A shaggy-dog story

A pessoa que me visse há pouco tempo atravessar a rua da maneira habitual, sempre rápido e na maioria das vezes fora da faixa, não me reconheceria hoje esperando o sinal de pedestre para atravessar ajuizada, na faixa, com passos lentos e cuidadosos. Me detenho na calçada, resistindo àquela ansiedade típica do belo horizontino de se amontoar já no asfalto, aguardando uma brecha pra atravessar a pista na primeira oportunidade, com ou sem o sinal verde. Meus passos hesitantes vão me obrigar a atravessar metade da avenida, parar no canteiro central e esperar o sinal abrir outra vez. Minhas juntas e joelhos doem de modo alternado, como o sinal de trânsito. Ora me incomoda o quadril direito e o joelho esquerdo, ora o tornozelo direito, os ombros ou a lombar. Ainda não me acostumei à bengala, mas ela me serve de apoio na maior parte do tempo, principalmente quando tenho que esperar de pé até que algo aconteça, esperar o sinal verde, ou esperar o taxi próximo ao meio fio. Medo de cair, medo de ser atropelada por um carro ou mesmo por um pedestre incauto. Medo é o que determina a maioria das minhas ações. Talvez se possa dizer cuidado ou precaução. Indiferente a como se nomeie esse meu novo comportamento, existe a dificuldade que me vejo enfrentando nas menores e mais desimportantes situações do meu dia, e a rapidez com que tudo isso aconteceu.

Alguns meses atrás, antes das dores e indisposições, precisei passar na farmácia depois do trabalho para comprar um hidratante e protetor solar. Enquanto esperava na fila do caixa, observei em uma das cadeiras do atendimento preferencial um senhor cuja expressão me pareceu bastante conhecida. Ele tinha as feições suaves, sua barba e os cabelo relativamente longos eram brancos, com aquele aspecto salt and pepper de quando de uma pessoa envelhecida, mas ainda não se tornou um ancião. Nossos olhares se cruzaram. O que se passou em seguida me deixou intrigada. Ele me cumprimentou com um sorriso que eu já conhecera, e um aceno de muita familiaridade, o que me causou certo desconcerto. Seria ele um parente que eu não via há muito tempo? O pai de algum colega com quem convivi na adolescência? Eu sorri e acenei de volta, depois paguei pelo meu produto, aproveitei uma movimentação na fila e saí da farmácia rapidamente sem olhar de novo na direção do amigo incógnito. No estacionamento, ao dar partida no carro e senti uma inesperada nostalgia pela pessoa que eu acabara de evitar. Respondi ao incômodo assegurando a mim mesma que nunca tive caso com pai de amigo nenhum, nem com um senhor daquela idade. Dias mais tarde, minha prima Roberta me disse que encontrara na rua o Antônio, meu ex-namorado, ex-caso de amor mal resolvido e que quase não o reconheceu, porque ele estava muito envelhecido.

Um segundo episódio aconteceu, na mesma semana. Eu saía do restaurante onde às vezes almoço, quando avistei uma senhora de cabelos grisalhos, desalinhados usando um vestido meio hippie, de tecido de algodão com estampas indianas. A mulher era bonita, apesar de estar acima do peso e apesar da roupa um pouco estranha. Ela abriu um sorriso amabilíssimo e veio me cumprimentar. Depois de beijinhos na face, ela segurou minhas mãos, me perguntou como eu estava e se eu costumava almoçar no restaurante Nascente. É minha segunda casa, ela disse. Almoço aqui quase todo dia, porque meu ateliê é ali naquela galeria, do outro lado da rua.  Reconheci então a Claudinha, uma amiga antiga que eu não via há tempos. Fiquei tão espantada que não soube o que dizer. Ela parecia vinte anos mais velha, apesar de conservar o estilo boêmio e retrô que eu antes achava charmoso, mas que agora, em combinação com seu envelhecimento precoce e descabido, me deixou perplexa e sem reação.

Demorei alguns dias para me recuperar do estranho encontro daquela tarde. A Claudinha foi uma referência pra mim em um certo período da minha vida. Autoconfiante, bonita, investiu com determinação na carreira de artista plástica e produtora cultural. Tinha a minha idade mais ou menos. Não havia explicação para a mudança física dela e menos ainda para a naturalidade com que conversou comigo em nosso encontro casual. Ainda me recuperando do mal estar com a amiga, me deparei com outro despropósito. Ninguém menos que minha antiga terapeuta, uma mulher bonita e elegante, cujo consultório eu já não frequentava havia alguns anos. Quase nada em comum com a idosa que me parou na calçada em frente à Igreja do Carmo. Helena! eu quase gritei, num susto, ao reconhecê-la sob as rugas e o cabelo embranquecido.  Meu primeiro impulso foi perguntar o que houve com ela, mas não tive como. Helena me tratou com tamanha naturalidade, foi tão amável e presente, como sempre, que me impediu de perguntar se ela estava bem ou perguntar o que estava acontecendo, ou por que algumas pessoas estavam aparecendo assim, de repente envelhecidas e agindo como se não se dessem conta do que lhes ocorria.

