Nárnia tropical

Nárnia tropical (de Carol Schettini) 

Não sei se gosto como as flores embaralham dentro do armário.

Cristina conversa sozinha. Tomás nunca escuta o que a mulher lhe diz. Cansado de mais um dia de trabalho, balança a cabeça não sabendo se em concordância ou para espantar o mosquito que rodava seu café com leite.

Preferia quando as flores ficavam uma em cima da outra, assim separadas por cores.

Cristina troca um molho por outro.

Do jeito que está, os buquês ficam trançados, caem quando puxo.

Tomás levanta os olhos para o guarda-roupa antigo, duas portas, gavetas embaixo. Cristina parada na frente, com as portas abertas, resmungando para as flores de plásticos enfileiradas no seu interior. 

Olha só! Cai tudo!

Algumas heranças são esquisitas. Um guarda-roupa velho poderia bem ter sido vendido na feira ou virado lenha em São João não fosse o apego da filha na lembrança da mãe. No barraco em que viviam não coube em canto algum. Foi desovado ao lado da geladeira para Cristina poder guardar as flores de plástico que levava todos os dias ao cemitério na esperança de perseguir as lembranças boas da época em que sua mãe ainda vivia.

Talvez, se eu arrumasse por cores. Já tentei. Misturou.

Assim que a mãe enterrou, Cristina foi ao Taguacenter e comprou dúzias e dúzias de rosas, buquês de flores do campo, girassóis, tulipas. Menos cravos. Cravos são agourentos, sua mãe sempre lhe dizia. Cristina levou sacolas de flores para casa e entupiu o guarda-roupa.

Como ela não trabalhava, começou a ir ao cemitério logo após o almoço. Levava um banquinho, um ramalhete, um livro, palavras cruzadas. Reparou que em alguns enterros vizinhos, nenhuma florzinha enfeitava os túmulos. Começou a perseguir enterros para ver onde podia encaixar uma margaridinha qualquer de plástico.

O problema foi o dinheiro, pouco. O marido trabalhava o dia todo em dois lugares para trazer o sustento do lar. Ela não podia se dar ao luxo de arrumar um emprego, tinha crise asmática se respirasse qualquer pó, além disso, por ter pouca instrução não arrumaria grande coisa.

Quando as flores ficavam arrumadas…

Tomás não aguentando mais a lamúria da mulher, apoia os cotovelos na mesa e, olhando aquele furdunço, começa a interagir de um jeito em que a boca mexe mas o resto do corpo fica empalhado como bicho em museu de história natural.

Só você mexe aí. 

Sei não, sei não.

Só tem nós dois aqui. Eu tô o dia todo na rua.

Acha que vem alguém?

Um bandido? Pra mexer em flor de plástico?

Pior que elas não somem.

Um bandido apaixonado?

Não ouviu? Elas não somem.

Melhor, você não gosta do armário lotado?

Eu nunca mais comprei nada.

Você fecha o armário?

Com a chave. Não vou colocar cadeado na madeira da mamãe.

Talvez seja um guarda-roupa mágico.

Mágico?

Tipo o filme de Nárnia. Os meninos entravam e iam pro gelo.

O guarda-roupa tem fundo.

Não estou falando disso. Tipo sementes. 

Sementes de flores de plástico?

Pode ser, vá saber.

Tomás espreguiça. Encosta a cabeça na mão descansando o passado na bandeja. Quando a conheceu, era tão vívida. Parecia um filtro de celular de cores vibrantes. Foi perdendo o vigor, hoje poderia ser um filtro antigo, vintage. Gostava de sair, ir ao parque, sentar em panos na grama, inventar histórias. De filme colorido de cinema passou para filme mudo em preto e branco.

Tem dia que acho que alguém me segue.

O bandido apaixonado?

Quando vou embora, antes de entrar no ônibus.

Você já viu alguém?

De longe, vi um homem. Usava calça e blusa de uniforme.

Muita gente usa uniforme. Eu uso uniforme.

Você eu ia conhecer.

Tomás passa as mãos com firmeza sobre os dois olhos, testa, trazendo o óleo impregnado do dia para os cabelos flor de algodão. 

Como pode saber que é o mesmo homem?

Parecia, né? Tava longe.

Quão longe?

Tipo eu aqui e você ali na parede.

Ela aponta a parede perto da porta, nem dez passos, talvez oito. Tomás se levanta e encosta na porta. 

Me vê daqui?

Perfeitamente. Enxergo bem, você sabe, não uso óculos.

Estou de uniforme.

Da mesma cor do homem.

Podia ser eu.

Não era, não era, tenho certeza.

Cristina confirma abanando a mão em frente ao rosto um pouco mais brilhoso ante a ideia do marido a espionando no cemitério. Ainda tinha ciúmes, será? Não trocavam olhares nem pegavam nas mãos. Nas poucas vezes em que se encostavam comiam as palavras por medo de dizer nome de outro.

Começa o jornal, Tomás não presta atenção. Tem muitos vídeos acumulados para assistir no celular. Cristina nem pisca.

Nossa, só tragédia.

Muda o canal.

Eu gosto. Dá pra ver como somos sortudos.

Tomás pensa na sorte em ter tantas dívidas e ainda por cima pagar prestações por flores de plástico. Não morrem, dizia a música. Não morrem desde que você não as desperdice colocando em túmulos alheios como se jogasse uma batalha naval, onde cada flor fosse um porta-avião, um navio de combate. Sem flor, só sobraria água.

Você acha que tem alguém atrás de mim?

Não sei. Você que viu.

Se eu sumir, você me procura?

Pode apostar. Vou seguir o rastro do cheiro das suas flores.

Quem sumiu no dia seguinte foi Tomás. Saiu cedo, não deu notícias depois do trabalho. Cristina tentou enviar mensagem no celular, nada. Uma espera infinita. Sentou para assistir jornal enquanto o esperava. Quando ouviu a chamada, cobriu a mão na boca para evitar que o coração fugisse de um corpo que já não lhe cabia. Um homem de uniforme caiu do ônibus. Nos braços, carregava um buquê de flores de plástico.

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