Uma garota top show

Por Susy Freitas

Toda sorte de fluidos sobre as cobertas: porra, gosmas, suor. Mijo? Talvez. É uma possibilidade. Um pinguinho. Quando amarela sobre o lençol, é difícil saber. E se o lençol é escuro, embranquece. A lógica das coisas ao contrário, prazer e dor, vaio e excesso, o sentido da vida e o modo turo lavagem na Electrolux. E o colchão ali, despido da lingerie do lençol de elástico, um cheiro de pica imutável, que será reativado transa após transa até o final dos tempos. Dois corpos estirados sobre ele.

– O que foi?

– Nada. Só cansei.

O fôlego dele sibila. É uma cobra, o vento anuncia chuva, mas não há chuva. Só há calor, uma película sobre a pele de todo cidadão vivo ou morto em Manaus. Vira um gole quente de cerveja holandesa goela adentro, tesouro dourado na prateleira do freezer no supermercado metido a besta. Ele, a cara inexpressiva, as cervejas no carrinho rumo ao caixa, uma rodinha que insiste em puxar para a esquerda. Ele, o ouro, as cervejas, a explosão de drinkability, esquerda, esquerda, a etiqueta assinalando o preço errado, a anuência do código de barras, descontaço, a nota fiscal jaz no chão, pisoteada por famílias que se entupirão de arroz, macarrão, peito de frango e iogurte a semana inteira, a força que movimenta um país. 

– Mas você gozou?

– Não. Mas tu sabe que isso não é importante pra mim.

Ela vira para o lado. Busca, tateando na escuridão como uma cega, a camiseta que cobrirá as dobras da barriga. A linha que nunca desaparece do ventre, a prova do crime. Afinal, ainda que ninguém as veja, elas estão lá. O tempo todo. Como o futum de um body splash comprado em supermercado, as prateleiras cintilantes de cheiro de banheiro que alguma assalariada passará na pele na esperança de se sentir uma outra coisa, bem cuidada, limpa, digna de atenção, uma verdadeira mulher que tem tudo, tudo, tudo, quando, na verdade, tem, no máximo, uns cento e pouco no VR em pleno dia 8. A três corredores dali, o homem, o homem em busca de cervejas porque é sexta-feira, é hoje o dia, a prioridade, e talvez seja tudo culpa dessas malditas dobras na barriga.

– Tava ruim?

– Não, amor. Deixa disso. Meu pau cansou mesmo. E eu também. Bebi muito.

– Mas se você não gozou, é porque não tava bom!

Depois do vazio do gozo, essas coisas que inundam. Uma raiva preta, amarrotada por cima dela, como que colada sobre a sua verdadeira pele, que, lá dentro, no fundo, é lisa, firme, uniforme, e não pelancuda, cheia de furinhos, manchada. Essa é a capa que o tempo colou sobre ela, isso, isso mesmo, essa não sou eu. No carrinho do supermercado, sobre as cervejas holandesas, 4 pacotes de lasanha bolonhesa e 2 pizzas de calabresa. Alto em Sódio; gordura saturada. Cada um sobrevive à Samsara como pode, na base de promoções imperdíveis. Já com a camiseta, ela deita virada para o outro lado. É o seu jeito de ficar com raiva. 

– Nada a ver. Você tava tesuda pra caralho. Você gozou?

– Duas vezes. Eu precisava disso.

– Pra mim, tá ótimo.

O pau dele sente o fantasma de uma última latência. A boca enxaguada pela cerveja, com o barulhinho de gargarejo e tudo. A paz. Paz apesar de tudo, do emprego PJ, da chefe que manda mensagens nove da noite num sábado, da coleguinha que surtou no escritório e arrebentou um monitor Acer na parede do escritório, paz na terra aos homens de boa vontade apesar de pegar o meia cinco oito, uma pombada com amor sara tantas feridas. É, amar é trabalhoso, um pouco engraçado. Às vezes é sentir absolutamente nada, sem argumentos.

– Mas você não gozou.

– Já te disse, não tem problema isso pra mim.

– Eu fiz algo errado?

– Não mesmo.

– Então qual foi o problema?

Agora ela virou para o outro lado. Para ele. É o seu jeito de tocar a mesma tecla. A mesma tecla. A mesma tecla.

– Não tem problema nenhum, amor.

– Desculpa eu estar tão sedentária. Meus joelhos não aguentam mais como antes.

– Nada a ver! A gente transou um tempão aqui.

O jeitinho de ela esfregar o joelho. O roçar de um tipo de pele – a da mão – na outra – a da perna. Faz um barulhinho. Coisas quebradas têm uma história triste, mas podem ser tão bonitas. Imagina a cara dela, os olhos brilhando fodidamente. Os lábios muito finos, como os de um bebê. O bebê que ele não fez nela essa noite. Que fará em outra. O bebê que eles poderão estragar juntos, entupir de arroz, macarrão, peito de frango e iogurte em alguns anos.

– Mas você não gozou!

– Quem liga pra isso é adolescente, amor. Foi uma foda épica!

– Então eu não fiz nada errado?

– Claro que não.

– Então qual foi a sua parte favorita?

– Ah, todas…

Ele é um homem sem imaginação. Ela sabe disso. Mas deve haver alguma coisa aí, alguma coisa cujas entrelinhas ela ainda não captou. Deve haver, tem que haver. Porque se não houver, quer dizer que está tudo bem. E estar tudo bem é estranho.

– Não, amor, para! Qual foi a sua parte favorita, anda!

– Ah, acho que foi ver o seu rabão de quatro.

– E dava pra ver?!

– Ah, um pouco. Quando o ventilador bate na cortina, entra uma luz assim, rapidinho.

