ficamos com o siamês vr2

MOTE: No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

1

Minha mãe me chamou: havia uma moça lá na frente da casa querendo falar comigo. Parei o que estava fazendo e fui atender. De longe ela parecia uma estátua encostada no portão de casa, uma mulher bem alta. Apesar do sábado nublado e um tanto frio, ela ostentava sobre o rosto óculos escuros.

Tinha uma bolsa de pano da Cairê e dela retirou uma fita-cassete da Basf. Queria que eu melhorasse a qualidade do áudio. Usava uma jaqueta de couro surrado e uma camiseta vermelha da Moranguinho. Seu cabelo tinha cor de ferrugem e estava preso com lápis, em um coque meio gueixa. Seios pequenos e culotes grandes feito uma Vênus pré-histórica. Não usava batom, mas tinha um brinco metálico, parecendo aço. Não olhava para mim enquanto falava, o que lhe dava um ar meio arrogante. Me deixou um tanto irritado, expliquei que não consertava mais isso.

2

Naquela época, a música era o ar que todos respiravam. Bom, barato e em todo lugar, de efeito imediato na cabeça, desculpa para reunir a molecada, desculpa para tomar uma. Toda casa tinha sua coleção de discos de vinil. Se não, haveria um rádio, radinho de pilha para acompanhar o futebol, clipes no Fantástico, gaveta toca-fitas para ficar sob o painel do fusca, dançar agarrado, fazer barulho, expressão de fé… a música daria um jeito de se infiltrar.

Comparar com o ar talvez seja o melhor, porque só notamos isso na sua ausência. Sim, eu sei, todos continuam ouvindo músicas. Cada um no seu fone, cada um na sua. Eu não sei o que a geração mais nova escuta. E eles não tem ideia de quem quer que não apareça na lista de sugeridos dos algoritmos. Todo mundo pertinho e distante: cada um no seu próprio mundo, ouvindo seu som, assistindo sua série, vendo seu filme. Não é mais um ambiente em comum. E se não for para unir… então não serve para nada.

Havia quem mantivesse uma coleção de vinis, mas a maioria era muito pobre – ou não tinha tanto espaço à disposição. A solução era gravar fitas-cassete com as músicas. Se você tivesse sorte, poderia ter um amigo com o álbum. Ou se você fosse um adolescente com tempo de sobra, poderia tentar pescar a canção numa das emissoras de rádio da época com seu gravador.

Pena que as emissoras gostavam de embutir vinhetas da estação ou a fala do locutor no meio da música. Rádio Cidade, 89, Jovem Pan, etc. Ninguém queria estragar a música que demorava tanto para pescar com a fita cassete. Mas as vinhetas não eram sempre no mesmo trecho da música. Então eu conseguia gravando e regravando, parando no ponto exato, eliminar esses trechos. Dava um trabalho do cão. No começo eu fazia pelo desafio. Depois pela amizade. No final, eu estava cobrando tamanha era a quantidade de pessoas que vinham falar comigo. Até uns coroas vinham me pedir para salvar uns Nelson Gonçalves e Germano Mathias.

Inocentes, Echo, Titãs, Dead Kennedys, Ira!, Exploited, Furacão 2000, Queen, Marina, Ramones… Hoje é só clicar e digitar. Ficou tão rápido que ninguém valoriza. O Legião já dizia, “Vendemos fácil o que não tinha preço”. Agora esse mundo acabou e quando vier o vazio, vão procurar o motivo nos lugares errados.

3

Foi por esse conhecimento de gravar e regravar e tal que conheci minhas duas esposas. Uma seria justamente essa moça parada no portão. Mas eu não estava com vontade de me envolver.

Sofria o curso de Engenharia (quem passou, sabe), mas continuava conhecido no bairro por fazer essas coisas de arrumar fitas. Naquele ano, porém, eu já estava envolvido com videocassetes, tentando consertar uns na raça. Estava menos envolvido com música e isso exigiria tempo, tempo que eu precisava para estudar: então recusei de início.

Na tampa da caixinha da fita estava escrito Mercenárias. Era uma banda punk de garotas de uns anos atrás. Ouvira falar muito de relance, não era muito minha praia. Expliquei para a moça – eu ainda não sabia seu nome – que não fazia mais esse tipo de edição. O povo andava correndo atrás dos Compact Disc, eu achava o som estranho, mas juravam que era a perfeição. Seria mais fácil para ela ir no Centrão procurar por lá o álbum, seria muito mais fácil e rápido.

