por Américo Paim
O tempo virou de forma rara, mas não apressaram passos. Resenhavam sobre a noite. Pouco mais que três da madrugada e ninguém bêbado. Voltavam a pé para o bairro: “só umas quadras, qualé…”.
Alberto, o Maroto, ia à frente. Ruminava para si não ter ficado com ninguém, comparando com o fim de semana anterior, de ótimas recordações. Longos cabelos, presos em rabo de cavalo, barba desenhada, camisa realçando os músculos de academia. Não ligava mais para as sardas nem para a rua, alternando calçada e asfalto. Murilo e Rogério, ou melhor, Santinho e Coisa Boa, vinham barulhentos sobre suas conquistas, se achando. Santinho, não sendo da beleza, era o simpático, de conversa mole e matadora. Coisa Boa, o belo, seguia “pegando as mais bonitas”. Alto, rosto impecável, sorriso profissional, mãos e olhos habilidosos. Dênio, o Texugo, vinha atrás, devagar, pernas curtas e andar troncho. Achava ter bebido demais. A barriga saliente sinalizava algo e não era fome. Pararam ao primeiro estrondo. Tantas nuvens que não viram o relâmpago. Se olharam no segundo. Vieram gotas do tamanho de problemas. Correram.
Iam por um caminho novo, ideia de Maroto. Após um quarteirão sem abrigo, veio o terreno baldio, grande. Outro relâmpago e viram a casa. Uma trilha curta levava à modesta varanda. Ensopados, chegaram com risos de alívio. Chuva brutal. Ainda se enxugavam e sentiram um vento às costas, suave e de alguma forma convidativo. Viraram-se para a porta de madeira com acabamento rude, desgastada como o resto da construção. Ela se abriu estranha, sem ruído, revelando uma luz muito fraca, como de vela, mas fria, azulada. Adentraram, rangendo o piso meio podre.
Não havia nada além de quatro cadeiras sofridas e uma mesa de centro de formato esquisito. Sentados, falaram da estranheza do temporal, da quietude dentro da casa e do calor ali dentro, descombinado da noite, porém, bem-vindo. O lugar parecia desabitado. Tiraram suas camisas. Maroto, observador, teve uma sensação ruim porque achou que a porta se fechou sozinha atrás deles. Texugo comentou, desconfiado, que não havia janelas na sala. Apenas o barulho externo informava que a tempestade seguia forte. Sem sinal nos celulares, só as lanternas. Santinho foi atrás de água: “a ressaca chegou!”. Todos riram: que chance de achar ali? Foi à porta no fundo da sala, que se abriu sozinha, igual à principal. Era uma cozinha modesta. Sobre a pia meio quebrada, um copo com água, ainda suado, como se posto ali há pouco tempo. Ficou curioso, mas bebeu em goles grandes, ouvindo uma pancada metálica, distante, embora nítida. Quando terminou a última gota, sua garganta ardeu forte. A cabeça doeu agulhada, tudo rápido. Sentiu uma aragem fria envolver seu pescoço. Não maldou nada. Depois de festa e bebida, as coisas são esquisitas. Voltou à sala e falou sem pensar muito, meio que compelido.
– Coisa, preciso contar uma parada – todos o olharam.
– É o quê, Santo…
– Eu comi sua irmã.
Maroto foi ágil e impediu Coisa Boa de fazer coisa pior, só que um murro pegou bem e Santinho experimentou o empoeirado chão da sala. Texugo se assustou com a agressividade, mas em sua cabeça, aprovou.
– Como teve coragem? – ele gritou.
– Véi, só rolou um clima.
– Quando foi, canalha, traíra da desgraça?
– Tem uns seis meses. Foi só uma ficada, mermão.
O rosto mostrava a cólera em Coisa Boa. Ele pensava que a irmã tinha morrido virgem. Tudo tão recente. O clima pesou tanto que a chuva incessante e a trovoada forte pareceram leves. Maroto, com medo de coisa pior, propôs que fossem embora dali e logo. Ninguém apoiou. Coisa gritou sobre amizade fraca e trairagem. Santinho lembrou que a única regra era não pegar a mulher do outro. Maroto emendou: “irmã conta?”. A conversa estava sob controle até Texugo perguntar a Santinho se tinha sido bom. Por pouco não ganhou um olho roxo. Segura daqui e dali, voltaram às cadeiras, tensos. Texugo sentiu a barriga de novo. Precisava resolver seu problema.
Descartando a cozinha, ele foi na direção oposta, para um corredor. Logo no início, uma porta se abriu sem sua interferência. Era um banheiro, com cheiro estranho, mas em boa condição! Não se perguntou como aquilo era possível, aliviou sua situação. Subia as calças e ouviu um som agudo, duas batidas, altas o suficiente para lhe deixarem com um zumbido, que só parou quando sentiu uma pressão no peito, uma aflição, vontade de arrancar o coração fora. Foi intensa, só que breve, e lhe veio uma lufada polar em torno do abdômen. Voltou à sala, que era só silêncio. Falou agressivo, como se a língua ignorasse sua existência.
– Maroto, repare.
– Qual é? – retrucou o amigo, sem dar importância.
– Eu denunciei seu pai à polícia.
