Tá relampiano

por Américo Paim

Fora d’água

Um homem está na sala, à toa, em um canto do sofá. Sua mulher do outro lado, na poltrona, explora o celular. Ele não repara no vestido novo dela. Os dois cachorros latem demais, mesmo para pequenos Yorkshires. O homem ouve aborrecido. Vai à janela e assiste, impassível. No chão da área externa da casa, toda cimentada, está um peixe, contorcendo-se. Os cães acabarão por matar aquele desafortunado. Ele não questiona como o pobre foi parar ali. Nota que o ferrolho da janela está quebrado. Volta ao sofá.

Mentiras

Um cunhado conta histórias fantasiosas sobre suas posses ao dono da casa antiga e simples que tem cheiro de alecrim. A cada valor declarado, ele funga e passa o dedo indicador no nariz, da direita para esquerda, como a alimentar páginas em uma máquina de datilografia. O dono da casa lhe oferece chá. Declina. Não tem da marca inglesa que ele gosta. No quarto as duas esposas conversam. A mulher do cunhado diz que ama o marido e espirra muito forte.

Tatuagens

A garota com top vermelho está com óculos escuros e toma um café gelado no metrô. A seu lado senta-se um rapaz. Ele sorri pidão. Tem tatuagem de serpente, igual à dela, no mesmo lugar, o pulso direito, mais próximo do escafoide que do semilunar. Ela bebe um longo gole. Ele sorri de novo. Ela observa com detalhes e percebe que a tatoo é feia. Perde a sua parada.

Malabares

O feirante merca maçãs. Oferece três pelo preço de duas. A cliente aceita. Ele joga cada uma para cima, apenas para pegá-la de volta na mesma posição e inseri-la no saco transparente. Mostra os dentes desarrumados a cada proeza. Ele tem uma cicatriz no pescoço. Ela vai embora sem as frutas.

Aromas

O ônibus perde o controle ao fazer a curva, destrói a cerca frágil, adentra a sala da casa, passa por cima do sofá, parando diante da TV velha. A senhorinha no vaso sanitário escuta cada vez pior e enjoa com o mau cheiro. Tem a sensação de que o volume do programa está muito alto. Através do vidro quebrado, o motorista sente cheiro de carne assada.

Matemática

O pai chama o filho pequeno e seus dois amiguinhos que estão brincando no parque. Quer saber se eles sabem contar. Quantos dedos vocês têm nas mãos? Dez, dizem todos. Ele rebate: vamos ver. Abre sua mão direita e conta decrescente os cinco dedos: dez, nove oito, sete, seis. Abre a mão esquerda e diz: com cinco dá quanto?

Olhares

Uma mulher veste branco e tem nas mãos grandes sacolas. Caminha no piso cinza do shopping. Olha as vitrines. Um menino brinca com o carrinho amarelo. Um segurança olha a mulher. Ela pisa errado, perde o equilíbrio. Ele se lança para segurá-la e coloca as mãos sobre seus seios. Eles se olham. O menino chora diante das rodas quebradas. O conteúdo das sacolas se espalha. As roupas, os sapatos, o revólver.

Fluidos

Um mecânico inspeciona a viscosidade do óleo escuro, drenado do carro suspenso no elevador. No banheiro da oficina, o sangue do dono escorre escuro pelos cortes nos pulsos. É quase hora do intervalo.

Cortes

Uma ciclista para diante de uma árvore. Ela lê na placa retangular que tem uma ponta partida: Acácia. Lembra da avó, seus olhos verdes, seus carinhos, a textura das mãos velhas e macias. Alisa o tronco e corta o dedo em uma pequena farpa.

Cai o rei

Dois rapazes jogam xadrez em uma mesa pública no parque. As demais ao redor estão vazias. A partida está por um fio. Um pássaro preto e grande aterrissa de surpresa, faz cocô e derruba o rei das brancas.

Mão dupla

Com uma bengala, o homem velho caminha devagar, distraído. Se aproxima da esquina onde uma bombona tombada na calçada espalhou óleo, que escorre para a rua. Dois carros em alta velocidade se aproximam do local. Lágrimas descem desgovernadas e arruínam a maquiagem da moça debruçada em uma janela. Na mão, o cigarro se esvai. Na contramão, a noite se avizinha.

Amor

A menina está do outro lado da mesa do lanche escolar. O menino lhe fala o quanto é linda e ele está apaixonado. Lhe conta todas as noites que passou sonhando com ela. Seu amigo, sentado junto a ele, lhe diz em libras: “em que está pensando?”.

Livro

O leite ferve e transborda na pequena panela. O ruído característico do líquido quente sobre o metal da carcaça do fogão não altera o comportamento do rapaz. Faltam poucas linhas para o fim do livro.

Liberdade

Ele compra um pequeno sítio. Quer se sentir mais livre. Coloca grades nas janelas, câmeras espalhadas e cerca a sede da propriedade.

