O desaparecimento de Otávio

Roberto Efrem Filho

Dona Mariana desce do ônibus puxando o menino pelo braço esquerdo. Ele vem afoito, um tanto se queixando do peso da mão que lhe segura. Inácio já vai com nove anos, mas nunca esteve no Recife, nunca atravessou uma avenida. Caminha disperso e surpreso atrás da mulher que chama de vó, vovó, voinha. Com medo de perdê-lo, Mariana segura forte o bisneto que se distrai com os automóveis e a altura dos prédios, todos aqueles letreiros de lojas e esta gente agoniada sobre o asfalto às duas da tarde, “minha Nossa Senhora, que calor”,  um sol para cada juízo no centro da cidade. “Ô Inácio, o motorista falou que era o prédio redondo. Veja aí o nome, veja, meu fi”. O menino desdobra o papel que trazia no bolso do calção. Na folha retirada do caderninho que seu pai mantém no quarto da pensão onde vive, Inácio escreveu o endereço que o homem ditou a sua avó pelo telefone, “avenida conde da boa vista, número 1016, edifício módulo”. “É esse mesmo, voinha. Tá ali escrito, Módulo”. Dona Mariana confia no menino e procura o zelador, que leva o lixo para a calçada. “Meu senhor, boa tarde”. O zelador deixa de lado os sacos pretos e se aproxima da senhora que o cumprimenta. “O senhor me desculpe atrapalhar. É que eu vim ter uma palavra com Seu Aparício. O senhor faz o favor de avisar que Mariana, avó de Otávio, chegou? Ele sabe que eu venho”.

Mariana saiu cedo de casa, o clarão da primeira hora da manhã sobrepujava o canavial. Somente resolveu trazer Inácio na viagem quando já passava o café preto no coador de pano. Acordou o menino, deu-lhe de comer, mandou-lhe lavar-se na lata d’água e botar a roupa de domingo. “Se avexe, meu fi. A condução já sai. Corra, vá. Demore não”. Inácio não compreendeu. Era dia normal de aula no grupo escolar, uma quarta-feira de janeiro de 1984. Em sala, por conta da proximidade do carnaval, a professora vinha ensinando sobre cultura popular. Estava combinado de, naquele dia, a turma conhecer um caboclo de lança. Inácio andava ansioso pelo momento, tinha comentado com a avó, porque ficara com a tarefa de escrever o que o caboclo diria, “vó, a tia explicou que é uma entrevista e eu preciso saber o que perguntar”. Na pequena biblioteca do grupo, Inácio estudou o livreto sobre maracatu que a professora o entregou. Lendo, decidiu que perguntaria ao caboclo pela guiada, a lança enfeitada com dezenas de fitas coloridas. “Vó, eu quero saber se, na dança, a guiada pode matar”. “Hoje tu não vai pra escola, Inácio. Tu vai comigo pro Recife, atrás do teu pai”.

Quando Otávio decidiu tentar a vida no Recife, Mariana o incentivou. Alguns anos antes, com a ajuda dos advogados do sindicato, ela conseguira aposentar-se como trabalhadora rural. Mais de década e meia após a cana fermentar a cachaça que matou seu marido de cirrose, gastura e desalento e que expulsou sua única filha ao mundo, indo-se sem dizer aonde e para não mais voltar, Mariana encontrava na cana-de-açúcar que suas mãos cortou a razão final para seu direito. Deste direito, viria então o seu sustento. Viria também, era justo, o sustento do seu neto no Recife. Otávio poderia sair de Timbaúba, cumprir o curso técnico em elétrica e terminar os estudos com uma profissão. Para isso, Mariana cuidaria ela mesma de Inácio, o filho que Otávio fez ainda menino, o filho do filho que sua filha fez, deitada com um boia-fria numa noite de fogo, em meio ao canavial. No combinado, Otávio receberia dinheiro da avó enquanto não arrumasse um emprego. Trabalho arrumado, seria a vez de Otávio depositar dinheiro para Mariana, visando às despesas e ao estudo de Inácio. Deu certo. Muito antes das previsões de Mariana, deu certo. Com meses no Recife, Otávio telefonou ao sindicato e pediu que avisassem à avó que depositara um valor em sua conta na Caixa Econômica. Mariana entendeu que o rapaz arranjara trabalho e, na missa do domingo seguinte, acendeu uma vela para Nossa Senhora das Dores, em agradecimento pela graça alcançada.

