
UM
A gata da rua pariu 3 no seu quintal. Sem saber o que fazer com aquilo, Dinaura coloca os recém-nascidos em uma caixa, e a caixa dentro de uma sacola de supermercado. Anda sem rumo com o pacote contra o peito. Na praça arborizada, protegidas do sol pela sombra da figueira, crianças brincam no tanque de areia sob os olhares desatentos das babás. Dinaura procura o banco mais afastado. Senta-se, levanta e vai embora com as mãos abanando. Detesta bichos, mas não é capaz de matar.
(estaria a gata mãe desesperada? Repele a pergunta com o mesmo gesto que espanta a mosca que acompanha seu cabelo)
Dinaura entra em uma farmácia e compra um Allegra. Julga a vida injusta. A primavera só lhe dá alergia.
DOIS
Deserto na multidão, o homem multiplica a solidão por dez e o corpo tomba com o fardo extra nas costas.
TRÊS
Uma camisa masculina está só, sob a lua cheia e o céu laranja de Lisboa. Os braços largados e o algodão úmido lutam contra o tempo na missão de secar. Naquela tarde, a camisa guerreou contra o corpo que a vestia, absorvendo o suor de um pulmão desesperado. Despida da função vestuário, exposta à uma prevista chuva, o tecido xadrez perde a batalha e não salvaguarda último abraço que deu.
QUATRO
A urgência de Jean não o permite desabotoar a camisa e ele a arranca pelo pescoço. Observa o girar do tecido na máquina de lavar roupas enquanto pondera as palavras certas na necessidade de ser límpido em tudo que precisa dizer. Uma declaração de início de guerra é sempre verbal. Um rompimento entre duas pessoas é um combate de longa escala. Nu, Jean reflete sobre os pilotos camicases. Sabe que em japonês o termo significa Vento Divino.
…
Jean desrespeita mapas, sobrevoa áreas, explode outras. Somente ao ser bombardeado, realiza que a relação que julga pertencer já não é matéria localizável. O ciclo da lavagem termina e algo nesse final o conforta. Jean abre a janela. O inverno é rigoroso, mas é o ranger da persiana que gera nele o calafrio. Se aquela camisa fosse pele, estaria machucada. Se fosse personagem, estaria morta. Mas Jean não é um homem flagelado e busca na gaveta outro agasalho. Não encontra uma possibilidade de rendição à vista. O Vento Divino cumpre muito bem o seu papel.
CINCO
Hoffmann, o enfermeiro do manicômio, cala um interno agitado. Com a mão em seu pescoço executa movimentos ascensionais e inversos em concordância com os inspiratórios e expiratórios do paciente. Não é o único a fazer isso, tampouco o caso é isolado. Todos os funcionários praticam a velha estanqueira: a constrição rápida que provoca em um primeiro momento e logo de início a perda dos sentidos daqueles que incomodam. Hoffman para o gesto a milímetros do segundo período da esganadura, o que provoca a insensibilidade completa seguido de morte súbita.
SEIS
Lucia e Roy seguem no táxi, constrangidos. No destino o carro encosta ao passeio. Os dois continuam estáticos no banco de trás. Lucia deve regressar ao escritório. Roy lamenta que o encontro tenha se demorado tanto, três ou quatro interrogatórios ainda o esperam.
Os olhos de Lucia pestanejam por trás dos óculos escuros quando o investigador da polícia orienta para que ela não revele a mais ninguém que está em posse do dinheiro do desfalque. O taxista interpela se a corrida afinal acabou ou não. Lucia desce e diz na festa da janela aberta que Roy é quem deve quitar a corrida, afinal ela pagou o motel.
SETE
Dulce abre, lava, destripa, despela e desmembra o animal. Seu corpo magro transpira no esforço físico que o ato exige. Maneja a faca segura, acostumada a executar a função sozinha. Não há estômago capaz de ajudá-la na tarefa da desmancha. Ora, ora, quem fez este lindo serviço queixa-se diante do sangue em demasia. Pela hemorragia, percebe que o abate do javali não fora imediato. Mais tarde, mexendo as groselhas para que o molho não grude na panela, pensa sobre como a destreza masculina é por vezes incapaz de dar o tiro certeiro.
OITO
Mateus está e não está na conversa. Pouco fala, atento aos graves e agudos que acontecem ao seu redor. Se pirulita ao fisgar a isca de um assunto mais interessante.
