1
Existem muitas praias paradisíacas. Mas pouca gente sabe que o Paraíso é uma praia. Uma praia rasa de ondas calmas que rolam sobre seixos suaves e lisos ao toque feito pérolas rolando no céu da boca.
Nunca houve uma tempestade nessa praia, jamais houve um afogamento, apenas o cochicho do mar com o solo, o vento roçando a pele do mundo. Vem onda, vai onda, essa praia jamais mudou, jamais se esqueceu um grão de areia.
O Paraíso é, foi, será uma praia. Eterna, perene. A Praia.
Já o Inferno muda.
Adapta-se ao contexto. Corre atrás do próprio rabo.
O presente sempre é mais propício a desgraceira do que o passado ou o futuro, estes sempre iluminados em nossos horizontes.
O Inferno está sempre em expansão, em perpétuo desenvolvimento, em contínua involução.
2
Lembrem-se, por exemplo, do Bosque dos Suicidas. Uma floresta rubra sobre a qual revoavam bandos de aves. De longe, era um lugar bonito. Pode parecer estranho haver beleza no inferno. Só se espera a feiura, o asqueroso, o fétido. Porém, também pode haver o belo na paisagem. Algumas torturas se aguçam quando expostas ao contraste.
Quem se aproximava do Bosque, percebia logo o engano. As almas dos suicidas eram convertidas em árvores úmidas, com olhos no lugar de folhas e carne no lugar da madeira. Essas plantas serviam de alimento às harpias, passarinhos inquietos com bicos e garras de ferro.
Mas não se atormentem. O Bosque dos Suicidas já não existe. Retroescavadeiras derrubaram as árvores. Os suicidas foram reconfigurados para outro tipo de infortúnio e as aves carnívoras enviadas para alguma granja diabólica. Tudo em nome do progresso/regresso.
Cartazes cercam a ferida na floresta e anunciam a obra aos especuladores e investidores. A Administração Infernal fará mais um novo empreendimento: o Shopping do Sétimo Círculo. O projeto ambicioso promete novas torturas, mais diversificadas e apropriadas ao gosto do ser humano moderno.
A propaganda mostra motoristas desesperados, sem poder comer, dormir ou tomar banho em uma busca de vagas em um estacionamento lotado; filas invencíveis no quiosque do sorvete de casquinha; consumidores sífisos condenados a carregar o peso de sua vida em pacotes e presentes nunca suficientes. O comercial conclui com clientes usando mordaças de anel, a boca sempre aberta e um fio de baba pelo corpo. Esses se colocam diante de vitrines maravilhosas, repleta de desejos e promessas que jamais poderão ser adquiridos.
3
Belfegor é o Diabo responsável pela criação do empreendimento. Vaidoso e marketeiro como todo executivo de sucesso, seu retrato permeia toda peça publicitária vinculada a Obra. Repare que só aparece da cintura para cima nas fotografias. Muito antes da moda se espalhar pela Terra, a acessibilidade grassava no Inferno. Belfegor era cadeirante, escudeiro da Preguiça, seu vaso sanitário o acompanhava onde quer que fosse.
Recentemente, Belfegor fora elevado na hierarquia demonológica. De mero Embaixador da Modorra, agora promovido a Barão do Necrocapital, senhor de 25 legiões infernais. Recebeu inclusive a Comenda da Ordem do Demérito do próprio Senhor de Todas as Trevas e Profundezas, o primeiro dentre os caídos, o Estrela da Manhã.
Mas de pouco adianta uma promoção se não pudermos ostentar a seus amigos. Convidou dois outros Demônios, Astarote e Belial, para um happy-hour no badalado e caótico Bar Jardim das Delícias Terrenas. Lá os diabos se reúnem quando o mundo não está prestando atenção.
Belfegor ergue sua taça de absinto e, entre flatulências, propôs um brinde a Obra do Shopping, que deve se iniciar no dia seguinte.
Astarote levanta sua caneca de cerveja quente para acompanhar o colega. Apesar de se apresentar como uma bela mulher grávida, já fora uma das diabas mais poderosas: ex-Tesoureira do inferno, conhecedora dos segredos da criação, portadora da capacidade de ver passado-presente-futuro, habilidade especialmente útil no mercado financeiro. Uma demônia muito antiga, portanto, e como todo idoso, ressente-se do sucesso de seu colega mais jovem.