-Não dá para ir ao centro.

-Por que não? Só pegar o busão até o metrô.

-Não dá.

A moça continuava empertigada diante do portão, mas sua expressão mudara para algo mais triste. Só então percebi que ela era cega. Me disse que foi a irmã quem gravou essa fita. Perguntei por que ela não pedia para alguém comprar o vinil antigo, ainda devia haver na Galeria do Rock, a Galeria do Rock tem tudo. Se bobear até já tem CD. Mas Leoni queria restaurar a fita.

-Minha irmã morreu ano passado. O gravador mastigou a fita e tem umas falas dela aí no meio. Não queria perder. Tem a voz dela dizendo que a música se baseia num poema de um velho louco antigo e outras coisas, só nossas.

Acabei ficando com a fita. Fui buscar caneta e papel para anotar o telefone e só aí soube o nome dela, Leoni. Eu fiquei no portão, reparando em seu tamanho, em como ela era quase gorda de tão grande. Fiquei ali vendo a moça se afastar com o seu toc toc de bengala, se escorando em paredes e testando cada degrau da calçada toda quebrada e irregular. Reparei nos calçados, era um par de botas de aspecto militar, bem pouco femininas. Hoje me sinto meio idiota, como não percebi que a moça era cega?

Me senti como um pai que deixa seu filho no primeiro dia na escola.

Quer dizer, não tive filhos. Mas se existir sentimento, deve ser um parecido.

4

Minha mãe me passou maior bronca. Devia ter ajudado a moça, ter levado até o ponto de ônibus ou onde quer que ela estivesse indo, uma casa de parente, não sei. Que tipo de homem é você que não pensa em ajudar a coitada da ceguinha? Eu até tentei amenizar o esporro, brinquei que ela não era uma ceguinha, mas uma cegona. Não resolveu, ela continuou muito brava, você tem que crescer, meu filho, nem sempre idade define se é homem. Minha mãe era desse jeito, achava que tinha que ajudar mesmo se a pessoa não pedisse. Se a pessoa quer socorro, ela que grite. Todo mundo tem boca. Seja como for, não consegui esquecer a moça. Menos pela chamada de minha mãe e mais por ela ser um tanto quanto imensa.

Já comecei com mulher alta, essa é a verdade. A primeira foi a clássica, num puteiro. Cada amiguinho se sentou num lugar do sofá e as meninas ficaram no outro do outro lado da sala. De longe, foram meio que escolhendo quem queriam e levando os guris punheteiros para os quartos. Ficamos nós dois, eu o gordinho e ela a girafona, cada um sobre sua própria almofada. Quando eu cansava de encarar as pernas dela, voltava a cabeça para o chão de tacos. Até que ela soltou um muxoxo, bom já que estamos aqui, vamos logo resolver esse seu cabaço.

E ela era muito mais alta que eu, muito mais alta que minha mãe. Apesar disso, me senti de volta a ser criança. Ela me puxando pelos corredores, os quartos estava quase todos de portas abertas, umas cortinas vermelhas e outras de miçangas. Por meio das frestas vi meus amigos com seus corpos desconjuntados de adolescentes, cada um com sua puta, uns rindo, outros tensos. De dentro de cada quarto, escutava músicas diferentes, velhas e cafonas, e uma se misturava a outra, tornando todas incompreensíveis. Enquanto caminhávamos ela disse seu nome, nome de guerra certamente, mas na época acreditei com toda fé: Clarisse.

Clarisse me levou ao último quarto e deixou a porta aberta. Ela me fez sentar na cama, um lençol velho, puído. Em cima de uma cômoda, havia um rádio e ela ligou em volume alto: Amado Batista se misturaria aos outros do lado de fora no corredor. O abajur tinha cor de carne, e o quarto ganhou ares de geladeira de açougue. Baixou minha bermuda do colégio e a cueca suada da Educação Física e jogou longe. Depois sentou num banco, pernas bem abertas para poder ficar perto e começou a me ordenhar com a mão. Eu estava mole, mas ela foi gentil:

-Relaxa. Vai ser gostoso.

A moça não notou que eu estava fixo na porta entreaberta para o corredor.

-Por que vocês não fecham…?

Ela parou, sorriu um pouquinho e interrompeu a punheta.

