Treinamento básico

Família. Um sistema complexo de relações, onde membros compartilham um contexto de pertencimento. Sangue e genética são honrados. Vivemos na prática, sentimos na pele. É a base. Dizem. Se é assim, minha família tem a base bamba. Educa nem sempre no bom exemplo, e quando há um bom exemplo, acha piada. Ou doença. Tudo regado a uma bela macarronada. Vinho, muito queijo, muito molho. Herança italiana digna de um roteiro do Mario Monicelli.

Os anos oitenta ainda não haviam passado da metade quando meu pai entrou em um consórcio de videocassete e foi o primeiro sorteado. Aparelho quadradão, prateado, mil botões, relógio digital e controle remoto (com fio de 3 metros!). O ápice da tecnologia. Quase os Jetsons. Quase. Boiando na onda da vanguarda, nem seu Oswaldo nem dona Jacqueline sintonizaram o entendimento de gravar na VHS a novela ou o telejornal. Quebraram uns paus analógicos e por fim determinaram que daquilo assistiriam apenas filmes alugados, e pronto.

Os vídeo clubes cobravam uma mensalidade que dava direito a retirar até três filmes por semana, renovados de três em três, até três vezes. Selecionados pelo título, as fichinhas datilografadas disponíveis em uma espécie de arquivador eram separadas por gênero e ordem alfabética, sem capa ou foto. A oferta era escassa, pouca opção entre fitas seladas, as oficiais, e as não seladas, pirateadas do Supercine ou importadas via contrabando.

Meu pai pegou no videoclube Loucademia de Polícia. O único cinema da cidade ficava longe e custava caro, e o filme, inédito para todos, pirou a ideia da molecada. Foi assistido, gargalhado, rebobinado, reassistido. Da metralhadora na delegacia ao videogame imaginário, do barbeador assassino aos peidos na lanchonete, todas as imitações do Larvell Jones deixaram escapar até uma mijadinha de riso no sofá caramelo. Couro sintético, zero problemas.

Na semana seguinte, no embalo do sucesso, meu pai pediu uma dica de filme semelhante. Acatou o conselho do cidadão que atendia os clientes. O mané, ou não percebia de nada cinema, ou deduziu que meu pai assistiria o filme sozinho. Garantiu que Treinamento Básico, também passado em um quartel, era muito divertido. Divertido, meu pai guardou bem essa palavra, suficiente para convencê-lo de que a próxima matinê estava ganha.

Uma enxurrada de bundas disputou a tapa um lugar na frente da tevezona de tubo para a sessão cinema em casa. Uma zona maior do que as tranqueiras entulhadas na estante. Baciadas de pipoca pularam das panelas. A imagem arrastou um bocadinho, o som por vezes desapareceu, ninguém se importou.

Começou.

Treinamento Básico. O tal filme.

CENA 1:

INT. SALA DE REUNIÃO DE UM QUARTEL MILITAR – DIA

A câmera se move pela sala de reunião decorada com mapas militares e retratos de generais. Um grupo de personagens excêntricos se acomoda ao redor da mesa oval.

O general, um homem robusto de meia-idade, veste uma farda verde oliva com detalhes dourados e distintivos de patente. Entra sério, autoritário, muito bravo, seguido por um oficial mais jovem, desastrado e trapalhão.

General:

(aos demais presentes)

Soldados, temos uma missão importante a ser cumprida!

Até aí, beleza.

Entra em cena a secretária. Uma mulher extravagante. Penteado poodle volumoso, vestido curtíssimo, andar rebolado contrastam com o ambiente militar.

Do nada, um enxame de abelhas avança pela janela, causando um alvoroço.

Secretária:

(grita abanando o ar)

Abelhas! Não gosto de abelhas!

Uma abelha furiosa pica a bunda da secretária. Alucinada, ela sobe na mesa de reunião e arranca a roupa. Fica pelada da silva. O general, o oficial mais jovem e três ou quatro militares já sem a farda, de espadão em riste, estão prontos para a batalha. 

Então.

Agora imagine o locutor da Sessão da Tarde narrando a chamada

Um filminho da pesada vai meter essa família em uma grande confusão!

Meu pai correu com os braços abertos em direção a tela

Opa, opa, melhor tirar isso aí.

No videoclube havia sim, uma seleção de filmes adultos. Meio mixa, nada comparada aos catálogos das locadoras que operaram no período compreendido entre a era pós videoclube e a pré Blockbuster. Todo bairro tinha uma locadora. Toda locadora tinha a salinha. Da locadora chique à furreca, a salinha 18 + estava lá, pintada de preto, como se não quisesse chamar atenção, e de onde sempre um constrangido saía, assobiando ou suado. Quando tentávamos entrar alguém gritava do balcão que o lugar era proibido. No videoclube, a baderna do tudo junto e misturado passou para o lado de cá a pornochanchada trash que devia ser uma provável sátira (ou não) do regime militar.

Pior. Meu pai apertou rápido o eject sem dar o pause. Meu irmão, que dominava o controle remoto (com fio de 3 metros!) insistiu no play. No vainãovanãofoi, a parafernalha titubeou, deu duas voltinhas e uma cambalhota. A sala foi dominada pelo terrível som da fita enrolando. A VHS teve morte súbita. Coitadinha.

Danou-se tudo.

