No fim das contas
Sherazade narra sua última história. O rei Shariar lhe declara seu amor e promete mantê-la viva. Na milésima segunda manhã, Sherazade toma a cimitarra do rei e decepa a própria língua.
O peso da ópera
O gato Pavarotti dorme vinte horas por dia e come durante uma hora. Tem os quilos de quatro gatos esquálidos e um miado grosso, motivo de seu nome. Nas três horas restantes do dia, se locomove saltando de algum móvel sobre os humanos que passam por ele. Os humanos têm roupas cheias de furos, costas arqueadas e ouvidos finos.
João 13:6
Um casal de jovens viaja ao Rio de Janeiro. Ela é de família rica. Ele, de família pobre. No calçadão de Copacabana, a garota pisa numa merda mole que se espalha por sua Havaiana de cento e cinquenta reais. Ela paralisa e repete compulsivamente que pisou em merda humana. O garoto lava o pé da garota, retira a merda por entre os dedos, retira o marrom de seu calcanhar rosado. A garota conta a todas as suas amigas que lavar seu pé sujo de merda é o maior gesto de amor que já recebeu. O garoto ouve o elogio em silêncio, pois merda é tudo a mesma merda. Talvez todo gesto de amor também seja, ele pensa.
Anatomia de uma premonição
Junto com o nascimento do primeiro neto, Maya começa a sentir uma dor no joelho esquerdo de tempos em tempos. Lembra-se de sua própria avó anunciando a chuva, que sempre vinha logo depois de uma dor no joelho. A dor no joelho de Maya vem, vai embora e o sol segue firme a sangue-frio na sua Cuiabá. Quando chove sobre seu telhado, Maya não sente nada.
A bem da verdade, sua dor no joelho de fato anuncia a chuva: em Sidney, na Austrália. Enquanto embala a terceira bisneta no colo, Maya ignora que desconhecer um dom não dói tanto assim.
O amor e seus gestos
O livro é Feliz ano novo, edição de 1975. Primeira edição, terceira reimpressão. Pertenceu ao seu pai, quando adolescente. Quando criança, você acorda uma noite com um incêndio no quartinho de empregada do apartamento, usado como escritório e biblioteca por seu pai. Quando adolescente, você recebe o livro, com todas as extremidades chamuscadas e a capa soltando, mais bonitas que o desenho da capa. Você ama o livro por dentro e por fora, tanto por dentro quanto por fora. Ninguém na sua escola gosta muito de ler, riem de você, mas você não liga. Você ama o livro. Mas uma menina te vê lendo e pede emprestado. Ela também gosta de ler, romances sobre vampiros adolescentes. A vontade de encontrar alguém que ama o que você ama, alguém que não seja o seu pai, te faz ignorar os sinais. Uma semana depois, ela diz que leu apenas um conto e não gostou, achou muito cru. Mas, ela sorri, tem uma supresa. Tira da mochila o livro encadernado, com as páginas todas furadas presas por uma espiral de plástico preta. Sobre a capa, há uma folha de vinil transparente. As partes chamuscadas estão menores. Você agradece e vai embora. Seu pai vê o livro e chora. Você vê seu pai chorando ao ver o livro e chora. O livro vê você e seu pai chorando e não faz nada.
Marca de origem e destino
O Parque Nacional da Serra da Capivara abriga, além dos despencantes cânions e dos pétreos macacos-prego, os mais remotos registros de presença humana nas Américas. Deles, surge a base para a Teoria do Atlântico, defensora de uma migração anterior à do estreito de Bering, a partir da África. Nos mais de mil sítios arqueológicos do parque, há vestígios de fogueiras, pontas de pedra polida e a maior concentração de pinturas rupestres do mundo, na cor avermelhada do ocre. Um casal afrocentrado escolhe a Serra da Capivara para sua lua de mel. Querem ver as pinturas de seus ancestrais e lhes falta dinheiro para ir à Etiópia. Passam a noite num hotel em Raimundo Nonato para seguirem aos sítios arqueológicos pela manhã. A esposa vê no celular do marido adormecido fotos dele com outra mulher (sua cor não importa).
