Uns

Um barco chamado Mar porque o “i”, o “n” e o “a” descascaram.

Uma foto da Fernanda Torres novinha. Ela, a cara da Marina Sena. 

Uma barata grita a 15 decibéis com nojo do homem. O homem grita com nojo da barata a 87 decibéis. O cachorro da casa não entende nada e late a 91. Na rua da frente passa uma moto com escapamento a 99, a equipe da prefeitura corta uma árvore a 100 e a obra da construção no terreno da esquina está a 130. É verão em São Paulo.

Um casaco sem camiseta por baixo na hora do almoço de um agosto de aquecimento global.

Um bordado de pano de prato espera a gota de suor que se formou na raiz do cabelo. Vai passar pelo pescoço até cair no ombro da senhora de pé esquerdo pendurado no joelho direito que lava um copo sujo de batom. 

Uma menina escorada no batente da cozinha nina o cisne no colo. Cozinha de casa antiga da zona norte do Recife. Parede de cobogó, avó de costas pro batente, enfiando palito no bolo sem abrir a porta do forno até o fim. O cisne tem a barriga cor de rosa pra cima, feito um bebê, olha pra menina e pisca devagarzinho como piscam os gatos. Ganha beijos na testa de cisne. Um cisne bebê gato.

Um gato cabisbaixo se sente traidor da cadeia alimentar diante do pote de ração de arroz com cordeiro. 

Uma criança nasce em silêncio para frustração do pai músico.  

Uma vontade danada de escrever cisnei e não cisne. Arroiz e não arroz. Naiscer e não nascer. Mas o Google Docs não deixa (e não dexa).

Um exame de imagem, uma biópsia, um alívio e um cigarro antes da promessa de que esse é o último.

Uma técnica de mamografia 36A faz justiça avançando ao menos dois pontinhos de aperto em qualquer paciente que ultrapasse o 42B. Segura a respiração, segura, segura, segura só mais um pouco, pode respirar. A imagem desse saiu embaçada, senhora, vamos precisar repetir. Segura a respiração, segura, segura, não mexe, segura só mais um pouco, pode respirar.   

Um dono de sebo bem alma sebosa.

Uma forma de gelo enorme que diminui em 35% a quantidade de álcool servida em São Paulo e aumenta em 42% o lucro dos donos de bares. 

Um copo posto diante do homem e o pedido de um golinho antes mesmo que ele possa inaugurá-lo. Claro, mas não quer um só pra você? Imagina, amor, precisa não. Está feita a primeira mancha. Ele vira o copo e encosta o lábio, no exato espaço oposto ao que encostou o batom. Quase suja o nariz de rosa choque. Ela pede mais um pouco. Refazem a coreografia. Vidro maculado em 12h, 6h, 3h e 9h. As sobrancelhas do homem se aproximam na mesma medida em que se aproximam os carimbos coloridos. Encostam. A dose é deixada na mesa ainda pela metade. 

Um pedido de espaço e de divórcio. 

Um marido culpado jura não saber de onde veio aquele fio loiro no cesto de roupa suja para a mulher que além de não ter perguntado reconheceria o cabelo da própria amante até de olho fechado. 

Um cartão laranja do Itaú é encapado com papel contact preto. O estilete de precisão livra a bolinhas da mastercard e o quadrado do chip. Passa em qualquer sala VIP de aeroporto. Agora por aproximação não funciona mais não.


Uma mão em busca do controle remoto se enfia no forro do sofá no exato momento em que duas moedas, 3 grampos de cabelo, uma cartela vazia de Neosaldina, um pedaço de embalagem de pastilha Garoto, 16 migalhas de pão e 27 ovinhos de inseto davam início à reunião de condomínio.

Um estagiário do Instituto Butantan tem todos os pesadelos mal interpretados pelo analista.

Uma tese de doutorado de 4 anos e 327404 caracteres defende que sim, as aranhas também sonham. Certo, entendi. Mas com o que elas sonham?

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