Scarro´s

Solange abriu as pernas diante do espelho do quarto. Estava em pé. Curvou o quadril para frente como se brincasse de grávida, barriga toda para frente. Abriu a vagina com o indicador e o médio. Seria mais fácil se ela pegasse o espelhinho da bolsa, mas em vez disso buscou o banco, postou-o diante do espelho que se estendia do chão até quase um pouco mais que sua altura. Sentou-se no banco, as pernas distantes entre si, as coxas escancaradas feito compasso e tentou se examinar daquela posição. Sua vulva abaulava-se de um jeito que fazia Solange pensar numa antiga xícara de porcelana, toda cheia de frufrus e firulas e a imagem de uma donzela século XVII de leque perseguida por um rapagão de meias e peruca. Mas em vez de ornamentos havia pentelhos e no lugar de uma ilustração barroca havia sua fenda. Os lábios internos experimentavam o sabor fresco da atmosfera, uma linguinha marota. Solange reconhecia que eram lábios assimétricos, cortinas fechando de modo desigual uma janela.

(Um dia no futuro ela fará uma cirurgia para sanar essa imprecisão. Uma vaidade besta, uma para quando a sombra da idade ameaçar se impor. Por agora, ela não se importa, porque sabe que os garotos não se importam. Eles só querem meter e meter e meter e para isso não precisam ver o que tem embaixo)

O telefone tocou lá na sala e a mãe chama Solange para atender. Ela veste uma calcinha e uma jaqueta surrada de couro que roubou de um playboy babaca e desce para atender. É Marcinha. Diz que vai colar num rolê na cidade, “a cidade” era como o povo dos bairros e de outras lonjuras chamavam o centro com seus bancos, lojas de departamentos, mendigos e trombadinhas. Era inauguração de uma casa chamada Scarro´s e umas bandas iam se apresentar. Dentre tantas, Lobotomia, Rejeitados, PM do Caraio, iriam se apresentar Os Pústulas. Marcinha tinha uma queda pelo batera e queria companhia. Solange velha só chegaria nesses muquifos com as vacinas em dia e em carro blindado. Solange nova faria qualquer coisa para não ficar de bobeira no sábado.

Catou uma grana onde o pai escondia uns trocos, se vestiu e vazou para casa da Marcinha. A mãe não quis deixar, Solange saiu batendo a porta. Foi de ônibus, sob os olhares dos demais passageiros, incluindo duas senhorinhas Assembleia de Deus ainda incapazes de entender direito o que era um punk.

-Tipo roqueiro?

-Uns de cabelo arrepiado, jaco de couro, coturno e corrente.

-Crim deus pai, essa juventude fica vendo filme na TV e olha o que dá.

-Falta de Jesus.

Solange nunca teve falta de Jesus. Como toda casa com sangue português, havia um nicho para Nossa Senhora do lado externo, uma cruz no quarto dos pais, uma santa ceia na cozinha. Solange nunca teve é interesse naquele homem e seus pais nunca se preocuparam direito com isso, eram de uma época em que religião estava no ar, respirava-se, quando veio a tv e a fumaça e os livros e os rádios e os discos, tudo isso acabou engolindo aquela pequena Idade Média e Solange foi para bem longe.

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