SE NÃO SANGRA, NÃO MORDE

Por Susy Freitas 

Preciso que a leveza seja refinada, ou não me toca. Isso é o que eu gosto em você. É que eu existo desde que a luz rasteira de um por do sol nas costelas do meu piso de madeira inspirou os últimos versinhos de um herdeiro no chamado século XIX, a saber:

Vestido com a pele da juventude, 

Eu, que o tempo tocou com dedos rijos

e frios, tornei-me o esconderijo

da mais inexplicável incompletude.

Como se os anos passados faltassem,

E anos ‘inda vindouros sorvessem

A dor da ferida antes que doesse,

Eu, moço, ranjo como na velhice

perante as portas de um mistério mudo

Que paira no casarão, esse claustro

que acolhe e sufoca como o veludo

dos lacinhos nas vestes que, sinistros, 

adornam a mulher que amo em segredo.

Para ela, moço ou velho, inexisto.

E depois dessa o menino Benayon entregou-se a mim. Enforcado nas minhas entranhas, dependurado no que chamam de porão, o meu porão, ele me entregou uma de suas formas em troca de outras, e assim resolvi seu problema de incompletude. Eles chamavam de dias (mas eu chamo de uma única coisa: agora) o tempo que durou minha orgia com os organismos do menino Benayon, na qual ele me deu sua imobilidade, seus gases, fluidos e o mundo de criaturas que habitavam seu interior, para além de suas dores, memórias e esquecimentos. Mais um tempo, do que eles chamam de tempo, e teríamos nos fundido de forma que os demais compreendessem que ele havia se transformado em uma casa, eu, e a casa, eu, nele. Mas ele foi retirado cedo demais daqui, o que para mim também tanto faz; foi tarde demais, é tarde demais, e ainda somos uma mesma coisa no formato que preferir.

Morto para os vivos e vivo para tudo que não é humano: essa é a ironia da forma intermediária que ele tomou em mim, quando percebeu que ele também era a fita de veludo e o luto e as minúsculas partículas de poeira que insistiam em dançar através do mesmo por do sol que o convidou ao suicídio. O conceito de menino Benayon ficou muito pequeno para morar em suas partes constituintes, resumindo. Como a palavra tudinho, grande e pequena ao mesmo tempo. Como todo o resto. Como você é.

E aqui vai outra breve amenidade: para algo virar uma casa, deve antes se sintonizar às coisas de que somos feitas: a madeira, as famílias, o barro, os segredinhos, o suor, o metal, as pisadas, o tempo e muito mais, se é que você acredita nessas coisas enfileiradas. Construída a tempo suficiente, diria ninguém, porque não se diz isso sobre as casas, por mais que no fim tudo se torne uma. Sim, no fim, que é quando a brincadeira começa. E você também terá em breve algo desse herdeiro nas mãos, já carrega nelas algumas dessas coisas-enfileiradas-que-me-tocam e está prestes a adquirir ainda mais leveza, a das coisas-desordenadas-que-me-tocam. O motivo? O seu sangue, como de certa forma o dele antes de você, não para de jorrar.

O sangue dirá que é verdade se o espaço sideral convocar alguma pergunta para dentro do buraco negro onde antes rodopiava o açúcar na xícara transbordante do horizonte. É por isso que nós temos tudo para nos darmos bem: porque em algum momento, no século XIX, as flores desenhadas na xícara de chá servido num sarau do menino Benayon tinham a exata forma e disposição das flores desenhadas do lençol imundo no qual você anda enrolada, balbuciando a língua das estrelas pelas ruas do Centro, um alvo fácil de chacotas para estudantes do Fundamental que rumam às paradas de ônibus meio-dia enquanto ouvem hits coreanos no volume máximo do celular. Eu diria que é o destino, o seu destino, nós sermos uma só desde que você era um pouco de cada uma dessas coisas, ou seja, desde sempre, de nunca. Uma só com os letreiros que anunciam bairros e o sabor do almoço também. Entende?

Óbvio que há outros motivos para você me tocar. É que você é amarga, você entra em loopings, você repete e repete e repete mantras como Eu não presto, eles vão me pegar, as crianças estão à serviço de forças malignas, meu pai é a lama e outras verdades incontestáveis, as raízes dos cabelos encrespados à força, captando os mais sutis abalos sísmicos e o aroma de amaciante no lençol de uma casa em Macau. Suas sinapses estão ligadas no liquidificador e eu sinto a energia dessas grandes revelações alimentando a minha fiação elétrica, ou o que resta dela com esse nome. É que sou seu espelho, também. 

Toda a gratidão aos rombos que você abriu em seus pulsos com um generoso caco de vidro! Só assim para o meu piso voltar a brilhar após tantas luas, vermelho e quente. Os versos, o lençol de flores, as partículas de poeira, Macau, a corda no pescoço do menino Benayon, sua adorada, esse só pode ser um buquê de amor, ainda que seus olhos fixos na direção das minhas janelas encarem apenas tábuas velhas que fazem as vezes de cílios há pelo menos dezessete anos. Anos. Os calendários são as cutículas da alma. Anos. Um conceito engraçado e você já está farta dessa historinha infantil. Eu sei porque disso porque é o que seus poros suam.

Preciso admitir: eu gosto que você sangre. É isso que toda casa segura nas mãos quando existe numa mesma forma por tanto tempo. Se sangra, eu me visto do reflexo das estrelas antes de me tornar uma estrela. E se não sangra, não morde. Não me interessa.

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