Seu Oswaldo e dona Jacqueline apelaram para o manual. Não explicava nada sobre tripas de VHS embrulhadas no intestino do aparelho. Não havia o que fazer, apenas um número para ligar.

Meu pai, na figura de chefe de casa e resolvedor de problemas, fez a ligação. Demorou horrores para ser atendido. Tenso, pedia silêncio, nem musiquinha de espera havia. Minha mãe embirrou no quarto. Enquanto ele amargava ser jogado do colo de um atendente para outro, minha mãe abstraiu que o telefone da sala estava ocupado e pegou a extensão, provavelmente para reclamar com minha avó.

O barulhinho da retirada do fone do gancho fez seu Oswaldo deduzir que a dama do PABX havia ressuscitado do limbo. Explicou afoito a situação, sem imaginar que era dona Jacqueline, sua digníssima esposa, do outro lado da linha.

(Oswaldo) Então (…explica o melodrama…) é essa a situação.

(Jacqueline) O senhor leu o manual?

(Oswaldo) Não há instruções sobre como preceder nesse caso.

(Jacqueline) Desculpe, me parece que o senhor não leu o manual.

(Oswaldo) Eu disse que li o manual. E não encontrei o procedimento.

(Jacqueline) O senhor é médico?

(Oswaldo) Ahn?

(Jacqueline) Essa palavra, procedimento. Se não é médico, devia consultar algum.

(Oswaldo) Ahn?

(Jacqueline) O senhor usa óculos?

(Oswaldo) Ahn?

(Jacqueline) Mal sabe ler, também não ouve bem, é burro mesmo.

Para melhor entendimento deste texto é preciso entrar na intriga dos bastidores do melodrama familiar:

  1. Jacqueline, minha mãe era atriz e sonoplasta.
  2. Oswaldo, meu pai estava com um quadro de excesso de cera impactado no ouvido, o que causou uma obstrução no canal auditivo.
  3. O casamento deles estava em crise. Seu Oswaldo havia se engraçado com a Regina, minha professora de inglês. Saquei tudo e contei mesmo. Achava minha mãe linda, hoje percebo que ela era a cara da Juliette Binoche. Inteligente, determinada e manobrava o carro bem melhor que meu pai. A Regina, uma folgada. Dentuça, falava cuspindo, uma cópia feminina e mal passada do Sidney Magal. Se oferecia para meu pai levá-la de carona, quando ele vinha nos buscar na escola. Eu e meus três irmãos tínhamos que ir embolados no banco de trás do fusca.

segue…

(Oswaldo) Ahn?

(Jacqueline) Não sabe ler, também não ouve bem é isso?

Nesse momento, a atendente do serviço técnico do videocassete retoma chamada. Aditivando a cena, a ligação estava chiada

(atendente) Boa tarde, no que posso ajudá-lo?

(Oswaldo) Pode começar por ser educada e fazer o seu serviço direito.

(atendente, voz distante, mais firme) Certo… o que aconteceu?

(Oswaldo) Eu já expliquei o que aconteceu.

Minha mãe continua na extensão.

(atendente, voz distante, mais alta) Deve ter sido para outra atendente. Poderia repetir, por favor.

Meu pai irritado. A sala de casa tomada pelo falatório dos meus amigos acompanhando a novela.

(Oswaldo) A VHS ficou presa dentro do equipamento. Já tentei puxar, igual as cassetes, mas a fita continua presa.

Minha mãe volta ao triângulo telefônico.

(Jacqueline) Era uma fita virgem?

(Oswaldo) Não, era um filme.

(atendente, voz distante, mais alta e preocupada) Senhor, eu não perguntei isso.

(Jacqueline) Era um filme alugado?

(Oswaldo) Isso faz diferença?

(Jacqueline) Muita. A fita inserida no videocassete passa por uma química que esmiuça as imagens assistidas através de um cabeçote e o som original com o engenho da tecnologia. Tudo fica retido no interior do aparelho, como um inconsciente turbinado.

(Oswaldo) Ahn?

(atendente, voz distante, um tom mais firme) Senhor, tem outra pessoa na linha.

(Jacqueline) É a tecnologia a serviço da humanidade, para o bem e para o mal. Como a cera que o senhor cultiva na orelha. Misturada com o catarro do nariz se transforma em cimento de vedação e deixa a inteligência obsoleta ao ponto de não compreender um simples manual. No caso, preciso saber o título do filme.

(atendente, voz distante, dois tons mais firmes) Senhor, me escute, é ligação cruzada.

(Oswaldo) Um filme se chama Treinamento Básico.

(Jacqueline) Mas é um filme pornográfico!

(Oswaldo) Eu não sabia. Aluguei por engano, não passei dos primeiros minutos.

(Jacqueline) Me engana que foi por engano.

(Oswaldo) Juro que é verdade.

(Jacqueline) Não se faça de santo.

(Oswaldo) Não passei dos primeiros minutos.

 (Jacqueline) Só colocou a cabecinha?

(Oswaldo) Ahn?

(atendente, voz distante, aos berros) Senhor, isso é um absurdo, vou transferir a ligação.

Meu pai desligou.

a seguir cenas do próximo filme alugado.

(Glaucia Faria)

Glitch no signal. Retro VHS effect. Pixel digital noise on black background. Old video template. Glitched lines noise. Old tape concept. Vector illustration.

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