Eu havia deixado algo para trás, havia me esquecido. Tentei lembrar, só que a cada tentativa as memórias iam se dissolvendo, não aos poucos, mas rapidamente, como pastilhas jogadas em um copo d’água. Duas horas depois, havia ainda uma certa estranheza no ar, mas aos poucos fui me acostumando. A atmosfera ao redor parecia ter entrado em um estranho normal. Era estranho e ao mesmo tempo não era. Acho que eu poderia dizer que os sons e cores aos poucos se tornavam estranhamente familiar. O idioma era o português e eu podia entender quase tudo que as pessoas diziam. Ninguém falava comigo. Falavam entre si, mas eu podia ouvi-los com clareza. Não sei quanto tempo depois, pequenos flashes começaram a aparecer no lado esquerdo, talvez dentro do meu olho esquerdo, ou talvez fora. Tentei não dar atenção e caminhei até o painel para conferir o horário e portão da minha conexão. Decidi tomar um taxi para o terminal doméstico, em vez de esperar o ônibus. O aeroporto estava muito movimentado e as pessoas estavam agitadas. Não aquela agitação habitual de aeroporto e sim uma movimentação diferente, com as pessoas parecendo mais alheias. Diferente daquele alheamento normal de aeroporto, era uma espécie de desatenção coletiva; não aquele normal causado por um cansaço de viagem, por exemplo.
No terminal 2, caminhei até o portão para embarcar no meu voo final. Dentro de 90 minutos, duas horas no máximo, dependendo do trânsito, estaria em casa. Uma mulher jovem entrou na fila preferencial, acompanhada de um senhor bem mais velho. Ele se apoiava em uma bengala de madeira e prata e ela manuseava o celular. A mulher tinha um rosto daqueles que hoje em dia se repetem harmonizados em premier e business class mundo afora. Cabelo longo, liso, com mechas claras, sobrancelhas grossas de desenho arqueado, cílios longos, lábios grossos e dentes de neon. No voo, sentaram-se do outro lado do corredor e observei a mulher com seu sorriso assustador. Seu acompanhante pareceu dormir durante todo o voo. Observei que o rosto do senhor de idade era de uma familiaridade muitíssimo estranha. No aeroporto de Belo Horizonte, ao recolher minha bagagem no carrossel, vi novamente o estranho casal.
As plantas e árvores na porta do meu edifício haviam crescido e enverdejado por cima do gradil da frente, do portão de entrada e dos muros. O motorista do Uber me ajudou a descer as malas e as colocou na calçada, ao lado do portão. Eu não conseguiria explicar a calma e o silêncio na rua normalmente movimentada naquele horário, no meio da tarde. O colégio em frente deveria estar em aula, mas estava silencioso e parecia vazio. Quantas vezes desejei as férias, ou o desaparecimento completo daqueles alunos insuportáveis, com seus motoristas abusados estacionando em frente às duas entradas de garagem do prédio, sem qualquer constrangimento e me achando muito estressada por reclamar que porta de garagem não era lugar pra eles estacionarem. Ali, bem em frente ao portão principal, era o lugar preferido deles para esperar os príncipes e princesas que vinham recolher às seis da tarde, no final das aulas.
Abri o portão e comecei a empurrar minhas malas pelo pavimento da frente, até à rampa que leva ao bloco dos fundos. É bom morar no bloco dos fundos, longe dos barulhos da rua e da escola, além de ter vista para o leste, onde ainda dá pra ver uma parte da Serra do Curral. A lua vai estar cheia hoje, pensei, e possivelmente poderei vê-la saindo por trás da serra.
Queria ver se finalmente ia poder escrever um pouco. É curioso que, quando comprei esse pequeno apartamento, não sabia que ele havia pertencido a uma poeta modernista. Descobri quando li no documento do cartório. Poesia é um troço difícil, não é mesmo muito a minha praia. Li muito Torquato quando era jovem, mas acho que era uma espécie de crush que eu tinha no moço. Li Rilke muitíssimo, outro crush. Li Shakespeare com um professor particular e achava bom porque era como montar quebra cabeça. Li Drumont, porque não tinha como não ler em Minas. Talvez tenha lido Henriqueta Lisboa na escola, mas não me lembro muito bem. Soube que ela teve correspondência intensa com Mario de Andrade, mas como adulta, nunca li nem a correspondência nem a poesia dela.
Um ruído estridente me fez recuar já no hall de entrada. Ao rodar a chave na fechadura, a porta do apartamento emitiu um grito de agonia. Dei um salto para trás e esbarrei em uma das malas, que rolou até bater na porta da vizinha. Se alguém me visse naquele momento, notaria minha face lívida. Pálida de susto, por causa da estridência do som da chave na porta, abri a saída do hall para o corredor externo. Respirei. O ar da tarde continuava estranho e calmo. Voltei à porta. Fui preparada para aquele som bizarro e gritante. Desta vez consegui abri-la. Lá dentro, tudo calmo. A tela solar abaixada protegia a janela de vidro, ao mesmo tempo que deixava ver o contorno das árvores da mansão abandonada, nossa vizinha. A janela da salinha de jantar, de madeira, estava fechada, com as venezianas abertas e protegia o apartamento do calor e da claridade excessiva. Perfeito, respirei, meio esquecida já da porta maluca.