Alguma coisa errada. O ventilador. A luz. Alguma coisa muito errada. Celulites! O alívio de estar na pior, o pior te abraçando quentinho, cheeck to cheeck, o pior é a sua volta para casa, o caminho trilhado mil vezes, o útero, mas você já está grandinha e seus ombros passam com dificuldade absurda, mas tudo bem: o importante é que o pior é a sua cerveja holandesa na promoção, para onde você sabe que pode correr sempre que não souber como se sentir e sempre que sentir medo. As celulites provam que você, por fora, está ficando cada vez mais parecida com como você é por dentro. Alta em noias. Saturada. 

– Desculpa estar tão gorda!

– Po, nada a ver. Um cuzão desses, quem ia reclamar de ver isso?

– Mas você tá falando do meu cu ou do meu rabo?

Meu deus, você é muito literal, Ellen!

– Meus deus, você é muito literal, Ellen!

– Qual dos dois?

– Eu gosto dos dois! Tava olhando os dois, pronto!

– Meu cu cumpre ou excede as suas expectativas?

Do mesmo jeito que ela escreve quando cria seus questionários no trabalho. Numa sequência que faz sentido num contexto específico – ou seja, nesse caso, sentido nenhum, porque o coraçãozinho dela tem um quê de anarquismo epistemológico. Do mesmo jeitinho, que engraçada ela! Como quando eles se conheceram. Ela aplicando entrevista em profundidade, algo sobre o uso de um aplicativo voltado à oferta de serviços de reparos para casas ou coisa que o valha. Quem se importa? O que importa é que ele respondeu o formulário online, deixou o e-mail para contato e ela apareceu cheia de perguntas. Cheia de perguntas. E ela sabe como perguntar. O jeitinho.

– Cumpre, ué.

– Então quer dizer que ele não é melhor do que você achava que era?

Como exceder as expectativas. Ver: pompoarismo. Ver: Kegel? X-videos. Pesquisar: Ass. Big ass. Brazilian ass. Teen ass anal. Cu. Assistir mais tarde: Adoro dar o cu mas tem que ser com força. Casal Japão slz so no cu. Dando cu sorrindo. Relaxando o cu com as mãos. Sou submissa use meu cu. O objetivo é a glória; o caminho, o excesso. Candy Crush: mulher, Atriz pornográfica, 24 anos. Subscrever.

– É um puta cu, Ellen, o que você quer que eu diga?

– Eu quero saber porque você não gozou.

– Você quer mesmo saber?

– Sim!

A verdade que vos libertará: que minha bunda tem estria. Que minha barriga aparece um pedacinho se você olhar entre as minhas pernas quando estou de quatro. Que eu roí as unhas e não posso te arranhar, nadinha de nada. Que eu não pinto mais o cabelo. Que eu seria uma péssima Suicide Girl. Que minha boceta fez aquele barulho de peido uma hora. Que eu esqueci de falar quando gozei a segunda vez e só gozei. Que eu não vendo pack do pezinho. Que eu te amo, caralho, eu te amo! 

– É porque eu bebi pra caralho. Sei nem como ele levantou! Deve ser porque você é muito gostosa.

– Ai, deixa de ser mentiroso. Eu tô horrível!

– Só na sua cabeça mesmo.

– É verdade. Nem quero acender a luz mais. A minha barriga tá horrível.

– Deixa de falar besteira.

– Besteira nada. E essa pochete aqui?

E a mão da bebê agarra a dele e vai direto para a barriga. Ele sente um pedaço de carne entre os dedos, a textura de uma pele fina. O dedão caindo um pouco para dentro do umbigo apertado e ainda úmido, tudo muito mole e quentinho lá dentro, sem fundo, sem fim, um delicinha. Um homem de prazeres simples: um cu, uma cerveja holandesa, um umbigo fofo, a lasanha bolonhesa lá no congelador, só esperando. O que há para teorizar sobre tudo isso afinal?

– Eu acho o maior tesão!

– Hum, sei.

– Ué, eu já te falei isso. A gente nem namorava. A mulher com um rabão gostoso que nem o seu e uma barriguinha. Uma garota top show.

– Mas não é só isso. Meus peitos tão caindo!

– Caindo onde? Você mal tem peito.

– Ah, então é por isso que você não gozou?

Me ajuda amor. Me ajuda.

– Como assim?

– Por que eu não tenho peito.

– Nem de peito eu gosto.

– Mas eu tenho peito.

– Te decide, mulher. Você tem peito ou não tem?

– Eu tenho. Um pouco. Eu acho. Ele fica assim meio estranho quando eu fico de quatro. Meio murcho. Parece peito de gato.

– Do quê?

– De gato. Sabe a gata, quando tem os filhotes? Aquela coisinha murchinha?

Ele ouve o barulho das cobertas se arrastando. É ela, que o agarra e guia sua mão novamente até o seio esquerdo, já de quatro. Aquele rabão pra cima, a coluna arqueada. É que o peitinho balança mais assim. Aquele excesso de xiri logo em seguida, raspadinho, com uma camada já endurecida de fluidos por fora e brilhosa por dentro, o pau animando, um último golinho da cerveja. Obrigado, Senhor, muito obrigado!

– Tá sentindo?

– É um peito, ué.

– Peito murcho.

E ele, por de trás dela, o peito ainda na mão, mordendo a omoplata, não deu nem tempo de levantar pra esquentar o forno antes de enfiar a lasanha lá dentro. Enfia outras coisas, devagarzinho. Ela suspira, e o portal rumo ao mais profundo nada começa a se abrir novamente. De-va-gar-zi-nho.

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