(Silvia Argenta)
O zumbido era constante e alto. Parecia uma sirene que alguém se esqueceu de desligar. Os ouvidos de Zico doíam. Deitado no chão, começou a mexer as pernas aos poucos para se certificar de que estava tudo bem. Bateu uma bota contra a outra e sentiu a terra com os dedos das mãos. A poeira invadiu nariz, garganta, pulmão e tudo mais. O coração bombeava rápido, prestes a sair pela boca. As pálpebras estavam pesadas e quase não permitiram que abrisse os olhos. Os cílios sujos dificultaram sua visão. Depois de um tempo, percebeu que ainda era de tarde, mas o céu de inverno já estava se apagando. O luschi fuschi, ele pensou.
O jovem rapaz de vinte e um anos se prontificou para estar ali. Fez questão, na verdade. A família foi contra, mas, teimoso, se alistou no Exército brasileiro e depois de alguns meses de treinamento se mandou para a Europa. Viu num jornal um anúncio de recrutamento, quase um apelo sobre patriotismo naqueles idos dos anos 40 do século passado. Era para lutar na guerra e defender a nação. Do que exatamente não dava para saber. Ele nem tinha conhecimento de que já havia ocorrido a Primeira Guerra Mundial. De qualquer modo, foi o recado certo na hora certa. Talvez precisasse de um pouco de aventura.
Ajudava a cuidar da fazenda do pai, lidando com pastoreio de gado, plantação de milho e maçã e venda dos produtos para os armarinhos do interior catarinense. Só entendia de roça. Nos finais de tarde, analisava o tempo para saber o que fazer no dia seguinte. O barulho não o desconcentrava das previsões. Não se abalava com o som alto dos mugidos e dos sinos pendurados no pescoço das vacas que se acomodavam para dormir no estábulo, muito menos com os gritos das curucacas que se preparavam para passar a noite nos galhos dos pinheiros. Na sede da fazenda, passava alguns minutos observando o céu por trás das árvores. Se no crepúsculo nublava um pouco, era batata: nuvem baixa, sol que racha. Se garoava e o vento vinha de nordeste, sabia que chegaria tempestade. Era um grande conhecedor dos códigos da natureza. O tom arroxeado do céu aos poucos se transformava em preto. Assim que tudo ficava escuro, se recolhia e logo ia dormir. Sonhava com paisagens longe dali.
Na Itália, era o contrário. Precisava ficar acordado durante as noites, quando os tiroteios eram mais frequentes. Seu trabalho consistia numa espécie de leva-e-traz. Raramente entrava nos combates e ficava mais na retaguarda, abastecendo as tropas da linha de frente com munição e alimentos. O soldado briga pela comida, mas não briga sem ela. No começo da noite, ele era responsável por organizar o estoque da ração, como era chamada a marmita fornecida pelos norte-americanos, feita com carne, batata, queijo, bolacha, cigarro e Nescafé. Nada de sobremesa. A luz do sol poente que entrava na tenda de lona branca improvisada tinha um tom alaranjado e dava vida às latas prateadas de comida desidratada, dispostas em caixotes de madeira. Muito açúcar e pouco sal para o paladar do brasileiro. Ajeitava os mantimentos com o som dos tiros ao longe, consciente de que poderia ser chamado para reabastecer a tropa a qualquer momento. Preferia estar em casa, saboreando o arroz com feijão da mãe.
Em alguns períodos, sua tarefa era vigiar o cemitério de Pistoia. Era uma calmaria só. Os momentos de movimentação ocorriam no crepúsculo e se resumiam ao agito dos animais e às cerimônias de enterro dos combatentes, que eram rápidas, com o corpo enrolado num saco plástico. Na primavera e no verão, revoadas de pássaros passavam por ali. Era tanto bicho, mas tanto, que ele ficava surdo tamanho o barulho dos cantos. No banhado, as rãs ecoavam uma serenata infinita. O terreno plano permitia que visse o horizonte. Na frente, as cruzes brancas e a bandeira brasileira hasteada. No céu, centenas de aves que voavam muito rápido sem uma rota definida, ao menos aos olhos do jovem curioso, e, no fundo, o sol baixo dava um aspecto amarelado às pastagens verdes, onde os anfíbios se acomodavam. Bem na hora do tal do luschi fuschi. Os italianos chamam assim a luz que distingue o dia da noite e separa a vida da morte. No Brasil, esse é o horário que as cigarras cantam, se lembrou, nostálgico.
