Quando transpus o umbral meu corpo já não era corpo. Vozes sobrepostas se emaranhavam nos restos mortais da carne colapsada. Demônios repetiam frases terríveis e eu me vi diante de um tribunal de acusação e insanidade. Fui alertada acerca dessa consequência por todas as pessoas preocupadas com meu estado: a médica, o enfermeiro, minha mãe, os amigos. Nem pense nisso, não seja louca, a dor não dura para sempre, é pior depois.
Bullshit. O sofrimento bruto não é suportável. Estava tão bêbada quanto ciente do ato grotesco que iria cometer. Fraca e forte, liguei o automático, virei a chave e me tranquei no lavabo. No reflexo do espelho eu vi o inferno. Não é fácil olhar no olho do belzebu.
Minha desgraça era dupla. Há dias o cão tinhoso me atormentava, e como se não bastasse a agonia despertada pelo dito cujo, furúnculo é o polissílabo mais feio do dicionário. A cara do abcesso, dói até para pronunciar. Noves letras arrancadas a fórceps da minha boca toda vez que precisava explicar o porquê de andar com o braço direito levantado. Não imaginem a cena. Suspeito que o infeliz que batizou a infecção assim não provou desse suplício.
Buscava uma roupa para abafar na festa da Sheila quando percebi que o embrião do fim do mundo brotava no meio da axila. Naquela manhã eu já havia acordado estranha, mas não me achei com cara de doente. Não havia de ser nada, uma espinha, por maior que seja, estaria seca até a data da festa. Comprei um vestido de alcinha, tão caro quanto decotado. Tonta. O espelho inclinado do provador alonga a silhueta, a iluminação amarela atrás não faz sombra, eu parecia uma falsa corada com um tom de pele mais bonito. Malditos decoradores. A luz de farmácia do meu banheiro me deu um banho de realidade.
Juro que tentei de tudo. Compressa quente, cataplasma de papiparoba, tintura de altéia, pomada de arnica, emplastro de aveia, alho fresco, óleo de rícino. Pesquisando tratamentos alternativos descobri que o termo horroroso deriva do latim furunculus e significa pequeno ladrão. Incapaz de abortar o ladrãozinho que ao roubar as energias do meu corpo se desenvolvia vigoroso, resistente e a cada dia mais nojento, fui ao pronto-socorro febril e sedenta. Entrei no antibiótico.
Jamais esprema! disse a médica.
Jamais esprema! disse a enfermeira
Jamais esprema! disse minha mãe, os amigos, o motorista do uber, o balconista da farmácia, a caixa do supermercado, o motoboy, o estagiário, a cliente, o chefe, o diretor, a CEO da empresa, a manicure, o veterinário do gato, o gato. E sempre há um desentendido que desafina o coro dos contentes.
Se for espremer, me chame. Era a Sheila
Nas duas semanas indisposta recebi zero ois de Giuliano. Isso doeu. Uma falta que me fez perceber o quanto gosto daquele gatuno. De ermitã mono asa passei a galinha que voa, me montei e apareci supersônica na festa da Sheila.
Que cara é essa? Sem esperar a resposta, Giulianno tascou um beijo roto rooter na minha boca.
Está triste? Olha esse povo, a realidade é tão bonita, estou centrado na vida como não nunca estive, dei uma descida ao inferno que me fez muito bem, vem cá, me aperta, credo, tem um alien repugnante no teu sovaco, não posso com isso, dá licencinha, vou ali pegar um drink.
E saiu, zanzando como se andasse de patins. Cem por cento pancada, Giulianno é um besouro imperial que voa leve sem se importar em se debater nas pessoas, magro, magro, com um não sei quê de rude na afetação que atravessa todos seus gestos. Me senti arrasada. Outra humilhação na conta.
Na cozinha da Sheila uma Sagatiba dava sopa. Virei um copinho, virei dois, tomei coragem, passei a mão na garrafa e me tranquei no lavabo. No reflexo do espelho eu vi o inferno. Não é fácil olhar no olho do belzebu. O gole fatal foi no gargalo mesmo. Só eu e ele, era agora ou nunca, a hora do combate.
Eu, Gisela F., 40 anos, pustulenta e desprezada versus Ele, O Carnegão.
Primeiro, nos estudamos, trocando jabs e esquivas. Ágil e técnica, ataquei veloz com um direto rápido no rosto do adversário. A força bruta d´O Carnegão me pressionou com ganchos potentes de direita na cabeça que corroeram meu corpo todo. Não deixei barato. Calculei o movimento e desferi um direto poderoso. Contra-ataque veloz: o uppercut devastador d´O Carnegão acertou minha sanidade. Balancei, mas não caí. Recuperada da série de latejamentos enfiei sem dó nem sobriedade o dedo no olho dele, inaugurando uma sequência cirúrgica de cruzados de esquerda nominada sai deste corpo que não te pertence. Não sosseguei até arrancar O Carnegão por completo da sua axila de conforto. O impacto visceral jorrou pus e sangue sujo pelo ringue azulejado. Meus demônios internos explodiram diante do nocaute surreal. No chão, não me levantei nem depois da contagem de dez.
Acordei em um local escuro. Assim que meus olhos se acostumaram, percebi que o quarto era inteiro vermelho, uma pintura meio borrada, calorento e cheirando a sebo. A textura das paredes lembrava uma esponja gigante. Um licor gosmento desprendia delas, ora branco, ora campari, esfarelento quando seco. No ar, minúsculos pontos pretos flutuavam, como formigas amolecidas ou insetos peneirados. Presa no petit gateau das trevas, o jogral de vozes me torturava
Jamais esprema o FURÚNCULO
(não, essa palavra não!)
Extirpei meu furúnculo com o aspirador, quer ver a cicatriz? JAMAIS ESPREMA homem é assassinado alisando furúnculo da mulher alheia JAMAIS ESPREMA explode o coração do bebê furúnculo JAMAIS ESPREMA eu sou viciada em vídeos de furúnculos no TikTok JAMAIS ESPREMA trago seu furúnculo de volta em sete dias JAMAIS ESPREMA motorista desvia de furúnculo e mata quatro JAMAIS ESPREMA gangue do furúnculo apavora a cidade JAMAIS ESPREMA meu filho mamou no meu furúnculo JAMAIS ESPREMA extirpou o furúnculo e serviu de tira gosto JAMAIS ESPREMA Gusttavo Lima escreve canção para furúnculo JAMAIS ESPREMA JAMAIS ESPREMA JAMAIS ESPREMA.
Amada? amada? e essas carnes? você sumiu, nem deixou um post it rosa, menina, o que aconteceu, você está a própria figurante de um filme do Tarantino na época do baixo orçamento, o que você fez com o funiculi funiculá? vem aqui que eu cuido de você.
Funiculi funiculá? Só o Giulianno para me ressuscitar a risada. Meu gafanhoto magricela aflito me levou no colo para casa. Ele é um anjo.
(Glaucia Faria)