– É o quê?
– Eu liguei e contei tudo.
Os amigos seguraram Maroto, mas a pernada pegou em cheio e o estrago do murro certeiro foi sangue saindo da boca de Texugo, que rolou no chão sujo. O pai de Maroto havia desviado muito dinheiro da empresa em que um primo de Texugo trabalhava. O primo ajudou na manobra. Tinha dívida grande com o tráfico. O pai de Maroto não cumpriu sua parte. Sem pagar aos bandidos, o primo virou história, em pedaços espalhados pela rua principal de uma favela. Texugo, transtornado, fez denúncia anônima à polícia. O pai foi preso e o padrão de vida de Maroto e família caiu feio, por muito tempo. Voltaram às cadeiras. Ninguém falava. Coisa Boa, ainda mais estressado por aquilo tudo, saiu da roda. O papo de dinheiro lhe lembrou a prestação do apartamento, pendente. Estava sem grana. Foi ao corredor, passou do sanitário e uma porta se abriu suave à sua direita. Não resistiu ao convite da luz azul, fria e fraca. Um trovão brutal sacudiu a casa. Ele viu uma cômoda. Sobre ela, um envelope: dinheiro em cédulas. Colocou tudo dentro da calça e sentiu uma dor tão forte nas mãos que se ajoelhou no chão, em agonia silenciosa, querendo cortá-las fora. Ouviu três ruídos fortes, como se batessem dentro da sua cabeça com um metal. As dores enormes só melhoraram quando um vento congelante o arrodeou por segundos. Voltou assustado para a sala, quase sem controle, ávido por falar.
– Repararam que tá esquentando cada vez mais? – disse Texugo.
– Verdade – respondeu Maroto.
– Texugo, fui eu – falou Coisa Boa.
– Oxe, você o quê?
– Eu matei Jiló. Eu matei seu cachorro.
Texugo lançou seu sapato com violência e precisão, acertando a testa de Coisa. Foi para cima dele com socos e pontapés, ignorando suas significativas diferenças físicas. Atacou como um selvagem até serem separados. Texugo chorava, a baba de raiva escorrendo. Xingou Coisa Boa com ódio, e mal foi ouvido, por conta de uma sequência de trovões e da crescente chuva implacável. Ele matou à toa. O cão apareceu no jardim de sua casa. Ele, na garagem, manipulava venenos contra ratos e pragas, material da empresa de seus pais. Deu um petisco envenenado ao bicho, só pelo prazer de ver a reação. Enojado, Maroto foi ao corredor. Queria vomitar e estava com dificuldade para respirar. Crise de asma e ele sem sua medicação. Em desespero, entrou em um cômodo à sua esquerda, por uma porta que se abriu do nada. Havia uma mesa, um copo com água e um comprimido. Era seu remédio. Nem pensou. Bebeu rápido, enquanto ouviu quatro impactos que pareciam sobre uma bigorna, ensurdecedores. Caiu ao chão apertando o próprio pescoço, se sufocando, sem conseguir falar ou gritar. Quase perdendo os sentidos, um sopro gélido o envolveu e a agonia passou. Correu à sala. Estava possuído, disposto a qualquer coisa, mas foi surpreendido. Os amigos estavam nus. O calor inexplicável absorveu a sala, que se avermelhava. Ele também tirou a roupa. A vontade de falar tudo era incontrolável.
– Que porra tá acontecendo aqui? – gritou Texugo.
– Santinho, seu irmão não morreu de acidente naquele penhasco.
– Que papo é esse, Maroto?
– Empurrei ele lá de cima. Ele não me queria.
Santinho voou em Maroto e o esganou, gritando de ódio. Teria matado, não fosse o barulho forte como um trovão, dentro da casa. Parados, olharam ao mesmo tempo para uma escada que não estava ali antes, poderiam jurar. No topo dela, tudo vermelho, com uma fumaça. Devia ser dali aquele calor todo. Veio um cheiro forte e ruim que não identificaram. Desceu um homem alto. Seu olhar lhes travou de medo. Tinha em suas mãos quatro machados diferentes, em formato e tamanho. Passou por eles em silêncio, com elegância e desprezo. Foi até a mesa de centro e lá colocou as armas, que se encaixaram com perfeição ao formato da mesa, como peças de um quebra-cabeças, emitindo uma luz suave, fria, azulada. Fez-se silêncio.
A polícia encontrou quatro corpos nus no terreno baldio, dilacerados por cortes profundos. Sem pistas, rastros, digitais ou armas. As câmeras de segurança da rua não mostraram nada. Um mendigo se apresentou como testemunha: “passei a noite dentro daquele carro abandonado, ali do outro lado da rua”.
– Tava amanhecendo, dotô.
– E o que você viu?
– Um home alto, com um cachorro na coleira.
– O que mais?
– Tinha mais dois home com ele, um assim mais novinho. Ah, e uma moça.
– Onde foi isso?
– Ali (apontou o descampado). Sairo devagar de dentro da casa e sumiro lá na esquina.
Os policiais voltaram a contemplar o local. O mato alto, uma ou outra árvore baixa. Um vento suave, macio enganando o silêncio. Nenhuma casa.
