Relâmpagos

Relâmpagos era o nome da coluna do João Gilberto Noll na Folha de S.Paulo, em que ele publicava instantâneos narrativos sem antes nem depois. Na mesma época, no mesmo espaço – mil toques do lado do rodapé da página 2, que em geral era ocupada por crítica literária – , também publicavam ali Fernando Bonassi (que juntou os seus microcontos no Passaporte) e a poeta Ledusha. Bons tempos…

Neste livro Flecha (Editora 34) parece que a portuguesa Matilde Campilho expande os limites daquele seu poema mais famoso: “Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar. E isso diz muito sobre minha caixa torácica.” Neste livro, que é uma preciosidade, são diversas narrativas, das mais breves, do tamanho de uma frase, até duas ou três páginas. Em cada texto está embutida a busca pelo fugaz, pelo presente, pelo instantâneo, por aquele enredo que só a velocidade de uma flecha consegue capturar, bem no alvo.

A ideia de alvo, que também está presente no campo semântico da flecha, faz parte do livro: aqui não há espaço para digressões filosóficas ou devaneios líricos, e sim para a materialidade do fato acontecido. E a ideia de arco também se apresenta neste mesmo campo, com a corda do arco sempre retesada, pois não há também espaço para adjetivações verbosas ou detalhes inúteis: a ideia é ser preciso, tenso e teso como um arco prestes a ser disparado. O livro viaja por tempos, espaços e personagens – da antiga Grécia à Lisboa atual, de um vulcão a uma estação de metrô, de uma mosca a um personagem da Ilíada. Tudo motivado pela vontade de captura do instante. Como ela disse naquela famosa entrevista a Eric Nepomuceno, “o poeta não consegue salvar o mundo, mas pode tentar salvar ao menos o minuto“.

PROPOSTA

Pois este será seu mote: retratos imaginários de pessoas, animais, paisagens, gestos, incidentes.

Ao contrário de exercícios anteriores de microcontos, a ideia aqui não é elaborar séries nem concentrá-los em algum eixo temático.

A ideia é que você faça sua flecha viajar por lugares, espaços e tempos absolutamente diferentes uns dos outros.

Escreveu um bicho, escreva um lugar; escreveu uma pessoa, escreva um incidente; escreveu uma pessoa, procure um gesto. Busque o mínimo, a migalha, a minúcia, o detalhe, o que não chama a atenção de ninguém; busque o instante decisivo e também a narrativa fugaz cheia de significação.

Não explique, não se estenda, não procure entendimentos: tente o cerne da narrativa.

Não se preocupe com antes nem depois: escreva tudo no presente.

Busque a surpresa, a expectativa, o impacto, a sutileza, o paradoxo, o susto.

Junte o máximo que conseguir, de uma linha a vinte linhas, tudo junto em até 9 mil toques.

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