Motel Landau

Boca vermelha é coisa de puta, e Simone bateu a porta na minha cara.

Sua monga, devolvi na lata, chutando a amizade.

Voltei chorando. Infringi a regra número um de casa. Valia para meu irmão, valia para mim: brigou na rua, resolva na rua. Sentado em uma poltrona larga, de veludo e madeira branca, sob a luz do abajur com cordinha, meu pai pousou o livro e disse apenas:

Se liga, darling. Pare de andar com a jacu.

Seu Osvaldo era culto, curto, grosso e prático. Segundo ele, ateu praticante.

Eu era amiga de Simone jacu porque sim. Vizinhas, força do hábito. Cidade do interior, minúscula, sem opção. Há um ano, nos divertíamos desenhando e costurando roupas para bonecas, embora eu tivesse apenas uma Susi descabelada, maquiada de canetinha. Nós, e a irmã menor de Simone, Lea, outra jacu. Asmática, roliça, olhuda, sempre à espreita, com um sorrisinho cínico de dar medo.

A mãe tolerava a amizade das duas comigo porque sozinhas as filhas brigavam. Sem outras colegas, elas pouco iam à rua. Nunca foram a minha casa. Não frequentavam outro lugar que não fosse a igreja. Eu, nascida sem berço religioso, nem batizada fui. Talvez por isso só brincasse lá quando seu Tonho não estava. Ou seja, sempre. E mesmo ausente, tudo proibia. Dona Janete jacu me recebia retorcida, de cara e camisa fechada, coque preso em redinha e uma energia nefasta que secava até plantas. Miserável em pequenos gestos, servia um copo cheio de café com leite para as filhas, o meu, com menos da metade. Não ouvia música, não assistia novela, não lia revistas, maldizia a falta de recato. Pregava entredentes que o marido é o responsável pela cabeça da esposa. Na minha cabeça passava um filminho tosco e estereotipado do homem arrastando a mulher pelos cabelos para dentro da caverna.  

Seu Tonho era estranho. Dissimulado, como tudo na casa. No quarto de Simone havia somente uma cama. Lea tem pesadelos, prefere dormir com minha mãe. Emendava na desculpa furreca a justificativa de que o pai morava em São Paulo porque era um dos donos do Playcenter. Uma idiotice que se sobrepunha a mentira. Mas a desonestidade pachorrenta deixava não só a mim, como a todos da rua, com uma pulga atrás da orelha: apesar de eles andarem de ônibus, um carrão reinava na garagem a céu aberto. Coberto por uma capa encardida, a molecada pirava ao levantar a ponta e tocar o mesmo modelo do automóvel que conduzia o Presidente da República. O Landau era o enigma da rua.

Com 13 anos, colei no rastro da turma mais velha. Simone, sem viço ou graça, continuava com a personalidade indefinida, vestida como uma beata domingueira.

As inscrições para o cursinho da crisma do ano de 1988 foram abertas. Um ano inteiro, todos os sábado à tarde. Formação coordenada, veja só, por dona Janete. Encasquetei participar.

Mas mãe, todo mundo vai!

Tive meu argumento barrado no clássico

Você não é todo mundo.

Não por isso. A igreja ficava perto de casa. Duas quadras, ladeira abaixo. Ia encontrar a turma no intervalo e na saída. A presença assídua, neutra, não vinculada a religião, me rendeu um cargo. Uma espécie de secretária do cara mais popular. Claudinho tinha 16 anos, várias revistas Playboy e outras de mulher pelada. Nato empreendedor júnior, ele alugava as ditas para os coleguinhas desesperados. Responsável pela gestão do vai e do vem, e do controle dos pagamentos da startup analógica, também fazia parte do meu job conferir se a publicação retornava intacta, sem páginas coladas. Importância reforçada, para mim inocente. Não materializava o real significado. Descobri rapidinho.

Foi num desses sábados espertos, que seu Tonho, sumido há semanas, deu o ar da graça. Apareceu na Igreja, de sopetão e pileque, do jeito que o diabo gosta. Bradando aos céus, reclamou de tudo, xingou a todos. Não poupou ninguém, nem minhas sardas, nem meus pais.

Sua banana pintadinha de merda filha de comunistas.

Depois tombou, embriagado. O calção marrom de elástico frouxo deixou o rego a mostra e a pança esparramada. Uma cena pior que o inferno dantesco. Ao presenciar o vexame do pai, Simone correu para casa. Subiu a ladeira mais rápido que a sola da sandália aguentava. Largou o material da crisma em cima de um murinho. A amizade havia esfriado depois que passei para o lado dos mais velhos. Sozinha, parecia estudar muito. O inseparável caderno sempre apertado contra o peito, como a menina do anúncio do primeiro sutiã. Ela já usava sutiã. Eu não. Para os meninos, eu era a Tábua, e a Simone, a Raimunda. Feia de cara e boa de bunda. Só digo que anos depois, meu peitos cresceram. Boba ou não, fui devolver o material esquecido. Dona Janete me recebeu rude:

Não quero minhas filhas envolvidas com galinhas.

