Quando transpus o umbral, não era umbral nenhum. Era só o portão da república onde morei na época da faculdade, numa parte remota do Butantã. Eu estava com a idade daquela época e tinha cabelo. Fechei o cadeado do portão, me virei e passou uma viatura. Cumprimentei o policial com a cabeça e subi a rua. Ouvi a viatura manobrando e dez segundos depois o policial me apontava uma Glock pela janela e me mandava encostar a cara na parede. Tranquei o cu e tremi. O PM desceu da viatura e deu um chute no meu pé pra eu abrir as pernas. Patolou meu saco, vasculhou meu sapato e meu cabelo: sem flagrante. Ele me mandou virar e pegou minha identidade. E aí eu flagrei a lata mulata de Lima Barreto.
Não era uma máscara parda numa cara branca, era Lima Barreto, o próprio, um PM paulista. Olhou no meus olhos com seus olhos vidrados, sãos de raiva e de sangue.
“Tava tentando entrar na casa, ladrão?”, Lima Barreto disse. “Cadê o B.O.?”.
Foi o que me pareceu mais estranho. Um policial carioca diria cadê o flagrante.
“Eu moro ali. Essa chave é da minha casa”, eu disse. “Não tenho nada”.
“E por que cê tá tremendo?”, Lima Barreto perguntou.
“Porque eu tô assustado, senhor”, eu disse.
Ele gostou de ser chamado de senhor, mas não sorriu. Pegou minha identidade e entrou na viatura, que até ali parecia vazia. E da outra porta da viatura saiu outro PM. Branco, a farda de patrulhamento completa, a bandeirinha de São Paulo no braço, a boina cinza na cabeça, o colete a prova de balas cinza e uma gola branca enorme, sanfonada, que cobria todo o pescoço: era Camões, mas tinha os dois olhos (verdes, é claro).
“E aí, meu camarada”, Camões disse, “entrega o serviço logo. É melhor pra tu”. Ele segurava uma escopeta e falava com voz mansa.
“Eu não tenho nada, senhor”, eu disse.
“Nem uma pensão atrasada, nenhuma passagem, tatuagem?”, Camões perguntou.
“Nada, senhor”, eu disse e comecei a tremer menos.
“E tu faz o quê?”, Camões perguntou.
“Sou estudante”, respondi. “Aquela casa é uma república, eu divido com uns colegas”.
“Estudante”, Camões disse e colocou gentilmente a mão sem escopeta no meu ombro. “O que que tu estuda?”.
“Letras”, respondi e parei de tremer.
Lima Barreto saiu da viatura com a minha identidade na mão e uma expressão neutra na cara, quase de paz.
“Tá limpeza, Luisinho”, Lima Barreto disse pra Camões, “não tem nada na ficha dele”.
“Aí, Afonso, sabia que o neguinho é escritor?”, Camões disse pra Lima Barreto. “Que nem tu”.
“Que nem eu é o caralho”, Lima Barreto disse e rasgou minha identidade.
A cara dele tomou uma expressão de guerra completa e passou a tremer, de sua boca saía espuma. Olhei pra baixo e vi minha identidade em pedaços no chão. Olhei pra cima e vi Lima Barreto se debatendo. Seu colete a prova de balas cinza tinha virado uma camisa de força, também cinza, mas que foi clareando até ficar branca como a espuma de sua boca.
“Que nem eu é o caralho, ouviu?”, Lima Barreto gritou. “Eu sou cachorro louco, eu sou cachorro louco, tiozão”.
A mão de Camões, gentilmente sobre meu ombro, passou a me apertar com força e me empurrou pra baixo. Afundei e, quando subi pra recuperar o fôlego, estava no meio do rio Pinheiros. Lima Barreto já não existia, Camões continuava tentando me afogar. A farda tinha sumido, ele estava sem camisa e ensopado, a gola sanfonada seguia no pescoço e, no seu rosto, só um olho. Na sua outra mão, a escopeta virou um remo e depois virou um bloco de folhas soltas. Ele as segurava acima da cabeça, protegendo dos respingos de água cinza que eu levantava ao tentar sobreviver.