Todavia, a capacidade preditiva de Astarote indicava que o êxito do Barão Belfegor seria limitado. As empreiteiras contratadas para a construção do Shopping desviaram milhões de dinheiros e, se tem uma coisa que o Inferno sabe gerir e controlar, é seu patrimônio. Em alguns anos, Belfegor seria rebaixado a Série B Infernal, de onde nunca deveria ter saído. Portanto, ela não se importa em brindar o sucesso efêmero de Belfegor: levanta sua caneca de cerveja e a bebe em grandes goladas, para saciar a si e a criatura que vive em seu útero.
Já Belial, o Profano, não acompanha o brinde. Visivelmente desanimado, gira a espuma tóxica de seu copo de chorume com o indicador masculino, enquanto suspira distante. As suas duas metades – cada lado seu tinha um gênero e a sua voz soava sempre estereofônica – estavam deprimidas.
Um dos Reis do Inferno, Belial havia caído em desgraça novamente e rebaixado na sempre complexa e mutante hierarquia demoníaca. Seus companheiros na mesa supuseram inveja. Confrontado, o Profano recusa essa explicação, não sou tão óbvio para ser um reles carreirista.
Uma vez, Astarote foi deusa do amor na Babilônia; por isso pergunta se Belial não estaria apaixonado.
Sim. Os capetas se apaixonam. E muito: o amor é ótimo para provocar tangos, tragédias e catástrofes. Não era o caso ali. Belial está em crise profissional.
4
“Bem sabem os senhores que, a despeito dos eventos que promoveram minha queda, ainda sou conhecido como Príncipe dos Malandros. Há quem diga que meu tropeço é parte de um plano no qual sairei por cima em algum século vindouro. Pode ser mesmo, não negarei. Sou capaz de passar rasteira em saci, perito em chave de braço em qualquer filósofo, mestre em dar nó em advogado e ainda bordar casaquinho com o restante da linha.
De todo modo, para me auxiliar nesse momento de baixa, Mefistófeles, Duque das Insídias, ofereceu a chefia da Seção de Pactos e Contratações. Precisava de ajuda para gerir essa parte, a redação de contratos on-line de empresas de tecnologia estava ocupando demais seu tempo.
Aceitei com gratidão. Imaginei que seria a coisa mais tranquila do mundo para o Profano, Príncipe da Malandragem, gerenciar mera papelada. Mas foi aí que começaram meus dilemas.!
Nesse instante, a conversa é interrompida pela chegada sem aviso do garçom. Não que ele pudesse avisar. Era a alma de um condenado por gula, os lábios costurados numa linha que se contrai na menor aproximação de um quitute qualquer. Trouxe o pedido de petisco: uma porção de cuzinhos empanados, cus de homofóbicos, uns já com palitos fálicos já espetados. Os três lordes infernais estão famintos, não tanto quanto o garçom, e atacam vorazes os petiscos. Belfegor solta peidos de satisfação que se convertem numa revoada de pombos cagões. Astarote expeliu de dentro de seu ventre grávido uma besta-dragão, que se serve contente direto na bandeja com lambidas caninas. Belial não saboreou os cus. Ora usava sua mão masculina, ora a feminina, para romper os anéis, deixando seu lado da mesa respingando com sangue, óleo e farinha. Entretido nesse processo, o Profano segue na sua lamentação:
“Há quem diga que pactos estão fora de moda. Hoje as pessoas são muito mais livres, mais abertas, falam às claras. Lembrem-se dos humanos reprimidos dos velhos tempo. Sempre com a cabeça baixa, a mente fervilhando de tesões e vontades, o pecado e a culpa em guerra constante pelos espíritos. Nós, os diabos, precisávamos ajudar a elaborar os pensamentos, em explicar os desejos mais egoístas.
Precisávamos soprar paradoxos, contradições, falácias. Mas o foco sempre fora o maléfico, o perverso, a crueldade, a certeza que nada mais importa: nem as leis, a sociedade, o futuro. Só vale o aqui e agora, o alívio real e imediato. E era assim que os humanos chegavam a nós, cheios de ódio, indignação, lágrimas e amargura. Cuspiam ódio, o pau latejava querendo foder o mundo. Sempre foi assim e assim nós nos tornamos os Reis Secretos de tudo.”
Belfegor passa o dedo no prato e o lambe feito criança. Astarote sorri um cinismo sutil, como se já soubesse – já sabe – onde tudo aquilo irá concluir.