Minha prima Roberta me disse certa vez que que seu pai, o tio Ronaldo, tinha aparelhos antigos de rádio em casa, na fazenda Água Santa. Era a maneira dele se manter informado e planejar seus negócios. A internet não funcionava bem e o sinal de TV também era péssimo. Segundo ela, nos últimos meses, tio Ronaldo estava passando por um período difícil e não ouvia mais rádio. Começou a ler livros de maneira compulsiva e entrou em um estado bastante esquisito. Seus cabelos, famosos por sua abundância e cor, embranqueceram e começaram a diminuir em volume. Há anos não visito Água Santa ou o tio, e havia me esquecido deste relato da Roberta. O tio desinteressou-se pelos negócios da fazenda, começou a escrever resenhas de livros para uma editora e sua saúde não andava bem. Por causa de seu pai, meu tio Ronaldo, o caso do Antônio chamou a atenção de Roberta.

Antônio é poeta e tem alguns livros publicados. Quando nos separamos, ele estava trabalhando em um novo livro, com publicação já acertada. Estava bastante feliz e eu me lembro de ter perguntado a ele se o término do nosso relacionamento tinha alguma ligação com seu trabalho no livro. Ele me garantiu que não, que precisava pensar um pouco sobre sua vida e tomar algumas decisões pessoais. Me deu um envelope com papeis dentro e pediu que eu os lesse quando estivesse só. Era um poema sobre a amizade como sequencia natural do sentimento de amor. Joguei o poema no fundo de uma gaveta, andei pela casa sem vontade de nada, infeliz e cheia de hostilidade. No dia em que vi Antônio felicíssimo, caminhando pela rua de mãos dadas com uma mulher muito bonita e bem jovem, queimei o poema, as nossas fotos e a coleção de bilhetes de teatro e cinema com pequenos poemas e declarações de amor, besteiras cheias de tesão e falsidade. Puer aeternus, desapareça de minha vida, desejei. Não desejei que seu livro fracassasse, mas desejei que sofresse muito com seu novo amor. Que fosse abandonado, tratado do pior modo possível, desdenhado e humilhado. Não sou dada a desejar mal a ninguém; nesse caso em particular achei que tinha o direito de agourar o romance alheio.

Helena, minha antiga terapeuta, é analista junguiana e professora de filosofia. Depois que parei de frequentar o consultório dela, nos comunicamos ainda vez ou outra. Ela me disse em uma destas conversas, que estava escrevendo um romance. Começou a estudar escrita criativa com um grupo online e passava horas escrevendo em seu consultório, nos intervalos entre pacientes. Havia criado uma detetive de nome Doroteia, que resolvia o caso de um assassinato misterioso, acontecido em Belo Horizonte. Helena quis compartilhar comigo esta novidade, porque sabia que eu estava terminando meu primeiro livro, uma série de contos que seriam publicados por uma pequena editora em Portugal.

Tento agora me concentrar e lembrar para onde estava indo, em pé na calçada, enquanto olho para o carro que veio me buscar. Sei que é um Uber e não um taxi e sei que ainda tenho medo de ser atropelada por um veículo qualquer, um carro, moto, um cliclista ou mesmo um pedestre. Me apoio na bengala e confiro a placa do Toyota Corolla parado junto ao meio fio. Com sorte, meu percurso e meu destino vão estar registrados no aplicativo do motorista. Querer fixar o mundo em palavras, pensei, enquanto entrava no carro. Uma espécie de cerração me nublou a mente. Já não sei muito bem onde estive nem qual o meu novo itinerário. Cada leitura de um texto, feita até pela mesma pessoa, é outra, embora as palavras sejam as mesmas sobre o papel, penso, entre nuvens de palavras.  Será que nossos escritos nos roubam anos e colágeno, pensei enquanto o carro atravessava a Avenida Getúlio Vargas. Como praticar a arte da escrita sem perder o alento?  A arte de confiar, sem intervenção desnecessária, a ação sem esforço. Como não agir? Como não fazer, como me mover com as palavras, a favor delas? Como, se o nome que pode ser falado não é o nome eterno? e se eu parasse de me esforçar e praticasse a arte de não tentar? Confiar, sem intervenção desnecessária, como uma flecha que busca seu alvo. A procura sendo o encontro, o encontro sendo a procura, indo, e continuar sempre indo. Não podemos fixar as palavras. Como  despertar? Não há solução, só remédio, o problema é a solução, a solução é o problema. Outras vidas, vidas e problemas que não são nossos. Não quero morrer sem ter vivido. O que a vida quer de nós é vida. O carro atravessa uma alameda margeada de ipês amarelos. Com toda a secura dos últimos meses, o ipê resiste e se veste de cor. Devo deixar o outro olhar para a própria vida e guardar minhas forças pra emudecer e escutar.

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