O marido acorda e vê no espelho do banheiro a palavra “ADEUS”, escrita com batom de cor ocre da marca Dandara Black.
A fresca carne da vida
Um homem de asa-delta voa ao lado de sua urubu de estimação.
Raça ruim
A cachorra Pitty é encontrada por uma família virando latas numa rua de Rio Branco. A filhinha chora ao pai, que prefere cães de raça, mas acaba por ceder. A cachorra Pitty ama a ração, os pedaços de osso, as mutucas que rondam a casa e que ela caça sem dó. Ama as crianças, a mãe e até o pai, que a odeia. Mas ama mais a rua. Por isso sai todas as manhãs e volta no começo da tarde, com a fome. O pai põe cerca de arame no portão, ela rói o arame e passa pelos buracos com seu corpitcho caramelo com manchas brancas, quase uma rata grande. Ela revira o lixo dos vizinhos e importuna os cães presos nos portões. O pai diz que a cachorra Pitty é uma fujona. A cachorra Pitty lambe a mão do pai: assim lhe diz que é apenas uma abridora de portas.
A filhinha acorda numa manhã e encontra a cachorra Pitty rodopiando e cuspindo sangue em agonia. À noite, o pai deu-lhe um bife recheado de vidro moído. O pai pega a filhinha no colo e diz que os vizinhos são uma raça ruim.
Filho de peixe
Um jovem goitacá faz três cortes no peito e mergulha no mar com uma estaca de pau-ferro. Reaparece horas depois na praia, arrasta um tubarão-cabeça-chata com a estaca de pau-ferro trespassando da boca à cabeça. Oferece a carne para sua aldeia, confecciona e coloca no pescoço o colar com os dentes de tubarão: a prova de que é um homem. As anciãs sorriem.
Fecha as asas sobre nós
João Cândido, dentro de uma cela na Ilha das Cobras, borda dois lenços de rosto. Suas mãos empunham a agulha e a linha, que dançam. Dançam como os navios comandados por ele dançaram na mesma Baía de Guanabara, onde agora está preso. A linha e a agulha são seus navios, o pano branco dos lenços é seu mar. A linha marca o pano assim como as linhas das chibatas dos oficiais da Marinha Brasileira marcam suas costas.
Termina de bordar. O primeiro lenço traz, centralizado em cima, o título da obra: “O Adeus do Marujo”. À esquerda, “J.F.C.”, suas iniciais. À direita, “Ordem”. Centralizada em baixo, uma âncora emoldurada por ramos de louro. Sobre ela, dois braços em sentidos opostos, com as mãos em encontro. Tanto se cumprimentam quanto disputam a âncora. Um dos braços veste manga branca com divisas de almirante. O outro braço veste manga azul-escuro sem divisas, de marinheiro. Na parte inferior do bordado, “Liberdade” e “XXII de novembro de MCMX”, data do início da revolta liderada por ele. O segundo lenço traz, em cima, duas pombas brancas em vôo estendendo pelo bico uma faixa com a palavra “Amôr”. Sob a faixa, um grande coração atravessado por uma espada militar. Das duas perfurações, pingam gotas de sangue bordadas em linha vermelha.
Os dois lenços são expostos num museu de uma pequena cidade brasileira, distante do mar. João Cândido morre apequenado, amaldiçoado pela Marinha, que jamais permite sua nomeação como herói nacional, muito menos seu título de Almirante Negro. A palavra amor segue existindo no coração dos mártires, dos tiranos e das meras vítimas. Mas sem o acento circunflexo, que virou um pássaro e sobrevoa o oceano Atlântico para sempre.
Não me iludo
O orixá Tempo é uma árvore. Antes da leitura, o orixá Tempo é uma árvore. Depois da escrita, o orixá Tempo é uma árvore. Enquanto escrevo a palavra enquanto, o orixá Tempo é uma árvore.
