Coisa de amigo

por Américo Paim

Só eu mesmo: call-center dessa fábrica de doces muito estranhos e horríveis. Essa sala grande, limpinha, branca, sem janela, fria que só a desgraça. As doze mesas organizadas parecem um rasgo de chaveta. Isso me lembra meu último e, pra variar, fracassado emprego na oficina mecânica. Hoje é segunda-feira. De um lado, Damasceno Feijão, gente boa. Do outro, Dona Railda, toda trabalhada no atendimento. De frente, Silmara. Gostosinha… Uma hora dessa vou me jogar ali… Dez da manhã e meu saco já explodiu. Dormi mal ontem e não peguei ninguém no finde. Não tomei café direito e tá uma inhaca da porra aqui. Alguém tá se peidando todo. Toca o telefone. Nem “alô” tem. Pela voz, é um tiozão.

 

– Vocês não têm vergonha?

– Senhor, a gente só vende doce.

– Um engraçadinho?

– Esse eu nem conheço. É como um “casadinho”?

– Ô, seu palhaço, esse chiclete de vocês tem gosto de cu!

Observe a delicadeza. Devia meter resposta escrota, mas solto uma gargalhada boa, pra doer o ouvido do animal. Os coleguinhas me olham assustados. Véi, o cara vem na agrestia e cê quer paciência? Não tem treinamento certo. Aí me lembro daquela piada velha. Ah, cês conhecem…

– Que piada, seu verme?

– Não é sobre bicho, senhor. É aquela da maçã do amor.

– Tá me zoando?

– Calma, escute só. O sujeito tá vendendo maçã do amor, anunciando que tem gosto de boceta.

– Como é, moleque?

– Não entendi. É pra repetir ou não conhece o gosto?

Véi, o cara pira, me xinga de tudo que é jeito, mas já tá curioso, tá na cara que não vai desligar. Me ajeito na cadeira e volto pra piada. Minha cara nem arde. Ele até já esqueceu o chiclete, repare…

– Peraê, deixe eu terminar.

– Você não tem limite? – ele fala mais calmo.

– É massa, se ligue. Um cara se interessa e compra uma.

– E daí?

– Ele lambe a maçã e grita: “essa porra tem gosto de cu!”. Aí o vendedor fala: “vai virando, vai virando…”.

Irmão, ele ri alto pra porra. Se anima e me conta umas duas piadinhas safadas, tudo merda. Rio por educação, torcendo pra ele desligar, só que volta o assunto.

– Como é seu nome, ô, piadista? – ele pergunta.

– Cirino.

– Vamos trabalhar, Cirino? Esse chiclete sabor acarajé é um lixo.

– Véi, cê compra essa bosta e espera o quê pelamordedeus?

– Como é? Você vende porcaria e não tá nem aí?

– Eu não vendo nada. Ganho pouco pra ouvir chororô de cliente. Com fé, saio dessa porra logo.

A sala me olha. Quem não ri nervoso, censura. Foda-se. Peguei esse trampo pra pagar o aluguel, mas é muito louco, véi. Já teve peão que ligou com receita de caruru e abacaxi… Vai se foder. E o que pediu ajuda pra fazer bolinho de estudante pra namorada? Tem coisa melhor pra fazer com ela, não? E o que chorou porque o drops de vatapá não tinha o cheiro do que a avó dele fazia? Mandei tomar em lá ele. Porréessa? Duas semanas aqui e é só corretivo do supervisor. Num tenho paciência com esse bando de sem noção. O tiozão volta a me bater.

– Quero meu dinheiro de volta!

– Mermão, aqui é Bahia, pai. Tá pensando que tá nos States?

– E a satisfação do cliente?

– Oxe… E a insatisfação do empregado? Cê num tem noção, papá…

– Venha cá, isso aí é um hospício, é? Quero falar com seu Supervisor!

– Ah, fio, ele num vai querer não. Tá cheio de problema. O povo vive reclamando desse chiclete…

– Você é doido, desisto. Por que não muda de emprego, filho?

Eu já me perguntei isso mermo. Véi, já tentei tanta coisa… Passeador de cachorro foi um dos piores. Mordida de todo jeito e um salsicha morreu. Vacilei com a coleira e o buzão passou por cima. Quase fui linchado e o dono da empresa ficou feito bicho. E o trampo de ajudante no hospital? Me pegaram transando no armário de vassoura do segundo andar. A mulher gritou demais. Quem tava passando? O diretor… E quando peguei de ajudante de pedreiro e segurança num bar de noite, tudo junto? Vivia dormindo na obra…  Quase me concretaram dentro de um pilar.

– O que cê me sugere? – pergunto.

– Eu?

– É, meu tio. Fica aí só criticando…

– Eu liguei pra fazer uma reclamação! Tá louco?

– É o problema. O povo só faz reclamar. Num tem o que fazer?

– Ué, seu trabalho não é esse?

– Toda hora, todo dia? Ninguém merece.

– Mas se os produtos são horríveis?

– Oxe, quem mandou comprar?

– Olhe, me passe pra outra pessoa.

– Tudo ocupado.

– Pelo visto menos você, né?

– Cê trabalha com o quê, tio?

– Sou empresário – ele responde surpreso.

– Porra, aí! Me arruma um trampo!

– Não consigo imaginar você fazendo nada além de coisa errada.

– A gente pensa igual. Eu só preciso arrumar um jeito de ganhar dinheiro com isso.

– Você devia estar preso. Como trata um cliente assim?

– A culpa é da empresa. Faz essas porra que ninguém gosta.