“Comecei bem na Seção de Pactos e Contratações. Toda hora recebendo homens com intenções de aumentar o pênis, mulheres atrás de marido, idiotas atrás de curtidas em Rede Social. Até que fui invocado por um pai. Ele relutou em dizer o que pretendia. Parecia quase envergonhado. Imaginei algo bem pervertido, elenquei as minhas prediletas, mas recusou minhas sugestões.
Por ele ser pai, ponderei que estivesse deslocando seus desejos. Feito as mães frustradas que projetam seus sonhos para as filhas… Pressionando para torná-las em medalhistas olímpicas ou modelos internacionais. Perguntei se o pai pretendia que o filho fosse rico, bem-sucedido, poderoso, um conquistador do mundo. Novamente, balançou a cabeça, negando todas minhas possibilidades.
O pai pediu proteção. Proteção à criança. Saúde e Felicidade. Mas que porra era essa? Não ouvia tanta bobagem desde os tempos de Salomão.
Pior que isso: não foi o único. Surgiram outros. Uma menina ofereceu sua alma pelas florestas tropicais. Outro pediu a cura do câncer, um remédio para todos, mas rejeitava qualquer lucro pela descoberta. Um cego não queria mais a guerra em seu país. Um faminto pediu Big Macs… para seus irmãos. Eram desejos podres, autênticos, sem hipocrisia; pressentia no olhar, na lágrima, no peso sobre a espinha.
Tentei rebater: meu nome é Belial, o Profano, Príncipe dos Malandros, antigo Senhor de 45 legiões infernais, estava na criação para disseminar a discórdia, o individualismo, o Mal. Eu não era um Santo a quem se pede bençãos. Mas os humanos me ignoravam e vendiam a alma por esses lixos.”
Belfegor limpa as mãos na toalha da mesa e tenta ser sarcástico:
-Acho que o Velho Desgraçado lá de cima não anda fazendo seu serviço. Esqueceu deles. A humanidade perdeu a fé em Quem não responde, não se importa, não abre e-mails, nem dá sinais de sua Presença.
Astarote discorda sem olhar para os demais:
-Ele está sempre por lá. E nós por aqui. Só estamos por causa Dele. Sabemos disso.
Finalmente bebendo seu chorume, Belial prossegue:
“Talvez vocês já tenham ouvido essa alegoria: a Bondade seria uma pérola. As pérolas surgem quando uma partícula, um grão de areia, uma perturbação se infiltra no interior da ostra. Para se defender, o molusco excreta uma pérola ao redor da sujeira. A sujeira seria o Mal.
Sempre apreciei essa piada, esse provérbio, como se revelasse nossa relevância. O Diabo leva ao surgimento do Bem. A Bondade era uma camada hipócrita ao redor do mundo real, podre e perverso.
Mas depois de ser confrontado com esses idiotas, esses que se justificam nas boas intenções… E se for o oposto? Por baixo de nossa pérola espúria, maldita e tóxica, havia um grão de areia, um caroço de Bondade, uma semente de Pureza. Algo justo e racional que se acoberta sob o muco da Maldade. Nesse caso, somos nós os hipócritas. Disseminamos o Mal em nome do Bem.”
5
O Leste começa a brilhar como uma luz difusa. Era a hora do Jardim das Delícias Terrenas fechar. Os garçons expulsavam e escorraçavam os últimos clientes de suas mesas em meio a muita briga, gritaria e dedo no cu. Belfegor foi para calçada chamar um Uber – mas não avisou se tratar de um demônio permanentemente cagado. Belial poderia oferecer carona, mas cada um que se vire sozinho. Foi embora sozinho, suas metades masculinas e femininas deslizando em desarmonia.
Astarote também deixou Belfegor por sua conta. Ela pariu sua montaria, a besta-dragão, ali mesmo na calçada suja, coberta de vidro quebrado e filtros de cigarro. A antiga deusa do amor não foi para casa. Voou montada em seu monstro para o Paraíso. Ela ainda se lembrava do caminho. Alguns anjos a viram, mas não a impedem. Acreditam no livre-arbítrio. Ou talvez estejam tão entediados que permitem só para ver o que vai acontecer.
Observam-na ao longe, no amanhecer. A demônia se lava nas águas tépidas e rasas. Em seguida, ela passa a lavar sua besta-dragão, tranquila e compenetrada como um limpador de piscinas. O monstro bufa de prazer.
Parecem calmos, serenos e sabedores dos mistérios da Criação.