-É quando alguma colega apanha do cliente. Ela grita e nós todas vamos lá dar um cacete no bosta. Mas vou lá fechar para você.

Gozei rápido na mão dela e daí ela me fez subir de novo com sua boca cheia de batom. Ela me chamava de bebê e montou sobre mim, depois apertou meu pescoço com suas mãos de unhas longas e me olhou como se tivesse raiva. Antes que eu sufocasse, saiu de cima, ficou em pé no quarto. Depois me puxou como se eu fosse um dos sacos de grãos lá do mercadinho de meu pai. Botou minhas pernas sobre seus ombros e me chupou. Eu podia tocar o teto do quarto, espalmei e me apoiei nele para não bater minha cabeça. Do alto eu podia ver que não havia muito o que ver. Uma mala, bolsa, revistas de artistas, um pôster de Jessé. Gozei encarando a lâmpada apagada.

Depois que saímos de lá, os outros caçoaram dizendo que tinham deixado o traveco comigo. Não era um travesti, era uma mulher muito grande, posso garantir; se fosse a história seria outra. A morena era uma égua, uma potranca, muito melhor que a de vocês. Mas estávamos muito felizes e todos comprometidos uns aos outros com nosso segredo e a piada não durou muito. Para minha sorte.

Eu até tentei manter esse padrão: não era difícil encontrar garotas maiores que eu. Mas invariavelmente recusavam. Eu brincava dizendo que na horizontal não fazia diferença, elas riam, mas de nada adiantava. O problema não era eu, mas os outros e as outras. Como se precisassem demonstrar: sou protegida por esse sujeito, não é só um peguete, mas é meu guarda-costas.

Por isso vez ou outra se me sobrasse dinheiro eu voltava àquele primeiro puteiro, atrás de Clarisse. Foram poucas vezes e de pouca conversa. Perguntei se ela era do nordeste, mas nascera no interior do Paraná. Quis saber se gostava de break, funk e hip hop, se gostava de som de função. Ela franziu a testa e fez uma careta, gostava daquilo que tocava no rádio: Roberta Miranda, Nelson Ned e Almir Rogério. Talvez ela tenha simpatizado comigo, pois Clarisse me deu um conselho:

-Você é legal. Arruma fácil uma namorada. Não precisava ficar vindo só aqui. Depois você se acostuma e fica achando que todas tem que ser assim.

5

Bem que tentei cumprir a sugestão, mas não dependia só de mim. Um primo mais velho – e também um tanto pequeno – sugeriu que eu aprendesse a dançar, mulher gosta de quem dança, homem que dança sabe trepar. Mas eu era muito descoordenado, ia mal em todos os esportes; poderia montar e desmontar um rádio ou um controle remoto, mas era incapaz de acertar uma bola ao cesto.

Até o dia em que apareceu Eva. O nome curto; ela, não.

A galera frequentava a domingueira numa danceteria chamada Boom. A porta ficava lotada de adolescentes com roupas coloridas que ficavam ainda mais brilhantes sob o efeito da luz negra e do gelo seco. Descia maior renca dos bairros ao redor para dançar na pista. Ninguém ia sozinho, muita chance de aparecer os favelados do Trismegisto, os malucos do Voçoroca, os bandidos do Pindaíba, os psicopatas do Arame. Tudo carinha de criança, mas cada um sabia onde comprar soco inglês, nunchaku e canivete borboleta. E ainda poderia haver alguém maquinado na multidão.

As meninas também tinham suas próprias turmas. Não sei quem foi o articulado que puxou conversa com as amigas da Eva, mas o xaveco deu certo. Para mim, pelo menos. Em determinado ponto da conversa, notei que homens conversavam entre si e as mulheres entre elas, mas estávamos todos intercalados, um guri, uma guria, um e depois outra, e assim por diante, mas nós não falávamos entre os dois grupos. Quem visse de longe, pensaria que estávamos nos dando bem.

Eva era a maior delas, branquela, meio roliça e flácida, o cabelo cor de ouro sujo. Tinha um ar ingênuo de professorinha ou de freira. Perguntei se ela gostava de Duran Duran ou do A-ha. Ela gostava de Nego Véio, Blitz e Dr Silvana & Cia. Sinceramente, não acreditei que estivesse na minha. Mas logo os outros começaram a se arranjar e a se pegar e eu percebi quase tarde demais que ela estava a fim mesmo de mim. Beijava esquisito, a língua indo e vindo, como se sentisse medo que eu pudesse morder. Eu a imprensava contra a parede da matinê, os outros começaram a rir, parecia um chihuahua acuando um dinamarquês.