– Chiclete de acarajé, biscoito recheado de efó, é meio estranho mesmo. Muita gente compra? – ele fala.

– Oxe, um monte de abestado feito você.

– Olhe, seu insolente…

– Véi, na moral, pra que cê foi comprar essas paradas?

– Fiquei curioso, quis experimentar – ele fala meio leso.

É por isso. Repare a cabeça desse povo. Misturar chiclete e acarajé? Cadê a baianidade? Só porque é modinha de Instagram. Já aguentei demais essa bagaça. Num vou aliviar. Pergunta decente eu atendo, mas se vier com putaria, mando tudo tomar no resto… Aí dou um conselho pro tiozão.

– Véi, tá leso? Arruma uma namorada, cachorro, samambaia, vai ver o jogo do Bahia…

– Não gosto de futebol.

– Tô dizendo… Só cai pra mim isso…

– E o dinheiro de volta?

– Rapaz, tem uma senhora na minha rua que faz uns trabalho forte aí, coisa garantida.

– Meu jovem, pare!

– Pegue no bumbum! – não resisto.

– Você é um desequilibrado! Resolva meu problema! – ele ri.

– Olhe, se eu levar mais um pro super, vou morder a boca. Preciso pagar o aluguel.

– Ah, eu conheço um amigo. Ele arruma um apê barato.

– Agora dei valor, tio.

– O nome dele é Mário, conhece não?

– Que Mário?

– O que te comeu no armário.

Largo ele lá rindo. Tiozão nível hard, véi. Que piada de merda. Vou mijar. Nessa altura do baba, todo mundo me olhando. Vou e volto devagar pra ver se ele desliga a porra do telefone. Não funciona.

– Inda tá aí né?

– Sou o cliente, lembra? Quero meu dinheiro. Não estou feliz!

– Quem tá hoje? Olhe meu caso – Geralda me largou e tá saindo com Eltonjohn. Ói o nome do cara, papá…

– Ela lhe trocou por um artista – ele ri. O que houve?

– Rapaz, eu num sei se eu digo… É um lance muito pessoal.

– Pode confiar. Quem sabe até lhe ajudo.

– Ela me pegou com a prima dela.

– Aí fica difícil.

– Tá vendo? Cê já tá me julgando.

– Veja que tem pouca coisa a ser favor – ele ri de novo.

Sempre isso. Repare que eu não traí. Foi caridade. A moça pediu, eu juro. É que cê num tá me vendo de perto. Eu sou bonito. Sou pobre e tal, mas todo organizado. Malho na academia de Tatu Bola duas vezes por semana. Cabelinho beleza. A fachada dos dentes é campeã. Num tenho bafo nem cicatriz de facada. Pego uma praia e trabalho certo na hora boa. Por isso que Sandrinha me procurou. Precisava transar. As amigas já não eram virgens. Tava incomodada a bichinha, lá ela já tava nervosa. Queria um conhecido. Me contou o problema e eu me ofereci de boa, falei que nem ia cobrar. Coisa de amigo. Fomo lá pro meu cafofo. Aí Geralda chegou de surpresa, véi, com calcinha nova pra estrear comigo, óia. Tentei contornar, sugeri um trio. Por isso tô com esse olho roxo. E Sandrinha continuou cabaço. Num deu tempo. Eu tava no começo, tal e coisa, queria ensinar certo pra moça.

– Entendeu o caso, tio?

– Sua cara de pau não tem limite.

– Véi, me diga, cê tem mulher?

– Isso não lhe diz respeito.

– Ó você errado. Lhe contei minha história e tudo…

– Vamos encerrar? Só quero meu dinheiro de volta.

– Isso de novo, véi? Quantos você comprou? Diga aí, vá…

– Uma caixa com quatro.

– Não tem assim uns parentes que não gosta, pra dar de presente? Um vizinho fidiputa…

– Que espécie de solução é essa?

– Oxe, é presente, ninguém sabe que num presta. Aliás, na moral, cê é baiano mermo?

– Claro que sim!

– E me compra um mandu desse?

– Achei a mistura interessante. Coisa moderna, diferente.

– É o quê? E o doido sou eu. Acarajé combina com vatapá, pimenta, cerveja. Com chiclete, fio?

– Você é limitado. Nunca vai entender.

Véi, ninguém come acarajé com açúcar. Nem vatapá, nem abará. Para tudo. Essa conversa toda só tá prestando porque já filmei Silmara olhando e rindo pra mim umas duas vezes. Ela sai na mesma hora que eu. Vai ser hoje, papá.

– Meu tio, repare bem, tô precisando de uma força. Pode ser?

– Tá louco? Tá bebendo? Eu preciso de solução!

– Seu problema num tem jeito e o meu cê pode resolver.

– Cirino, eu vou desligar e tentar de novo com algum colega seu.

– Tá vendo a ruindade? Podendo me ajudar…

– O que é que você quer? – fala, impaciente.

– Cê mora em apartamento? Tô querendo ficar com uma criatura hoje.

– É o quê?

– Uma coleguinha – falo bem baixo.

– Hein?

– Uma mulher, véi. Meu apê tá uma zona e eu quero voltar com Geralda, então num quero dar mole lá.

– Você é inacreditável.

– Ajudaê!

– Impressionante. Se eu fosse fazer isso, ia cobrar os olhos da cara, só porque é você.

– Rapaz, dinheiro num rola, mas a gente dá um jeito.

– Ah, tá. Como seria isso?

– Já provou a musse de moqueca? Coisa fina. Arrumo uma caixa, sem custo! Coisa de amigo.

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