(versão 2 de superfícies, acúmulos, limbos _ Glaucia Faria)
José encarou o espelho como quem reza sem fé na própria missa de corpo presente. O escândalo da noite anterior havia pernoitado ao seu lado como vergonha. A ressaca só piorava. No fundo do poço, buscou abraço na casa da avó. Ela, sempre tão disponível. Ele, tão neto extraviado. Saía sem café quando ela largou o crochê e pegou na mão dele:
– A gata pariu quatro filhotes. Um não vingou.
– Algum preto?
– O que morreu.
No supermercado, José levou um choque ao ver os Toblerones miniatura, aqueles vendidos somente no aeroporto. Os preferidos de Carol. A ex-namorada enfiava inteiro na boca. Mastigava rindo, bochechuda, espumando ultraje. Fazia o charminho da surra de nhoc nhocs diários que levava José à loucura. Não pela eroticidade do ato, mas por saber bem a irritação dele com a deglutição alheia.
Há mais de um mês não se falavam. Atriz de merda, José pensava. Protagonista da novela em alta, seu rosto se desdobrava em todo lugar. Carol era foda. Provocava pesado, emputecida com o desencontro dos dois. Ele saía em digressão com a banda, ela stalkeava pianinho os passos das fãs. Ela virava noites filmando, ele surtava ao assistir as cenas de beijo. Na intersecção de tempo em que se encontravam, era só briga briga briga. Terminavam. Reatavam. Levavam as redes sociais à loucura. Fuçando no telefone de José, Carol descobriu uma pesquisa sobre tacos de beisebol. As birrinhas perderam a graça, e ela encerrou o namoro de vez. O pé na bunda entrou em domínio público de mãos em mãos nas revistas de fofoca.
O funcionário do mercado não chegou a tempo de identificar José como sendo o autor do chute que derrubou a prateleira dos Toblerones. Ele saiu rápido. Pagou a compra no atendimento automático, com um assobio disfarçado de cerveja e dor.
No carro, checou o telefone: quatro mensagens de voz, inúmeros desesperos não atendidos. A agente da banda marcava em cima, nunca falava baixo, mesmo que ele não tivesse gritado. Ou gritava e já não percebia? Não ouviu os áudios restantes, jogou o telefone pela janela no caminho para a Costa da Caparica.
Na imitação barata do tapete vermelho jornalistas cacarejavam elogios à banda. José entrou pelos fundos, rebelde, o ar blasé foi o escudo para o ar de quebranto. No camarim, espelhos multiplicaram sua ausência. A cena da banda não era mais divertida, a camaradagem escoou pelo ralo. O catering ressecava sem clima para fome. As garrafas de uísque passavam da metade, por motivos de sobra. Um zum zum zum reinava, entre recriminações amarelas e perdigotos de cheetos. Estranharam José. Passivo, zumbi, um meio baixar de pálpebras, uma sonolência morna. Não seria mais o garoto problema? A pessoa difícil? O gênio forte?
Não reagiu ao terceiro sinal. Foi empurrado para o palco. O show começou. O copo foi junto.
A música fez da degradação, força. Destroçou a raiva com uma excitação redentora. Quase promessa para reviver o homem que era, quase saída para o caminho de volta. Estraçalhou a bateria sem cerimônias. Cada batida no prato exterminou um desgosto, cada toque no bumbo excomungou um sofrimento. No final da primeira música, aplausos o desviaram do transe. Demoliu-se frente as câmeras. Abandonou o show sem dar satisfação, o capuz camuflando a afronta.
A chicotada certeira na bolsa da produtora roubou uma cartela de zolpidem. Dormiu com ela uma vez, conheceu o truque. Passou a mão na garrafa de uísque, a santa moda dos bolsos grandes não levantou suspeitas. Ignorou as perguntas até o estacionamento, mastigou o remédio feito bala, entrou no carro e foi embora.
Conduzindo, saiu do corpo e da linha do tempo. Odiava todos, a agente, a banda, os fãs, os sanguessugas na assinatura do contrato. Odiava a si mesmo. Não ter amigos, não ter assunto. Odiava ser medíocre. Fraco.
Brecou no meio da ponte Vinte e Cinco de Abril. Desceu do carro, largou porta aberta, motor ligado. Mil luzes distantes, janelas insones riam-se dele. Carol estava lá, desembrulhando um bombom. Ele tateou o ar, transpassando a imagem. Carol abriu os braços. José berrou vá embora. Carol desceu pela garganta uma enguia viva, sem mastigá-la. José gritou por socorro. Ela vomitou sangue, rindo. Ele berrou que a amava. Carol estava na mesa de autópsia, o fígado explodia. Nojento. José subiu na mureta, desesperado. Carol sumiu. Na chuva de faróis soube que a sirene, mais uma vez, era para ele. Em um lapso de consciência, em um milésimo de segundo sem fôlego, teve frio, teve medo. Teve saudade da infância. Quis voltar para a casa da avó, quis o café com leite da avó. Quis a mãe, quis o colo da mãe.
Ao descer, escorregou. Caiu no Tejo sorrindo, lembrando do gato preto que nasceu morto.
Sortudo, ele.