Eva era legal, mas meio boba, um pouco como as bandas que gostava. Da primeira vez, achei que senti gosto de menta, pensei que era por conta de licor. Mas ela tinha esse perfume constante de coisa doce, enjoativa. Eu a achava meio ridícula, mas continuava saindo com ela no cinema e no shopping. Fui eu que a ensinei a beijar direito. O filme lá na tela, nós nos entranhando, de repente parei e ordenei:

-Chupa essa língua direito.

Um dia a levei para casa com a desculpa de mostrar minha oficina, onde eu montava e desmontava aparelhos eletrônicos e rádios. Estava aprendendo a mexer em uma televisão velhíssima, o tubo do tamanho de uma caixa de sapatos. Meus pais não estavam, lógico. Eu a deixei nuazinha, só de meia e tênis e os agasalhos da escola dela servindo de tapete para gente se agarrar. A coisa dela era rosa danoninho. Balançava inteirinha a cada estocada, como se eu fosse a antena e ela o céu por onde vibram as ondas sonoras. Depois a menina chorou e fiquei sem graça, perguntei se eu a tinha machucado, ela disse que não, mas nunca me explicou.

Eva morava muito longe, não ia dar certo. Continuou me visitando algumas vezes, mas nunca fui onde morava. Dois, três ônibus. Ela me ligava e eu dizia, “Chega aí”. Mas quando a gente se encontrava, a coisa esquentava. Comer Danoninho era nossa gíria secreta que eu sussurrava toda vez que queria amassá-la em algum lugar discreto. Eva deixava eu fazer tudo de tudo, ainda que às vezes chorasse, sem explicação.

6

Tive meus rolos aqui e ali, mas nenhuma fora tão grande quanto Clarisse e Eva. Eu tentei, não nego. Até depois do colegial: no cursinho pré-vestibular, na Faculdade… Meses na cola de uma jogadora de basquete da Atlética, mas ela só achava graça de mim, tão pequeno, tão fofo. Por essa e por outras, prefiro mexer com as máquinas. Elas são fáceis de entender.

Eu tinha vontade de voltar às boates, mas minhas condições financeiras não acompanharam meu crescimento. O mercadinho de meu pai já não era o mesmo, meus tios e sócios insistiam na ideia de vender. Melhor viver de renda, diziam. O velho rejeitava essa vida de parasita burguês. Enquanto ele defendia sua integridade, eu tinha que contar moedas e consertar aparelhos eletrônicos aos fins de semana para pagar a faculdade.

Apesar disso, decidi ajudar a moça cega. Hoje em dia seria muito mais fácil com os equipamentos que tenho. Na época foi o inferno. A parte das Mercenárias resolvi comprando o LP na Galeria, conforme havia dito, lá tinha de tudo. Mas a voz da irmã da Leoni eu não conseguiria do mesmo jeito.

Não era uma conversa normal: parecia uma aula ou uma palestra. O monólogo da irmã falecida procurava justificar porque aquela música era tão importante e não deveria ser esquecida. A letra era retirada de um poema inglês do século XVIII. O poeta em questão era um sujeito meio místico, com toda uma mitologia bíblica na cabeça. O conteúdo da letra era um amontoado de provérbios subversivos, nunca saberia o momento de usar. Tigres, deus, gralhas, cavalos, pavões, mulher, seguiam enfileirados sem uma hierarquia clara.

A voz da irmã era entusiasmada demais, como se iluminada pelo sagrado. Parecia um pastor pregando para o povo na praça. Mas eu só conseguia achar tudo aquilo meio patético. Sem aviso, começava a linha de baixo da versão das Mercenárias. Nunca faria muito sucesso, difícil demais de acompanhar e cantar junto. Então, depois do final da música, em uma combinação de provocar engulhos em qualquer DJ, começava Bom Conselho, do Chico Buarque.