NOVE
Ele não se resume de modo algum. Não é nem mais nem menos. Às vezes calado, às vezes selvagem. Furioso no que poderia ter sido calmo e passivo diante de circunstâncias acaloradas. A gestualização excessiva contrasta com a própria figura: um oportunista ermitão, batalhador desonesto, sofisticado insolente. A má companhia magnífica. Conservador anarquista anjo com pandeiro de Donatello. Ele é nosso velho conhecido. O amigo que gostamos porque sim, sem sabermos quem de fato é.
DEZ
Venâncio mora em um sítio alentejano que não dispõe de cercas. Para Trompete, seu cão, todas fronteiras são abertas. Uma noite o animal não retorna. Venâncio percorre todos arrabaldes de Mértola, aldeia por aldeia. A fotografia de Trompete tem seu contato atrás, no caso dele ser avistado. Venâncio farta-se de chorar a cada toque que o telefone não dá.
Jura a si mesmo nunca mais ter cão algum.
…
Venâncio está velho, sem pernas para acompanhar a energia de Gin. Na excitação da infância canina, o beagle se afasta para muito além da distância que os olhos de Venâncio conseguem acompanhar. Atrelada a um dispositivo acionado remotamente, a coleira do cão emite bip bip bip semelhante a um monitor de sinais vitais hospitalares. O artifício não possui a tecnologia de um GPS, cara demais, mas é indolor, diferente dos usadas nos adestramentos e que podem vir a provocar pequenos choques elétricos ou vibrações.
Gin some, feliz. O aparelho emite bip bip bip. O cão volta. O coração de Venâncio faz bip bip bip.
ONZE
A ossatura de Joana é gritante, seus poucos resquícios de carne quase a desalojam do corpo. Disfarça a magreza excessiva com peças de roupas estampadas, descoordenadas entre si, e seu reflexo no espelho se confunde com o flamingo do papel de parede.
DOZE
A água quente entra em contato com as folhas de Camellia sinensis no pequeno bule de louça em uma explosão que rodopia o líquido. A xícara é pequena, perfeita para o abraço da mão. Da mesa, Nina vislumbra além das cortinas a estrutura arbórea. Não longe, o vento penteia os arbustos do chá que agora ingere. A teína ajuda a manter a concentração ao mesmo tempo dá margem a um estado meditativo. Dez minutos depois, o dia de Nina corre melhor.
TREZE
Claudia pega leve nas palavras porque a língua dá solavancos em seu corpo.
CATORZE
O mau tempo que gera ondas de quatro metros obriga o velerio Sandra Rosa Madalena a voltar para perto da costa. O regresso é feito de encontrões, pratos a tombar e vômito dos tripulantes.
CATORZE
O funcionário do chaveiro, empenhado em abrir o cadeado da maleta sem estragar o fecho, voou longe na fantasia: aposto que há dólares, armas, documentos secretos, heroína. Fã do Tarantino, ele.
QUINZE
O diário é um colecionador de memórias manuscritas. Também divã, passatempo e penico. Uma mitocôndria confessional que oferece colo diante de um abandono não consentido. Sílabas soltas, poemas, aflições e sirenes mudas empapam de suor a caligrafia sem critério, exigência ou qualidade. A solidão imutável preenche as páginas entre dias de tutano com dias de tragédia, momentos desbotados ou corados de estrangulação. O fim não poderia ser mais assertivo: Joseph morre hoje, as dezessete e trinta. Aos noventa e seis anos, o filho da puta ainda passava cantada barata na enfermeira. Ponto final.
DEZESSEIS
Vivian não discerne o que odeia mais: ser a única garota da escola que não corta os cabelos, ou não poder cortá-los por ser a filha da crente. A mãe é uma carola, de moralidade conservadora que beira o fanatismo. Vivian precisa ser diferente porque não suporta ser a diferente. Uma tarde vai escondida ao cinema. No filme do Hitchcock Marnie a ensina que é possível roubar a própria vida. Liberta da impotência juvenil, arrematada em uma quase loucura, brinca de ser a personagem e pinta os cabelos.
Marnie lava os cabelos na pia do hotel, Vivian o faz no chuveiro. Marnie retira a tintura castanha, Vivian aplica esta cor. Somente quando Marnie levanta a cabeça loira a garota viu o rosto de Tippi Hedren. No espelho, Vivian desafia a si mesma na tentativa inválida de ser outra. Na sua cabeça permanece o fotograma da cena em que Marnie confronta Bernice. Mãe, por que você não me ama? Por que nunca me amou?
(Glaucia Faria)