Havia quase dois meses, contudo, que Otávio não dava notícias. Sumiu na capital. Ainda em dezembro, Mariana estranhou a falta do depósito mensal em sua conta bancária. Na agência da Caixa, o funcionário explicou que o dinheiro da aposentadoria entrara, nada mais. “O último depósito do seu neto foi em novembro, Dona Mariana. A senhora sacou aqui comigo no mês passado, lembra?”. Sim, Mariana lembrava. Foi com esse dinheiro que consertou as telhas e caiou as paredes da casa. Inácio achou bonito, disse que o pai ficaria contente em ver tudo assim, pintadinho de branco nas festas de final de ano. Encafifada, Mariana voltou ao banco outras duas vezes, mas recebeu a mesma resposta. Foi aí que, já sem alternativa, entrou no sindicato para telefonar à pensão em que o neto mora. “Dona Mariana, ainda bem que a senhora telefonou. Eu já andava preocupada”. A voz da dona da pensão de fato exprimia preocupação e Mariana sentiu o estômago crepitar-se. “Otávio não aparece por aqui desde novembro. Sim, espere um minuto, eu até anotei na agenda. Pronto, achei. Ele saiu daqui na noite de 17 de novembro, Dona Mariana, depois do telefonema de um rapaz chamado Aparício”.

Mariana bateu às portas da pensão na metade da manhã seguinte, com Inácio a tiracolo. O casal de proprietários a esperava oferecendo uma garapa e inúteis pedidos de calma. “Como assim o menino está sumido desde novembro?”. O casal tentou explicar à avó que era comum que seu neto dormisse fora da pensão, “às vezes noites, uma semana ou mais”, sem dar qualquer satisfação. “Por isso ninguém estranhou quando ele desapareceu. Depois veio o final de ano e a gente imaginou que ele tivesse voltado para o interior, por conta do Natal. E como ele sempre paga tudo antecipado…”. Inácio assistia à discussão e enxergava no rosto da avó um prenúncio da tristeza, a atração do desespero. No Natal, ele sentira a ausência do pai, acreditava que Otávio chegaria para as festas. “Voinha, painho não vem?”. Mariana desconversou, Inácio percebeu. Sua feição ensaiava o prenúncio e a atração deste instante.

“E quem é Aparício?”. “Um amigo de Otávio. Um rapaz muito educado, Dona Mariana. Telefona pra cá à noite. Otávio costuma sair com ele, a senhora sabe, pra tomar uma cerveja, se divertir. Ele telefonou naquela quinta-feira. Nós dois e Otávio estávamos aqui vendo a novela, o telefone tocou, era Aparício. Acho que havia um problema, Otávio tinha de ajudar. Não sei direito, eu não entendi. Fato é que Otávio falou com ele e saiu”. Mariana encontrou o quarto do neto incólume. A cama feita, livros e cadernos na prateleira sobre a escrivaninha, camisas e mais camisas penduradas em cabides e calças e bermudas dobradas nas gavetas do guarda-roupa. Criada numa família pobre que contava o que comer e vestir, ela própria com apenas um punhado de vestidos na cômoda de casa, Mariana jamais supôs que seu neto possuísse tantas roupas assim. Ainda estava admirada com a descoberta quando,

abrindo o sapateiro, deparou-se com duas caixas. Numa, havia documentos e pequenos objetos pessoais, um lencinho que sua filha bordou para Otávio nas vésperas do abandono e que, no estado de apreensão em que agora Mariana se achava, fez com que ela desbotasse os olhos diante do menino, que fingiu não perceber o desamparo nos modos da bisavó. Na segunda caixa, uma pilha de jornais recortados. “O que é isso, Inácio?”. O menino encarou os papeis, curioso. “É tudo texto, vó. De jornal. Acho que é notícia. Todas têm Aparício Siqueira no nome”.

“Eu levo a senhora. Seu Aparício mora no 1501, no décimo quinto andar. É o último”. O zelador abre a porta do elevador para Dona Mariana e Inácio e pede que ambos entrem. Depois ele próprio entra na caixa, fecha a sua porta e aperta o botão de número 15. “Pronto, basta subir”. Mariana tremelica enquanto a máquina avança para cima, disparando um barulho parecido com o dos motores da usina de cana-de-açúcar que ela conhece tão bem. Inácio, por sua vez, maravilha-se. Pensa que, sim, faz sentido que os prédios da cidade sejam tão altos, que exista tanta gente nas ruas e nos ônibus ao seu redor. Logo o elevador para, o zelador abre novamente a porta e indica o apartamento correto. “A senhora toca a campainha”. “Boa tarde, Dona Mariana. Eu sou Aparício, amigo de Otávio, a senhora entre, por favor”. É só então que Aparício vê o menino ao lado da senhora. Não sabia de sua presença, desconhecia sua existência, não o esperava. Não podia fazê-lo. “Seu Aparício, me dê licença. O senhor vá me desculpando por chegar assim. Esse menino é Inácio, meu bisneto. Filho de Otávio”. Mariana diz, mas Aparício reflete, silente, que ela sequer careceria dizê-lo. O menino, muito acanhado, estende a mão direita em direção ao homem do outro lado do umbral. O homem, muito acanhado, estende a mão direita e aperta a do menino. “Fico muito feliz que você esteja aqui, Inácio. Seja bem-vindo”. Mariana e Inácio então adentram o apartamento do homem que amou, como nenhum outro homem pôde amar, o filho de sua filha, o seu próprio pai.

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