Um acidente, Leoni disse. Que nada. Certeza que a irmã se suicidou. Deve ter jogado o carro contra um muro. Aquela mistura de poesia, dificuldade, punk, samba só poderia brotar em uma cabeça meio trágica, desequilibrada. Para que aquela falação toda? Onde chegariam? Por que o Chico? Tinha que ser um bilhete de adeus. Pensei em Leoni, ouvindo aquela fita estranha na solidão do quarto. Senti pena. Queria confortá-la. Fechei meus olhos e a imaginei a meu lado, deitada no chão da oficina sobre a jaqueta de couro.

7

Fiz o que deu. Gravei mais de uma fita para ela. Uma de becápe, por precaução. Eu quis entregá-la pessoalmente (Você pode ver como ficou) e ela aceitou. Combinamos num sábado à noite. Garoava um pouco. Um gato veio me receber. Era um siamês, daqueles antigos, mais gordinhos, cara preta e o corpo num branco sujo. Ela veio tateando o corredor com toques leves na direção do portão. Uns anéis em sua mão refletiam na penumbra. Parecia não estar acostumada ao ambiente, sua cabeça esbarrava nos varais sem roupas penduradas. Ou talvez fosse o piso escorregadio.

A casa na frente estava com as luzes apagadas, apenas uma televisão ligada projetava sua luz para uma sala vazia. Ela me levou para a edícula, onde morava.

-Meus tios moram na frente, mas tinham um casamento hoje. Deixaram a TV ligada para parecer que tinha gente. Medo de ladrão. Não gostam de deixar só.

-Você não quis ir?

-Não tinha muito o que ver. Quem que casa no inverno?

Apesar do frio da noite, não quis fechar a porta que ficou o tempo todo entreaberta para o quintal. Não havia sofás ou poltronas; uma única cadeira era usada como cabide de roupas e mochilas. A bolsa da Cairê estava dependurada ali. O siamês ficou se esfregando, passeando entre nossas pernas, depois sumiu.

Seu quarto era pequeno e organizado, muito diferente da oficina onde eu trabalhava e estudava. Dito isso, era uma mistura incomum de objetos e decoração, até porque parte da decoração deve ser inútil para quem não enxerga. Na parede, um mapa anatômico de acupuntura em ideogramas chineses. Na outra, um tecido estampado com uma imagem em alto contraste da Siouxsie sem os Banshees, pendurado feito um quadro. Afastado da cama, sobre uma mesa, uma prensa térmica de estamparia; ponderei se seria prudente deixar isso próximo dela. Ao lado da cabeceira de uma cama de solteiro, uma bengala branca e um porta-retratos. Havia um aparelho de som e alguns discos. Consegui ver Bauhaus e Replicantes sobre a tampa do toca-discos. Foi ela mesmo que colocou a fita da irmã falecida, que só então fiquei sabendo que era Úrsula.

-Foi acidente de carro.

-Faz tempo?

-Terça passada fez um ano. Tem uma foto nossa no porta-retratos.

Elas eram bem mais jovens. Duas moças se abraçando. Úrsula era mais velha que imaginava ouvindo sua voz. Tinha o cabelo cortado reco e tingido de branco. Era bonita. Leoni também estava mais bonita e enxergando. Na orelha, havia um alfinete feito brinco. O fundo da foto estava escura, parecia um bar ou um show noturno. Reparei que Úrsula usava uma corrente com cadeado como se fosse um colar.

Não havia outro lugar disponível, então nós dois nos sentamos em sua cama. Usamos a parede como recosto. Ela tateou a cabeceira até achar o cinzeiro e o maço de Plaza. Na claridade, pude ver que havia um anel grosso e metálico para cada dedo de suas mãos. Leoni estava com os mesmos óculos escuros de quando nos conhecemos, mas agora de moletom, calça e agasalho da mesma cor cinzenta. Estava de chinelos. Achei curioso que as unhas do pé estavam pintadas numa cor escura. Ela usava uma camiseta estampada com uma figura da Mulher Maravilha. Enfim era uma combinação nada atraente, exceto pelo fato dela estar ali, nós dois sozinhos na casa e o frio lá fora. No aparelho de som, Úrsula seguia no seu discurso entusiasta: “Nada é pecado exceto aquilo que é pensado como sendo pecado”

-Você gosta de poesia?

-Não. Já estou na faculdade.

Leoni riu, Úrsula não se dava bem com nada prático, tudo que poderia ser explicado em duas linhas não era para ela. Quase contei minhas ideias que aquela fita seria um bilhete de despedida, mas evitei de propósito conversas mais bravas. Sentia que ela estava muito segura comigo ali e fiquei sem saber como sinalizar o que eu queria para uma cega. Para uma outra garota, eu só olharia para ela e se ela me correspondesse, me aproximaria.