Coloquei minha mochila na cadeira na salinha de estar e arrastei pra dentro as duas malas que ainda estavam do lado de fora no hallzinho de entrada. O apartamento da vizinha estava silencioso; o cachorrinho dela, muito agitado, não latiu, nem deu nenhum sinal. Estariam viajando? Fechei a porta do apartamento, terminei de entrar e andei até à cozinha. Abri as janelas de correr e conferi a lavanderia. Conferi o conteúdo da dispensa na cozinha. Tive hóspedes no período em que estava fora do país. O último hóspede, um visitante espanhol, não repôs o café. Quem sabe tinha algum pacote no quartinho das reservas e emergências, que eu deixo sempre trancado. Mas não tive ânimo de pegar a chave e tentar abrir o tal quartinho. Atravessei novamente a sala, entrei no quarto de hóspedes e andei até à varanda. Notei algo estranho no pequeno jardim da varanda. As plantas haviam crescido e enverdejado de uma maneira muito peculiar um pouco assustadora. Era como se tudo fosse igual, mas diferente. Difícil de explicar.
Voltei à sala, fui até o meu quarto e conferi que a cama estava feita, com lençóis frescos. Abri as portas dos armários e um ruído extraordinário tomou conta de todo o cômodo. Milhares de letras despencaram de dentro do armário e foram caindo no chão do quarto. Elas tinham textura e cor de uma crespidão sedutora, uma beleza e plasticidade aterradoras. A consistência provocava uma vibração em todo corpo, hipnótica e perigosíssima. Olhei dentro do armário e havia ali a beleza e o fascínio de um abismo. Caíram também palavras, cuja consistência era ainda mais atemorizante. Quando começaram a surgir frases inteira e símbolos de pontuação, saí daquele estupor, dei um salto grande e consegui chegar até a porta. Na sala, ouvi meninas que chegavam gritando. Ao mesmo tempo, passos caminhavam no assoalho, talheres batiam nos dentes, janelas se abriam, fechavam. Por alguns momentos meus músculos se congelaram e eu não consegui me mover. Não sei dizer se por segundos, horas, ou mesmo a eternidade, estive ali de pé ouvindo ruídos absolutamente aterrorizantes, as paredes estavam vivas e respiravam, tudo parecia ter adquirido vida, apesar de causar em mim um terror da minha própria morte.
As letras e palavras já se esparramavam de dentro do quarto para a sala. Algumas delas tocaram meu tornozelo e queimaram minha pele. A queimadura me fez saltar e investir para a porta. Saí, bati a porta atrás de mim, atravessei o pequeno hall e saí depressa para o corredor externo. Respirei ali por alguns segundos, atordoada. Ouvi passos na rampa da garagem, logo ao lado. Os primeiros sons humanos desde que chegara. Vi então ninguém menos que o casal que eu havia observado no avião. A mulher de face harmonizada com o sorriso de neon e o senhor que a acompanhava. Ele não trazia mais a bengala que tinha no aeroporto, mas sim um quadro, uma aquarela grande que segurava com as duas mãos. Outra vez uma luz forte surgiu não sei se dentro ou fora do meu olho esquerdo, a mesma sensação que tive no aeroporto, mas desta vez bem forte, pareceu sacudir meu cérebro. Senti uma espécie de vertigem e me lembrei que de fato conhecia aquele homem. Era um pintor, meu vizinho há muitos anos atrás, logo que me mudei para esse predinho. Só que ele faleceu no ano seguinte e, portanto, não deveria estar ali agora, subindo a rampa da garagem com aquela mulher harmonizada e seu sorriso de neon.
Eu devo ter corrido muito rápido e durante muito tempo. Passei pela frente do colégio ainda em um silêncio fantasmagórico, passei pelo infame Beach Tênis na esquina, também vazio e parecendo abandonado e continuei destrambelhada pela avenida do Contorno até começar a ouvir ruído de trânsito e finalmente sofrer um encontrão com um pedestre, um rapaz jovem metido num jaleco do Laboratório de Análises na esquina da rua Espírito Santo. Diminuí o passo, atravessei a rua, passei pela loja de ferragens e em seguida uma lanchonete, com gente dentro. Mais adiante, entrei na cafeteria do Hotel Mercury, sentei, pedi uma água e um café. Ainda estava vestida com minha jaqueta de viagem e minha bolsa com passaporte e meus cartões continuava atravessada sobre meu tórax. Fui até a recepção saber se tinham acomodação disponível. Enquanto caminhava até o balcão, no saguão do hotel pude ver novamente, no fundo do espelho, a face lívida. Nem o menor sinal de vida. Vertigem. Respirei, tirei minha carteira e documentos da bolsa e continuei caminhando em direção à recepção.
