até dormir, mas acordou inchada de muriçoca. Recife nesse calor e a raquete que não funcionava por nada. Leonardo só descobriu que tava sem pilha quando a moça já tinha chegado em casa. Foi o último recurso de Catiene que também levou as do controle da TV, da balança e do aquecedor a gás que ele só vai descobrir quando o tempo esfriar um pouquinho. Assinou.
São Paulo, outubro de 2019
Saída do plantão de fechamento da edição de aniversário, a diretora de arte Juliana Costa tinha acabado de mandar pra gráfica o caderno especial, 101 melhores produtos para rosto, corpo e cabelo, quando se deu o ocorrido. Fez caber os patrocinadores e suas embalagens horrorosas, os importados, os da Natura, da Avon e os outros todos, o texto da editora de beleza que acreditava como se aquilo fosse a própria vida que ganharia Pulitzer escrevendo legenda de Bumbum Cream. “Não dá pra cortar uma vírgula Ju, desculpa. Tá perfeito isso”. Era o quinto dia de fechamento e não havia Bubum cream, olheira cream, cabelo oleoso cream, nem desodorante cream capaz de salvar a aparência da coitada. Chegou no prédio já pelas tabelas na madrugada e foi confundida com um zumbi que a mãe de Carlinhos da cobertura contratou pro aniversário de Halloween do menino. A mulher puxava ela pelo braço e ela só conseguia gemer balbuciando um “não sou eu, não sou eu”. Quanto mais corria, mais era perseguida pelos convidados que entraram numas de troca de papel, “pega o zumbi, come o cérebro do zumbi”. Voltou pra casa com cachê maior do que as horas extras da editora, gorjeta pela voz que a mãe contratante considerou altamente realista e não teve o chamado feito ao 190 atendido. “Galera tirando onda de dia das bruxas a essa hora”, comentou a atendente da polícia que trabalha em home office e vai comprar a revista e o Bumbum Cream.