“A obra, Dinamene”, Camões gritava, “a obra vem antes do amor. A eternidade, entende?”.
Eu não tinha mais forças. Ia virar comida pra peixe, se tivesse peixe no Pinheiros. Ia virar presunto desovado, boiando junto com pneu e merda, o que sempre tem no Pinheiros. Logo antes de morrer, olhei para Camões e ele piscou pra mim pelo buraco do olho que faltava. E aí eu virei Camões, vi minha mão branca forçar um corpo pra baixo d’água. Achei que fosse aparecer o corpo de Sara, a quem realmente muito amei algum dia. O corpo que eu afogava também tinha a pele escura, porém mais clara que a de Sara.
“A obra antes de tudo”, eu gritava e empurrava o corpo. “Alma minha, parte de uma vez, porra”.
O corpo parou de se debater. Encostei o queixo na minha gola sanfonada e levantei a cara do defunto. O corpo que boiava era eu mesmo.
Acordei assustado. Estava deitado num chão cheio de bitucas de cigarro e latas de cerveja. A mão de uma mulher me sacudia. Era uma senhora preta, com roupa de faxineira. Ao sentir o toque, antes de olhar, tive certeza que seria minha mãe. Mas não, minha mãe era branca. A mão que me tocava num carinho, num gesto generoso de me acordar pra vida, era de Carolina de Jesus. Vi seu rosto e vi também um monte de rostos me olhando por trás dela, numa boate escura e escusa que tocam bate estaca.
“É, meu filho”, Carolina Maria de Jesus disse, “até você só soube me colocar no lugar da mãe preta”.
“Desculpa, dona Carolina”, eu disse. “Não sei no que eu estava pensando”.
“É isso que importa, o que a gente não sabe”, Carolina Maria de Jesus disse. “mas mesmo assim a gente pensa”.
Ela terminou de me levantar e sumiu no meio dos bêbados e noiados arrastando uma pá e um esfregão. Eu vi as caras das pessoas me estranhando e quando vi estava no banheiro, vendo a minha própria cara no espelho. Minha cara de noia eu não estranhei, sabia que tinha tomado algum coisa em algum momento mais cedo naquela noite, e logo depois comecei a achar que transpus algum umbral. O estranho não era a minha cara de noia ou a minha cara já velha, diferente da época em que fui enquadrado por dois PMs na rua da república em que eu morava, tão desgastada pelos anos de escrita em silêncio usando o nome de Valdemar Matutino. O realmente estranho era que, no espelho, por cima do meu próprio reflexo, havia uma cara toda branca. A cara não tinha nem boca nem olhos nem nariz. E a voz de Valdemar Matutino me soou na cabeça e através do espelho:
“Cogumelo, é? Você já não é mais um menino, Manoel. E ainda temos um último romance por acabar”.
Bati nos meus ouvidos, enfiei o rosto nas águas malditas da pia, enfiei o dedo na garganta pra tentar vomitar e repeti pra mim mesmo que a onda ia passar. Nessa hora, entrou um careca magrinho de calça de couro justa, cropped verde e amarelo e a pele mais clara que a minha. Era Mário de Andrade, que me olhava com pena. Mas, principalmente, com uma compaixão talvez até maior que a da mãe preta.
“Pode até ser que ninguém nesse mundo tenha caráter, querido”, Mário de Andrade disse. “Mas fingir que tem é ser seu próprio herói, entende?”.
Fiquei olhando pra cara dele sem entender porra nenhuma. Só pensava em como fazer aquela loucura passar. E aí passou um outro homem por mim, um coroa brancão, que me olhou por um momento e saiu do banheiro.
“Vai com ele, bobo”, Mário de Andrade disse. “Vai, eu sei que você quer”.