Macumba

É sexta-feira e ele veste branco. Mais um dia quente em Salvador. Mais perguntas sobre macumba.

Instagram

A comida parece gostosa. Pratos bonitos, copos e talheres arrumados. Pessoas em roupas novas. Música ambiente de primeira. Filma e fotografa tudo. Compartilha. Um dos garçons lhe sorri e parece bêbado. Ela tira uma selfie com as amigas, mas perde o Monet combinando com as cores dos guardanapos.

Como sempre

Ele mantém seu cão feroz preso quando vai trabalhar. Há dias segue com problemas na empresa e muito aborrecido. Lhe consomem tempo, humor, foco. Meninos jogam bola na porta da casa dele. Como sempre. Uma grande defesa faz a bola cair no jardim da casa. Um menino trepa no muro para pegar a bola. Como sempre.

¿qué pasa?

A música que toca pelos corredores do shopping é conhecida. Ninguém pode ignorar aquela melodia. Alguns até cantam junto. Ela também ouve. Lê a mensagem no celular. A música não combina com aquilo. A garçonete de pé ao seu lado com a conta. E não dá conta do que se passa.

Queimando

A explosão é ouvida longe. Os bombeiros atribuem a vazamento de gás. O estrago é enorme. O fogo consume tudo. É notícia na Internet. Perto dali ele sorri de canto de boca, enquanto o queijo quente do sanduíche queima sua língua.

Na varanda

Ela lhe pede de novo que pare com as mentiras. Não podem continuar daquela maneira. Ela está muito além do limite. Ele, piloto de aviões, está na varanda do nono andar, de costas para ela, ignorando-a e pensa: lindo dia para voar.

O gato

O gato descansa e se lambe na varanda. Estofados e almofadas destruídos na sala. Sua tutora desce do carro, grita seu nome, animada. O gato descansa e se lambe na varanda.

Foda-se

Pela janela, vê o emaranhado impossível de fios no poste do outro lado da rua. Está atrasada, mas nada parece levar a algum lugar. Enche a xícara até transbordar e cair no chão. Tira o sapato e pisa no líquido, espalhando-o. Faz desenhos na meleira com a bituca do cigarro. Joga os óculos sobre o sofá. Aumenta o volume do aparelho de som. Seu celular toca enquanto ela dança, lenta, “Tá relampiano”.

Peso

Carrega a última caixa desde a garagem até o carro. Há muita coisa, está pesada. Volta à sala vazia e senta-se no chão frio e chique. Há muita coisa. Está leve.

Rãs

Em uma poça d’água, uma rã nada despreocupada. Um menino se aproxima devagar, atento, à espreita. Ele ouve a mãe chamar seu nome bem alto e parece ruim. Não sabe bem se é pela rã no travesseiro da irmã ou porque escondeu o boletim. Um pássaro captura a rã e voa embora. A mãe espera no portão. Ele vai pular essa. Procura outra poça.

Obstáculo

Ela se sente acuada. Entre a porta do quarto e o corredor há um obstáculo. Precisa sair. Encontro marcado para estudar. Ele vai também e é só nisso que ela pensa. O cheiro de omelete vindo da cozinha é convidativo e ela sente que precisa daquilo. A barata também.

Três pontos

Ele lê o rótulo da quarta cerveja. Um cara corpulento na mesa ao lado eleva a voz para alguém que está na porta do bar. Discutem. O cara joga um copo na direção do outro, que se esquiva. O objeto cai na cesta de lixo que está mais para trás. Ele pensa: três pontos. Se abaixa para amarrar o tênis. O cara olha em sua direção. Ele procura a garçonete para mais uma long neck.

Por um

Uma mulher caminha para o elevador. A entrevista é no sexto andar. Só uma formalidade. Já se vê andando naqueles corredores. Ajeita o cabelo mais uma vez, frente ao espelho que tem uma pequena fratura. Um homem entra no segundo andar. O elevador trava de repente no quinto. A secretária confere o bilhete da loteria no hall da empresa. Perde por um.

Amolado

Um amolador de facas vende seus serviços diante do portão do prédio de luxo, chamando a atenção dela, no segundo andar. Ele passa veloz pelo corredor, vindo da cozinha para o quarto. Ela lembra que amolou tudo outro dia. Levanta o copo de suco gelado. Gotas caem no piso frio do apartamento. O vento traz um cheiro de pizza. Ela não saberá dizer de onde vem.

Burca

Um homem acessa um site de viagens. É um roteiro pela Ásia. Seleciona o Paquistão. Vê a foto de uma mulher e filosofa: o problema da burca é o peido.

Delivery

Uma jovem confere seu pedido de comida do restaurante delivery. Faltando as batatas fritas. O motoboy tira o capacete. Ela o acha bonito. Ele diz que vai retornar com o pedido. Ela propõe uma cerveja ali perto. Uma hora depois, no apartamento dele, pedem uma pizza.

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