– Antenor?
– Isso. Eu mesmo – Antenor se curva para responder pelo vidro escuro semi-fechado. Antes de abrir a porta, volta dois passos para conferir a placa. Examina a tela do celular, de novo os números , as letras e o modelo. É mesmo o HB20 branco.
– Pode entrar – Vicente, com meio corpo para fora , chama Antenor e tranquiliza o passageiro. A voz quase se perde nos ruídos da Rua dos Patriotas. Antenor encosta e tira a mão da maçaneta. – Entra aí. Sem medo. – Vicente é ainda mais simpático com passageiros hesitantes. Antenor precisa do segundo convite para sentir confiança. Abre a porta e se senta num dos estofamentos de couro branco.
– Presentão, hein? – a voz do motorista chega pelo alto-falante encaixado na sanca que circunda a cobertura do carro . Junto do som, saem também feixes de luz coloridos .
– Lucrécia não me falou que era uma limusine.
– Os usuários gostam de fazer surpresa. Você está num Uber XXXX – serviço exclusivo.
Antenor fura com as mãos uma nuvem de gelo seco.
– Exclusivo em que sentido?
– Só quem é convidado chega ao aplicativo. Lucrécia é sua namorada, amante ou um encontro às escuras? Tenho nota 10 em discrição. Fica sossegado – o motorista para de falar enquanto sobe uma placa acrílica. A peça fosca separa o banco da frente da sala de estar que é o resto do carro.
Antenor demora até encontrar o microfone e a tela por onde responder ao motorista. Escolhe dizer que Lu é uma amiga. Só uma amiga. Já tinham saído para dois cafés, beijado na boca e transado no carro. Antenor tem um Fiat Uno quatro portas. O carrinho desconfortável cabia justo na garagem fechada da casinha à venda no bairro da Mooca. Lu é corretora de imóveis e o lugar estava na carteira da imobiliária Longlife. Lu ama carros e, por extensão, transar dentro deles.
– Não é qualquer amiga que dá um presente assim. Vou colocar uns vídeos para o senhor ir se animando.
Antenor demora uns segundos até responder que não antes de voltar a consultar o perfil de Lu no aplicativo. Na foto, sentada numa lambouguine de portas abertas, ela exibe uma perna pela fenda do vestido prata, a mesma cor do carro . Lu está numa exposição de automóveis. Junto ao trabalho na Longlife, faz também feiras e eventos. Os músculos definidos na perna bronzeada fizeram quase o trabalho do vídeo. Antenor se dobra e busca uma bebida no bar espelhado. Pelo alto-falante, Vicente anuncia que em dez minutos chegam ao endereço numa ruazinha estreita da Vila Mariana.
Antenor agradece a informação, ignora as duas garrafas de Johnny Walker, os copos bico de jaca e escolhe uma latinha de Heineken. Com sede, enrosca o dedo no lacre, puxa com força e a bebida transborda quente sobre a camisa. A listras retas da viscose ficam curvas, o líquido escorre e faz uma marca escura ao redor do zíper da calça bege. O cheiro de cerveja se junta ao perfume amadeirado da sua loção de barba.
– Pega as do fundo. Essa daí tava quente – alerta o motorista.
– Você vê tudo o que eu faço? – Antenor pergunta enquanto esfrega e tenta limpar a roupa. Numa mesa lateral, achou dois rolos de guardanapos junto com halls preto e camisinhas.
– Quando Dona Lucrécia chegar, eu desligo a câmera.
– Não tem jeito – Antenor mal ouve a resposta de Vicente. Está inconformado com a calça salpicada de farelos de papel toalha.
A limusine para, Vicente avisa que chegaram e Lucrécia entra com o mesmo vestido justo da foto do aplicativo. Dessa vez, os cabelos estão soltos e ela carrega uma bolsinha brilhante para o cigarro e o celular.
– Que cheiro de cerveja! – ela comenta antes de qualquer beijo.
– Seu amigo derrubou. Já expliquei que as do fundo estão geladas. – Vicente explica.
– Isso não vai atrapalhar a brincadeirinha, vai? – Antenor interrompe a conversa com o motorista e ele sabe que a resposta é não. Faz a pergunta, mete as mãos no decote de Lucrécia e os dois partem para uma sucessão de beijos. Dura pouco. Antenor abre os olhos, afasta o rosto e pede para Vicente desligar a câmera.
– Mas é claro. Avise a dona Lucrécia que em dez minutos chegamos na Luana.
Antenor solta os peitos de Lu.
– Que delícia! Vai ser ménage?
