Roberto Efrem Filho
No interior sombreado da casa grande, Madalena arrasta móveis e o menino. Seu corpo magro de mocinha, retirado a pulso da adolescência, impulsiona uma força física difícil de precisar em ossos ou músculos, talvez na memória. Madalena move a longa mesa de cedro, seus doze lugares, a arca escura e o aparador, o canapé de madeira maciça e a namoradeira sob a janela que dá para o terraço. Evita, porém, a cristaleira. O sol vai alto naquele final de manhã de setembro, os jambeiros borram de rosa o terreiro defronte da casa e, Madalena conclui, aquela fragilidade envidraçada em nada lhe diz respeito. Enquanto o peso da velha mobília se desloca, Madalena a espana, varre chão e passa pano, troca as toalhas brancas de mesa e mantém um olhar diagonal sobre o menino, que se intercede entre os móveis como se fosse mais um deles, à espera de quem haverá de chegar.
Arlindo passou dos três anos e se inicia na fala. Em dias de faxina, quando o patrão avisa que virá, acompanha a mãe até a casa grande. Segue Madalena pelos cômodos, com seus carrinhos de boi e a resignação inelutável da criança que não pôde aprender a chorar. É nesta calmaria que Arlindo escuta o motor do carro e, sem decidir se busca a mãe no quarto ou o automóvel na rodagem, balbucia o nome do homem que se aproxima, “Afanho”. Madalena ouve o filho e se assusta. Nunca lhe ocorreu que Arlindo entendesse, que pudesse antecipar a chegada do patrão pelo dia da faxina ou pelo barulho do motor. Nunca imaginou o nome de Afrânio na boca do menino – que se levanta em direção ao terraço, corre pelo terreiro e chega à lateral do carro sorrindo, fingindo esconder-se no tronco do cajueiro. Afrânio salta do carro para a brincadeira. “Lena, tu viu um neguinho danado correndo por aqui?” Encostada numa das colunas do terraço, o frasco de água sanitária nas mãos, Madalena não responde. Vê o filho rir frouxo ao redor das pernas do patrão, que se agacha para acarinhar o cabelo liso da criança. “Mas olha quem apareceu! Eu já ia ficar com o chocolate todo pra mim”. Afrânio entrega a Arlindo um Baton Garoto que retira do bolso da calça. O menino se acanha de tanta alegria e, sem jeito, volta tropeçando para a mãe, quer mostrar-lhe sua pequena fortuna. “Diga obrigado a Seu Afrânio, menino. Deixe de maleducação”.
“Lena, fiz as compras que tua mãe pediu pra eu passar a semana. Tão na mala do carro. Tu arruma? O almoço demora?”. Madalena toma a chave do carro para apanhar a feira. “Demora não, Seu Afrânio. Mãe botou o feijão no fogo mais cedo e voltou pra casa, pra dar conta do serviço. Pediu que chamasse ela quando o senhor chegasse, pra acebolar a carne. Vou mandar Arlindo buscar, viu?”. O menino ultrapassava o cajueiro quando o braço direito de Afrânio contornou a cintura de Madalena, puxando-a para dentro da sala. “Tu acha ele parecido comigo, Lena?”. A língua do patrão se adianta à orelha de Madalena, que derruba a chave do carro sobre o assoalho e não responde. É que, assim como a anterior, esta é uma pergunta que nada interroga. Arlindo não apenas se parece com Afrânio. É um decalque do seu semblante. Madalena vê Afrânio nas maneiras de Arlindo, em como o filho pede comida, movimenta os olhos para o lado esquerdo quando procura sua atenção, fatiga-se ou se alegra. Afrânio está na pele mais clara de Arlindo, na textura dos cabelos, no castanho daqueles mesmos olhos. Agora está também em sua voz, “Afanho”. “Seu Afrânio, pare com isso. Mãe chega já pro almoço. Pare com isso, vá”. O homem não se detém. Leva Madalena à frente da cristaleira e, posto atrás da moça, admira seu reflexo na espelho da parede de fundo do móvel, após as taças de champanhe. Com a mão esquerda, Afrânio baixa a calcinha e sobe o vestido de Madalena, que se queixa de dor, mas se deixa penetrar sem maior resistência. Foi ali afinal, encarando seu rosto naquele espelho, que Madalena sentiu Afrânio dentro de si pela primeira vez, num assombro de calor e medo.
Estando a única televisão dos engenhos na sala da casa grande, era costume que os empregados mais próximos da família Siqueira viessem ao terraço para, sobre a janela, assistir ao Jornal Nacional e à novela das oito. Os pais de Afrânio não se incomodavam com os trabalhadores que se avolumavam no parapeito. Pelo contrário, Dona Ofélia encontrava sempre uma razão para encomendar a uma das senhoras um favor qualquer, a ceia a ser servida, a compota de doce de banana ou de jaca, uma ou duas doses da branquinha que viria da arca escura da sala de jantar para a mesa de centro, à disposição do Doutor Siqueira, seu esposo. Este, por sua vez, aproveitava essas noites para, a depender do noticiário, palestrar sobre um ou outro político e sempre, sem restrições, maldizer Miguel Arraes, quem contava – Siqueira bem sabia – com a admiração impronunciável de parte dos trabalhadores dos engenhos, “essa gente daqui que, antes da revolução, andou se interessando por negócio de Liga Camponesa”. Após a morte do pai, e com a distância deliberada de Dona Ofélia daquelas terras, que se repartiam em dívidas e conflitos judiciais que a constrangiam de vergonha e saudade do marido, Afrânio preservou o costume de receber os empregados no terraço da casa grande, nas temporadas em que vinha do Recife para cuidar das economias dos engenhos.
Numa dessas vindas, Afrânio deu-se conta de Madalena. Era março de 1975, a Rede Globo exibia Gabriela e, no intervalo comercial, a menina de Dona Josefa, a cozinheira de seus pais, cintilava diante da imagem iluminada em preto e branco, na noite funda de Gameleira. Afrânio arrastava os olhos sobre a moça, mas de uma forma que fez Dona Josefa corar. Estava ali o patrãozinho, herdeiro legítimo daqueles engenhos, percorrendo o corpo de sua filha, despindo-a, deitando-a nua nos lençóis que a própria Josefa dedicou-se a lavar. Foi assim que, alguns dias depois, Josefa explicou à filha que retornaria pra casa mais cedo, não assistiria ao final da novela, estava cansada da lida, carecia descansar. “Mas tu precisa separar o feijão, Lena. Pra depois deixar de molho. Cuida que Seu Afrânio é que nem o pai, só gosta de feijão do dia”. Madalena se retesou. Ela também percebera as agitações de caça do patrão, pressentia-o em posição de bote. Não sabia se o queria, contudo. Madalena mal sabia querer. Afrânio era um homem bonito, é certo, o filho mais bonito de Dona Ofélia. Mas desejava com violência, Madalena se acuava e afogava na água de uma boca cheia d’água. Por isso, no instante em que, a casa e o terraço vazios, Afrânio se levantou da rede e tirou de suas mãos um punhado de feijão, Madalena estremeceu e, apoiada na cristaleira, o rosto amparado no vidro à altura das taças de champanhe, sentindo Afrânio dentro de si, apavorou-se com o movimento dos seus olhos para o lado esquerdo. Madalena temeu o homem que, a despeito de dominá-la, ainda precisava de atenção.