Boca vermelha é coisa de puta, e Simone bateu a porta na minha cara.

Sua monga, devolvi na lata, chutando a amizade.

Dane-se os cadernos da jacu. Escondi debaixo do colchão e fui jogar vôlei na rua.

À noite, bisbilhotei. Em especial, o encapado por um plástico xadrez azul, etiqueta do curso da crisma. Que diabos era aquilo? Confuso, amarrotado, alisado, batido, desmanchado, meu raciocínio surtou ao decodificar a mancha de texto, a letra miudinha da agora ex-amiga. Choque multiplicado página a página. Turva, rasa, de palerma Simone não tinha nada. Não um meu querido diário bobo e pueril.

Com o dinheiro roubado da mãe, Simone comprava revistas Nova e Ele e Ela. Copiava trechos picantes, provavelmente se desfazendo do original depois. Fora o batismo de sangue: a professora Guaracy se transformava em Putracy, a Patrícia em Putrícia e a Andréia, Putréia. Chamava a própria mãe de mongolóide, a irmã de retardada. O pai, um pão duro que trouxe gonorreia para casa. Sobre mim… digo apenas que tive vontade de comprimir sua garganta com força até arrancar a cabeça do corpo, depois trucidar com os pés costela por costela. Talvez até um pouco mais que isso.

Mas não gritei, não mordi, não puxei cabelo ou enfiei dedo no olho. Não movi céus e terra na força da raiva. Mostrei para Claudinho o tesouro averbado pela caligrafia de Simone. Lendo em voz alta, se ateve a outro pormenor. O Landau não passava de uma carcaça. Um ferro velho destrancado, sem valor ou serventia. Uma informação que fez o olho de Claudinho brilhar como ouro.

Na turma, casaizinhos se formavam. Me achando adulta, não passava de uma mascote. Apaixonada por Ivan, um bobinho cheio de espinhas, não era desembaraçada para me declarar. No esfrega-esfrega dos bailinhos de garagem, no amasso da música lenta, na passada de mão nos peitos, os hormônios borbulhavam. Inclusive os meus.

A hora do curso da crisma foi mais que perfeita. Com dona Janete jacu e suas duas jacuzinhas longe de casa e seu Tonho sabe-se lá em qual cu do Judas, cabulando aula, Claudinho e a namorada se meterem no Landau. Por um lado, um banco inteiriço, ambiente escuro, perfeito. Por outro, um forno, baixo, apertado, odor pestilento, sufocante. Meia hora, saíram os dois, ela com as mãos e os joelhos empoeirados, ele com sorriso besta na cara de santo do pau oco. A fama e a fila para rodar no carro cresceram. Claudinho armava o esquema e cobrava a segurança. Eu, no fluxo de caixa, seguia positiva e operante. Mesadas vieram abaixo. No advento da Zoomp, alguns negociavam até a roupa, entrando somente com o diabo no corpo. Uma geração de virgindades perdidas a uma velocidade impensável, a bordo de um Landau desprovido de motor.

Ivan me convidou para dar a voltinha. Nada mais do que uns beijinhos, mais engraçado que satisfatórios. Bati a cabeça no teto, os pés no volante, tive a impressão trançar uma dúzia de pernas. Não camuflei hematomas e arranhões. Justo na minha vez, deu merda.

Lea, a olhuda. Contou para Claudinho que estava a par de tudo. Quis uma grana para não dedurar o esquema. Claudinho jogou no meu colo a missão, resolva, ou conto para teu irmão que você entrou no Landau com o Ivan. Pedi para o Ivan uma ideia, uma ajuda. O fofoleto abriu o bico para um amigo, que fofocou para outro, que confessou para a mãe. No fim da linha, chegaram às orelhas ensebadas de dona Janete a notícia de que eu havia prevaricado dentro do carro do seu senhor marido.

Chovia horrores. O quiprocó não foi mais lamacento do que descoberta do estado do interior do Landau. Sangue, cabelo, porra, coca cola, catarro, sorvete, baratas mortas, até vômito seco havia. Dona Janete, toda encharcada, trovejava lavar a roupa suja alheia em público. Com olhos de incêndio e voz em chamas, desequilibrava entre ódio e desespero.

Tocou a campainha de casa. Meu pai nem se deu ao trabalho de abrir.

Darling, é a mãe da jacu.

Simone atrás, de mãos na cintura e ar petulante, protegida sob o guarda-chuva da mãe. Não tive dúvidas. Fiz um sinal de peraí, e voltei, abanando o caderninho. Milagre, Senhor! As jacus sumiram.

Pondo de lado os erros do meu comportamento ousado, sem emboscar castigo ativo ou passivo, meu pai disse apenas:

Se liga, darling. Dê um jeito de devolver o caderno da jacu.

No dia seguinte, acordei cedo e deixei o caderno na caixa de doações da igreja.

(Glaucia Faria)

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