– Oi?
Duda se referia à massagem. Tinham um acordo os dois, quem tivesse dado a última ganhava a próxima antes da semana acabar. Era sexta. Não tava forte não, nem sei se dava pra chamar de massagem. Ele deitado na cama de barriga pra baixo, tênis e meia ainda, os pés pra fora do colchão. Ela sentada quase de costas, uma mão na altura das costelas dele, embora a dor fosse no braço, e a outra segurando o telefone, enquanto digitava com o polegar. Deixava cair, resmungava, pegava de volta, toda torcida. Massagem frouxa, sabe? Má vontade do mundo todo.
– A pressão. Tá muito forte a pressão?
– Tá. Tá foda – respondeu só na cabeça.
Na verdade, tanto fazia a resposta. Duda daria mais umas 3 mãozadas, 4 no máximo, alegaria dor no punho, recostaria no travesseiro e seguiria no celular entre risadinhas e “tu viu que absurdo!?, só que sem virar a tela do telefone pra mostrar nem o absurdo nem a piada. Isso era umas 10h30 da noite. As crianças acordadas ainda, ele não tinha nem jantado. O dia foi que minha nossa senhora. Hoje era integral da menor e a maior tinha natação. Às 6h30 tocaram os despertadores dos quatro telefones da casa, cada um com um toque diferente. Começou daí.
– Quantas vezes já te falei pra mudar esse toque, Caio? Sinos Tubulares?! Puxa vida.
– Oi?
– Se tocar mais uma vez…
Tocou, às 6h35, às 6h40, às 6h45 e às 6h50. O dele em Sinos Tubulares, o de Duda em À beira mar, o da menor em Ascensão Lenta e o da maior em Calmaria. Deu tempo de todo mundo tomar um Tylenol, agora banho e café da manhã não deu tempo de tomar não. Levantaram às 7h00 e o integral (a 45 minutos de casa) começava às 7h30. No carro, aprendeu, de novo, que “é preciso despertar com melodias simples, quantas vezes eu vou ter que repetir isso? Até as meninas já entenderam. Pior do que Sinos Tubulares só o Rádio Farol “. É que é padrão do telefone, mãe, a maior tentou. “Eu sei que é o padrão do telefone, mas desde quando teu pai segue padrão de qualquer coisa? É padrão chegar na escola no horário. Tu vai deixar tua filha na escola no horário, Caio? Não, né? É padrão nadar de touca. Tu lembrou de pegar a touca da tua outra filha? É padrão ser promovido de tempos em tempos. Tu foi promovido nos últimos 10 anos? É padrão ir na academia depois dos 40, mostra aí teu bíceps. É padrão passar no médico vez ou outra, fazer um hemogramazinho, tu faz?
– Bíceps? Oi?
“Tás me entendendo, Melinda?” Melinda era a maior. “Custa mudar? Puxa vida. Não quer toque igual, põe Constelação. Custa? Tem que ser melodia simples, baixa frequência, entre 100 e 120 batidas por minuto. É do sistema de ativação reticular da casa toda que a gente tá falando aqui, da regulação do estado de vigília de uma família, sabe? Custa?”. Deixou a menor, a maior e Duda cada uma no seu destino e chegou, como elas, atrasado no escritório. Padrão.
Ia pegar um nespressinho antes da primeira reunião do dia, mas o pote de cápsulas tava mais vazio do que o próprio estômago. Quando entrou na sala com um café de máquina, morno e doce, na mão, Carlos Eduardo do RH já tava no slide 6. Foi logo dizendo que “embora voltar slide seja um desserviço pra quem chegou na hora combinada, seria importante que Caio, que acaba de chegar, colegas, às 8h37, 37 minutos depois do combinado, porque 5 minutos é tolerável, até 10, o trânsito é punk, mas 37… enfim, que embora Caio tenha chegado 37 minutos atrasado, o slide 3 – pode voltar pro 3, por favor, Flavinha? – o slide 3 é importante, principalmente para Caio”. No slide 3 se lia: Política de boas práticas. Item 1. Café de graça, é café da máquina. Quer Nespresso? Traga a sua cápsula de casa; 2. O tempo de todo mundo vale tanto quanto o seu, 8h não é 8h15, nem 8h20. 3. Meta – melhor bater; 4. Prazo – melhor cumbrir; 5. Banho – melhor tomar; 6. Happy Hour – sentiu frio na barriga nos itens 1, 2, 3, 4 e 5? Então melhor não ir. “Entendeu, Caio?”.
– Banho? Oi?
Dos outros 11 slides de Carlos Eduardo, pelo menos uns 10 continham indiretas pra Caio; 10 não, 9, teve aquele sobre a qualidade de impressão do livro que tava na mão da Gabriela. Se bem que foi o slide passar e Carlos Eduardo já saiu dizendo “Gabriela operou o apêndice, todo mundo sabe, né? Te copiei no e-mail, Caio, lembra?”. Isso 10, foi, acho que foram 10.
– Apêndice? Oi?
O slide final tinha emojis de palminhas e balões de festa. Carlos Eduardo anunciou a promoção de Mário Neto que fazia dupla com Caio em projetos. Não, Mário Neto não seria substituído, nem substituiria ninguém. Os dois seguiriam fazendo juntos o que faz a galera de projetos. Também não sei dizer o que é, mas da promoção eu sei. Era meio que um passaporte pra Mário Neto poder dar ordem a Caio e, claro, ganhar mais do que Caio. Flavinha que pleiteava promoção há mais de ano, pensou na injustiça e chorou fingindo rinite. Caio pensou em Duda e sentiu uma pontadinha no peito. Uma pontadinha no peito e uma dor no braço. Era no direito, mas ele nem se deu conta. Já foi pensando em AVC quando o certo teria sido pensar em infarto. É que quando deixou Duda no trabalho, a menor no integral e a maior na natação, ficou tentando fazer muque no retrovisor. Daí que no medo de morrer, baixou a pressão, azulou o lábio, deu uma desmaiadinha. Mário Neto, bem líder responsável, head of projcts, topou levar na emergência, mas prometeu a todo mundo que voltava a tempo de comemorar a promoção, “Bora de Happy no Praieiro?”.
Caio ganhou pulseira verde quando apontou pro braço que doía e só conseguiu sair da emergência perto das 9h da noite. Mário Neto aproveitou que tava tudo meio bem, meio sob controle e foi-se embora nos primeiros 10 minutos ninguém sabe pra onde. “Quando tu tiver quase saindo, avisa que venho te buscar, mas se alguém do escritório ligar diz que tô contigo. Não esquece, visse? Tu anda meio Tedeaagazinho das ideias”.
– Verde? Oi?
Da triagem até o atendimento disse mais oi do que gente atrasada em velório de parente.
– Acompanhante? Oi?
– Sedentário? Oi?
– Circunferência abdominal? Oi?
Tudo oi de pressão. Só teve um oi que foi bonzinho. O de Flavinha que ligou perto do fim do expeiente pra saber se ele tava melhor “já fosse atendido?”. Comentou da reunião, “ele pega pesado às vezes mesmo”, perguntou se tinham dado algum remédio, sugeriu até um Praieiro na semana que vem pra repercutir a promoção do colega. “Sim, e Mário Neto, tá por aí? Carlos Eduardo quer falar com ele”.
– Mário Neto? Oi?