Ouvira tantas vezes o monólogo de Úrsula que sabia estar chegando ao fim. Tive a impressão que ela iria chorar. Quando o baixo da banda finalmente deu seu acorde inicial, decidi colocar minha mão sobre a dela, como quem conforta parente de defunto em velório. Leoni continuou quieta, os lábios contraídos. Me aproximei, o estrado estalou sob nosso peso. Puxei seu corpo em minha direção, tentando fazer com que encostasse sua cabeça no meu ombro: uma operação complicada diante de nossas diferentes estaturas.

Eu não sei o que ela entendeu, mas com a outra mão apertou meu pescoço. Eu me desequilibrei, meu corpo caiu para trás. A fita continuou na sequência de provérbios, mais declamado que cantado. Fui parar no chão de piso frio, fazer companhia para um tapete de fuxico. Ela se jogou contra mim e começou a me bater, mão fechada, os anéis contra meu rosto. O cabelo dela se soltou do coque e o rosto dela ficou rodeado de uma juba caótica. Tentei gritar, o que você está fazendo, mas ela se apoiou no meu pescoço com o antebraço e passou a esmagar minha orelha como quem destrói uma flor na palma da mão. Olhei para o lado e vi o gato do lado de fora da porta. Estávamos da mesma altura, eu sendo esganado, ele fazendo coisas de felino no quintal molhado. Piscou algumas vezes e voltou com sua cara preta para a noite.

Quando finalmente ergui meus braços para proteger meu rosto, ela se voltou para minha virilha. Eu estava de jeans, mas ela conseguiu achar um espaço no tecido. Achou meu saco com sua mão de cega e o apertou. Eu desisti de salvar minha cabeça e ela pôde morder meu nariz. Os óculos escuros dela caíram e eu pude ver com clareza a ausência de olhos sob as pálpebras, a carne entre os cílios.

-Seu filho da puta.

Conseguiu me virar com a posse que estava de meu saco. Minha camiseta subiu durante a luta e meu abdômen encontrou o frio do porcelanato do chão. Ela continuava me estrangulando com seu peso e montada em mim, sentia o calor da sua buceta através do pijama. Ela abaixou minha calça e enfiou um ou dois dedos em mim, mais por raiva do que por tesão. De costas, consegui arquear me corpo e a jogar para trás no chão. Me afastei engatinhando, e estava emputecido. Agora a música já era a do show do Chico, o público batia palmas.

-Sua louca.

Fiquei em pé e ela ficou no chão, recolocando seus óculos. Seu moletom havia saído do lugar e pude ver seus pentelhos e uma antiga cicatriz percorrendo de alto a baixo seu tronco. O cinzeiro e o cigarro estavam distantes pelo chão. Endireitei minhas calças e saí, contendo o sangue das narinas com as costas de minha mão. No caminho pisei e esparramei a areia mijada do gato. O portão estava trancado, onde estava a chave? Retornei cambaleando para os fundos, ela me ouviu chegar e tentou me acertar com a bengala, que passou zunindo pela minha cabeça. Catei o molho de chaves do chão onde havia caído durante nossa refrega.

-Vou jogar de volta pela fresta.

Cumpri o prometido e fui para o meu carro. Depois dei partida e saí procurando por uma farmácia. Durante o percurso, conferi meu próprio rosto no retrovisor, marcado, arranhado, inchado. Queria matar aquela vaca. Precisei esperar no estacionamento da farmácia por uns bons minutos antes de sair para comprar compressas e gazes. Eu estava de pau duro.

Depois de seis meses, Leoni me ligou. Não falamos sobre o acontecido, ela usou a desculpa que precisava me pagar a recuperação das fitas cassete de Úrsula. O que é certo é certo, ela insistiu. Poderia ter passado o número de minha conta, mas voltei até sua casa – de dia dessa vez – seus tios estavam lá. Eram uns coroas boa praça, acho que mais simpáticos que meus próprios pais. A conversa fluiu até a noite, quando dividimos uma pizza. Começamos a namorar umas semanas depois e nos casamos no civil assim que me formei. Ficamos com o siamês. Ou melhor, a siamesa. Somente depois soube que era uma fêmea. O nome dela é Capitu.

Deixe um comentário