– De quinze minutos. Até a gente pegar o Valdir.
– Você me disse que não gosta de swing.
– Não é swing. Quando a Luana chegar, eu explico – Lucrécia se sentou no colo de Antenor e recolocou as mãos dele sob o vestido.
Vicente dá dois trancos com o carro numa ladeira, queima os freios e avisa pelo microfone que estão em frente ao prédio de Luana. Antenor ensaia fazer uma reclamação da rapidez no trajeto, mas a moça vestida de mulher gato já estava no banco branco tirando as botas sobre o macacão apertado. Lucrécia e Luana pareciam a mesma pessoa. Antero se assustou com a semelhança, puxou as calças de volta à cintura e perguntou se as duas eram gêmeas.
Luana Mulher Gato respondeu que nem irmãs eram, mas faziam a mesma maquiagem de olhos marcados e mantinham os cabelos longos descoloridos e alisados para ficarem parecidas. Os corpos já tinham semelhanças. A mesma altura e pernas longilíneas embora os peitos de Lucrécia fossem três vezes maiores que os de Luana. Gostavam das fantasias que criavam para elas e para quem iam conhecendo por bares e aplicativos.
Antenor se interessou pela história, mudou de lugar, sentou entre as duas e se apresentou à Luana tentando abrir o zíper do seu macacão justo. Ela permitiu porque era impossível conseguir e só ela conhecia os truques da roupa. Do outro lado, Lucrécia passava as unhas na nuca de Antenor e ria da situação. Provocado pelas duas, não sabia o que fazer. O macacão sem entradas de Luana impedia os seus primeiros planos. Na terceira parada, ela pulou por cima de Antenor, se sentou ao lado de Lucrécia e destravou o zíper para seus peitinhos firmes encostarem nos peitos grandes da amiga. Valdir abriu a porta, deu um beijo em cada uma e se sentou ao lado de Antenor como se fosse seu lugar escolhido num cinema.
– Adoro estas duas. É a sua primeira vez?
Antenor teve dúvidas sobre a que se referia a primeira vez, mas respondeu que sim com a cabeça sem tirar os olhos da duas mulheres se pegando. Valdir encheu um copo de uísque antes de tirar a camisa. Antenor vestiu a sua de volta e mudou para o banco da direita, ao lado da porta . Disse a ele que só ia assistir.
– Se solta. Toma aí um gole. – Valdir passou seu copo para ele e preparou mais um. Lucrécia e Luana chamaram os dois. Valdir deixou a bebida e se juntou às duas. Antenor só assistia.
– Vem, Antenor. Chega aqui. – disse Lucrécia.
– Aproveita antes da próxima parada. – emendou Valdir
– E tem próxima parada?
– Depois do Valdir, tem o Haroldo, o Betinho e a Teresa. – acrescentou Lucrécia.
– Sabia que a cerveja quente era um aviso. – em vez de acionar o microfone, Antenor bate no placa de acrílico de Vicente.
Lucrécia vê a cena, deixa Luana e Valdir, faz Antenor parar de bater, gruda no corpo dele para passar as unhas compridas e pontudas nos seus cabelos encaracolados. Então ela se afasta, ajeita as costas perto da janela e põe as pernas sobre ele. Valdir e Luana não se interessam pelos dois.
– Tá bravo? – ela pergunta. Repara nos faróis Xenon, no teto Solar, nas telas LCD. Isso aqui vale muito.
A limusine estava quase parando e antes de Antenor responder, Haroldo abre a porta para ele Betinho e Teresa entrarem. Os dois homens troncudos eram a cópia de Valdir e Teresa podia ser trigêmea de Lucrécia e Luana.
– Então…- Lucrécia retomou a pergunta. Tá bravo? Semana que vem a gente sai no seu Fiatizinho. Isto aqui é só brincadeira! Uma festinha. O preço é alto. Tem que ter mais gente pra repartir.
Antenor bate de novo na placa de acrílico.
– Para o carro. – ele repete três vezes em voz alta.
Vicente encosta na pista local da Marginal Tietê. Lucrécia, Luana, Valdir, Haroldo, Betinho e Teresa abrem o teto solar , nem se dão conta do incômodo do novato e voltam pra festinha. O homem cheirando cerveja desce e abre a porta da frente do HB20 branco.
– Vicente?
– Antenor?
– Isso, eu mesmo. Antenor vai se acomodando ao lado do motorista.
– E aí? Gostando do Suruber?
– Não sei dizer. Esperava outra coisa para a sexta-feira.
