
Musa do fotógrafo iconoclasta Nobuyoshi Araki – autor do clique acima – , Izumi Suzuki começou como modelo e atriz de filmes pink, gênero japonês de filmes pornô underground que não mostram genitálias. Casada com o saxofonista de vanguarda Kaoru Abe em um relacionamento notório pelos excessos e escândalos, passou a escrever febrilmente ficção científica e ensaios sobre cultura pop depois que Abe morreu de overdose. Anos mais tarde, aos 37, ela abortou a própria vida com o auxílio de uma corda. Em vida ainda foi comparada a Octavia Butler, mas só há pouco tempo sua obra vem sendo largamente publicada pelo mundo, depois de sair em inglês em 2022. Claramente Suzuki estava à frente do seu tempo (como se espera de uma japonesa).
As convenções de gênero escancaradas, os métodos para anestesiar ou esquecer, o vício em telas e a distorção entre realidade e espetáculo: a obra de Suzuki, escrita durante os anos 1970 e 1980, parece estar mais próxima do atual Black Mirror do que de muitos clássicos da ficção científica. É o caso das viagens de consciência de “You may dream” e de “Lembranças do Seaside Club”, da distopia queer “Um mundo de mulheres com mulheres” e da violência televisionada de “Tédio terminal”, conto que dá título ao livro Tédio Terminal (DBA). Ainda que, é verdade, não faltem a estas histórias boas doses de fantasia e absurdo, como poltronas falantes, pretendentes amorosos alienígenas e tensões diplomáticas interplanetárias.
Izumi Suzuki empresta a seus narradores e protagonistas uma voz emocionalmente desapegada que torna este conjunto tão singular quanto perturbador. Somando as inúmeras referências à música e ao cinema, as complicações dos relacionamentos familiares e amorosos, e um inconformismo não histérico, que aponta os arranjos sociais e vira o espelho para nós, a coletânea de contos Tédio terminal permanece como quem a escreveu: única, radical e eternamente jovem.
“Seja ao tratar do veneno da tecnologia ou dos sentimentos privados de solidão e desejo, há uma complexidade psíquica na ficção de Suzuki… Tédio terminal é motivo de celebração.” – Jason Parham, Wired
Tradução: Andrei Cunha, Rita Kohl e Eunice Suenaga. Editora DBA

























PROPOSTA
A premissa é semelhante ao começo do conto “Smoke gets in your eyes”: de repente, seu personagem ficou muito, muito, muito velho.
Talvez não seja tão interessante contar ou justificar como aconteceu isso, nem detalhar os motivos pelos quais o personagem ficou velho, e isso o que acontece com esta realidade. Como o seu personagem descobre que ficou velho? Através dos olhos dos outros? Dos seus próprios? Do seu comportamento? Do modo como se relaciona com os outros?
O que acontece fisicamente? O que acontece mentalmente? O que acontece socialmente?
Narre um dia na vida desse personagem que de uma hora pra outra sente que tem 100 anos de idade, na primeira pessoa, em até 9 mil toques.