Nas folgas, preferia ir para Roma, onde a cobra fumava de verdade. Vestia seu uniforme de gala, de cor verde-oliva, mais o cordão metálico de identificação. Aproveitava os bares da capital à base de altas doses de conhaque e de brigas. Ele e os amigos brasileiros gostavam de provocar os gringos. Levantavam os saiotes dos escoceses, iniciando a gritaria e a baderna de mesas e cadeiras viradas. Os bares ficavam destroçados. Coisa de jovem sem vergonha e cheio de energia. De noite, a iluminação nas ruas era precária, com pequenas lamparinas, o que fazia com que Zico se perdesse com frequência. Nem sabia onde era norte e sul. Mas sempre aparecia algum anjinho e sussurrava no seu ouvido o caminho da hospedaria. Dormia são e salvo numa cama com lençóis que tinham o mesmo cheiro da sua casa. No outro dia, acordava já curado da ressaca, pegava suas coisas e voltava para o acampamento.
Dessa vez, já tinha quatro semanas que não tirava folga. Três noites direto sem dormir. Esse era o cálculo que fazia enquanto olhava a pequena ponte sobre o rio Arno. Atravessar ou não? Era chefe do comboio de doze veículos. Precisava decidir. Faltavam poucos metros para chegar aos brasileiros em combate, que já estavam sem munição. Por rádio, chegou a informação de que havia alemães escondidos na mata. Não podia deixar de cumprir sua obrigação. Sua equipe devia transportar o material. O guarda da ponte pediu que ele e a tropa sob seu comando ficassem a mais de duzentos metros de distância, aguardando sua permissão para seguir caminho.
Zico entendia a superioridade bélica do inimigo. As metralhadoras dos alemães disparavam mil e oitocentos tiros por minuto e as dos brasileiros, mil e duzentos. Mesmo sabendo disso, foi afobado. Queria entregar logo a munição e voltar ao acampamento para dormir. A entrada e saída da linha de frente já tinha virado rotina. Desobedeceu a orientação do guarda e estacionou o caminhão a apenas cem metros da ponte. Não queria ficar ali por muito tempo.
Duas horas de espera e nada. Os inimigos não atacaram o comboio nem foram descobertos pela equipe de vigília. Excesso de zelo. Não adiantava insistir com o guarda. Ele não deixava passar. Encostou a cabeça nos braços apoiados no volante e pegou no sono. Acordou com um barulho alto seguido de uma explosão. O canhão germânico fez estrago. A bola atingiu em cheio um dos veículos do comboio. Zico estava dentro de outro caminhão. Mesmo assim foi arremessado para fora por causa do deslocamento de ar e caiu na estrada. Maior imprudência da vida.
Não sabia dizer por quanto tempo ficou desacordado. Deitado no chão na frente da pequena ponte, tudo girava e nada mais fazia sentido. Parecia que estava de ressaca. Não conseguia ouvir nada além de um zumbido nauseante. Sentiu cheiro de pólvora e de sangue. Se deu conta de que era hora do luschi fuschi. Olhou para o céu vermelho à sua esquerda e percebeu o contorno das montanhas altas. Do outro lado, o céu preto já abrigava algumas estrelas. Mirou na mais brilhante e viu a imagem de uma colega do tempo de escola. Ela estava vestida de branco e sorria. Ele pegou o buquê das mãos dela, levantou o véu e a beijou. Ela disse alguma coisa, mas ele não conseguiu ouvir. Não importava. Naquele momento, era nessa igreja onde queria estar.