Sai do banheiro e o coroa brancão estava me esperando. Me puxou pela mão e saímos da boate, caminhamos pelo minhocão. Ele não me deixava me afastar, eu acabei desistindo, talvez caminhar e tomar vento na cara ajudasse a passar. Mas o aperto da mão dele na minha me deu uma agonia, puxei meu braço com força, pensei em jogá-lo do viaduto.
“Eu não te conheço, me deixa em paz, porra”, eu disse.
“Que história é essa?”, o coroa brancão disse. “Tá bom que faz muito tempo, mas é claro que você me conhece, Manoel”.
Eu me assustei, ele sabia meu nome. E logo o susto passou, porque eu o conhecia mesmo. O coroa brancão era Rubem Fonseca. Eu relaxei, ele voltou a pegar na minha mão e voltamos a caminhar. Descemos do minhocão na Praça Roosevelt. Passamos por um bar onde João Antônio fumava na porta e me acenava com um taco de sinuca.
“Aí, meninão”, João Antônio disse”, juízo, hein”.
Seguindo pela praça, cruzamos com um grupo de pessoas entregando panfletos sobre a volta de Jesus. Vestindo um terno vagabundo apertado demais, com uma bíblia embaixo do braço, Mano Brown me estendeu um panfleto:
“Ainda dá tempo de sair dessa vida e aceitar o Senhor, irmão”, Mano Brown disse.
Rubem Fonseca puxou a minha mão sem paciência e continuamos andando. Passamos por umas viatura estacionadas e achei que ele fosse me levar pra delegacia, me enfiar num xadrez e usar exatamente essa palavra, xadrez. Mas, ao contrário, ele abriu a porta de um prédio, depois de um elevador, depois de um apartamento. Transpus a entrada e me senti em casa. Ele me mandou tomar um banho, quis me dar água, remédio, chá.
Já eu fui invadido pela certeza que ele queria me dar. E, surpreendentemente sem surpresa, percebi num estalo que eu queria comer o Rubem Fonseca. Num estalo tão rápido quanto o primeiro, ele ficou sem roupa, eu também, um colchão japonês no chão, o saco cinza e murcho pra baixo, as pernas de varizes verdes pra cima, meu pau dentro dele.
“Eu sabia, Manoel”, Rubem Fonseca gemeu, “eu sempre soube que você queria”.
Ele foi ficando vermelho, levou minha mão até seu pescoço e me fez apertar. Obedeci, porque ele sempre foi meu mestre. Apertei, ele gemia, apertei, ele pedia mais, foi ficando mais vermelho, mais rosa, mais roxo. Eu não sei que cor eu tinha, mas não era uma cor triste.
Acordei com a voz de Valdemar Matutino na minha cabeça:
“Agora que você acabou o que sempre quis fazer, vamos terminar nosso último romance”.
Tentei me levantar, odeio dormir de bruços, o pescoço doía. Mas a cabeça, não. Nem sinal de ressaca, eu tive certeza que a onda tinha passado. Tentei me levantar e apertei um negócio mole. E aí outra coisa doeu além do ombro: olhei pra baixo e meu pau estava preso dentro de uma bunda. Olhei pra cima e vi o rosto cinza de Theodoro Piva. Olhei em volta e vi o mesmo apartamento onde, muitos anos antes, quando eu ainda podia escrever com meu próprio nome, e acordei com ele com a boca no meu pau. Tentei lembrar por onde eu tinha passado na última noite, tentei lembrar como tinha chegado ali, tentei fazer a voz de Valdemar Matutino calar a boca dentro da minha cabeça.
Tirei meu pau de dentro de Theodoro Piva, me vesti e saí. Transpus a porta do apartamento, a do elevador, o portão do prédio, a catraca do metrô, a porta da minha casa. Entrei no banheiro e esfreguei meu pau com sabão de coco e a esponja de lavar louça, com a parte verde mesmo, até esfolar. Aí abri a porta do forno, abri o gás, deitei lá dentro. Não tinha mais nada pra ser transposto, concluí. O maior umbral é a minha própria cabeça.
